O frontispício do opúsculo clandestino de 1969 e um extrato sobre a oportunidade das lutas reivindicativas. [Rádio Portugal Livre AQUI]
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Ajudas na manhã...
depois de leituras antes de adormecer:
"Unidade de movimentos não significa identidade de objectivos. Mal foi terem-se alimentado ilusões. Homens que se encontram e resolvem caminhar juntos não se tornam, por esse facto, irmãos gémeos. Pela mesma razão por que aglomerados aliados numa etapa dum movimento transformador se não fundem num só aglomerado. Muitas vezes marcham a par camadas da população, cujos interesses coincidem num movimento, mas que os destinos históricos virão a separar (...)"
Álvaro Cunhal
Aviso prévio
artigo publicado
no jornal O Diabo, nº 276,
de 6 de Janeiro de 1940
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
OUTRAS VOZES
HÉLIO BERNARDO LOPES “Notícias do Nordeste” 21/01/2013
Ao tempo, e mesmo depois de Abril, estas palavras foram usadas para (supostamente) mostrar não ser Álvaro Cunhal um democrata. Mas tratou-se de um ato de má-fé, porque o que ali se condenava era a falsa democracia de que já então se deu conta, e que conduziu o Mundo de hoje e Portugal ao estado de desastre que ninguém já questiona. Inquestionavelmente, a democracia (burguesa) de hoje é uma simples palavra, traduzindo um modelo onde uma minoria acaba por conseguir viver à custa da pobreza e da incerteza generalizadas da grande maioria. Já hoje, um pouco por todo o Mundo, intelectuais diversos defendem que a democracia se transformou numa passagem das velhas ditaduras nacionais, suportadas em visões diversas da organização social, para a nova ditadura dos designados mercados, autênticas máquinas de crime organizado internacional. E, como pode ver-se, não surge um só político do dito arco do poder que dinamize um movimento destinado a pôr um fim nesta sociedade de horror.
Álvaro Cunhal conquistou um indiscutível e inapagável lugar no imaginário coletivo e na História de Portugal e do Mundo, aqui por via do papel que desempenhou durante o exílio. E por tudo isto, cujos contornos foi possível observar ao tempo do seu funeral, eu sempre defendi que os seus restos mortais deverão vir a ocupar um lugar no Panteão Nacional. Não será o único, mas um direito que também é de todos os portugueses realmente livres, intelectualmente honestos e com uma atitude cristão perante a vida.
Álvaro Cunhal
Tiveram início neste passado sábado as comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, líder histórico do Partido Comunista Português, e figura cimeira do movimento comunista ao nível mundial. Como se pôde ver à saciedade, ao tempo e ao redor do seu funeral, Álvaro Cunhal de há muito havia conquistado um lugar cimeiro no imaginário coletivo português.
São três, em minha opinião, os meios para se poder aferir o que foi o papel histórico-político de Álvaro Cunhal: as obras que escreveu, mas que requerem já algum conhecimento da História e da Filosofia Política; os discursos e intervenções políticas; e a obra de José Pacheco Pereira, em diversos volumes, e sobre cujo conteúdo nunca Álvaro Cunhal levantou um infinitésimo reparo. Para lá destes aspetos, há toda a sua obra literária, mas também a sua intervenção no domínio da pintura, por onde mostrou facetas que o colocam, inquestionavelmente, como uma personalidade complexa, muito completa, com um humanismo que só pode encontrar-se quando se está despido de preconceitos e se procura, de facto, esclarecer a verdade histórico-política. No fundo, o que o nosso embaixador, José Fernandes Fafe fez com Fidel Castro.
Disse Jerónimo de Sousa, neste passado sábado, que Álvaro Cunhal mostrou uma evidente perceção do desastre que viria por aí e que hoje está à vista de todos, por cá e por partes diversas do Mundo. Não sei, de facto, ao que se referia o líder comunista, mas recordo uma posição escrita de Álvaro Cunhal, ainda de antes da Revolução de 25 de Abril, e que corrobora a realidade ora referida por Jerónimo de Sousa e já também defendida por muitos intelectuais e estudiosos de todo o Mundo e de quadrantes políticos diversos: não servia ao PCP a democracia burguesa, porque ela seria um tempo de passagem e só serviria a grande burguesia.
São três, em minha opinião, os meios para se poder aferir o que foi o papel histórico-político de Álvaro Cunhal: as obras que escreveu, mas que requerem já algum conhecimento da História e da Filosofia Política; os discursos e intervenções políticas; e a obra de José Pacheco Pereira, em diversos volumes, e sobre cujo conteúdo nunca Álvaro Cunhal levantou um infinitésimo reparo. Para lá destes aspetos, há toda a sua obra literária, mas também a sua intervenção no domínio da pintura, por onde mostrou facetas que o colocam, inquestionavelmente, como uma personalidade complexa, muito completa, com um humanismo que só pode encontrar-se quando se está despido de preconceitos e se procura, de facto, esclarecer a verdade histórico-política. No fundo, o que o nosso embaixador, José Fernandes Fafe fez com Fidel Castro.
Disse Jerónimo de Sousa, neste passado sábado, que Álvaro Cunhal mostrou uma evidente perceção do desastre que viria por aí e que hoje está à vista de todos, por cá e por partes diversas do Mundo. Não sei, de facto, ao que se referia o líder comunista, mas recordo uma posição escrita de Álvaro Cunhal, ainda de antes da Revolução de 25 de Abril, e que corrobora a realidade ora referida por Jerónimo de Sousa e já também defendida por muitos intelectuais e estudiosos de todo o Mundo e de quadrantes políticos diversos: não servia ao PCP a democracia burguesa, porque ela seria um tempo de passagem e só serviria a grande burguesia.
Álvaro Cunhal conquistou um indiscutível e inapagável lugar no imaginário coletivo e na História de Portugal e do Mundo, aqui por via do papel que desempenhou durante o exílio. E por tudo isto, cujos contornos foi possível observar ao tempo do seu funeral, eu sempre defendi que os seus restos mortais deverão vir a ocupar um lugar no Panteão Nacional. Não será o único, mas um direito que também é de todos os portugueses realmente livres, intelectualmente honestos e com uma atitude cristão perante a vida.
HÉLIO BERNARDO LOPES escreve para o Notícias do Nordeste diariamente. É Autor de uma vasta obra que se distribui pelo texto jornalístico, pelo ensaio e pela ficção. Professor universitário, Humanista e matemático de formação, leccionou no ensino superior, tendo sido professor na Escola Superior de Polícia. Exerce a escrita diariamente, sendo colaborador de um considerável número de jornais regionais.
Publicado Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013 | Por: Hélio Bernardo Lopes
Antologia
De uma intervenção de Álvaro Cunhal
em Dezembro de 2003:
(...)
4
Uma falsa avaliação da situação criou porém nas forças revolucionárias uma ilusão: que era irreversível o avanço revolucionário e o processo em curso de libertação da humanidade.
Para essa ilusão não se tiveram em conta três realidades.
A primeira: a capacidade mostrada pelo capitalismo, mais que os países socialistas, de não só desenvolver as forças produtivas, como de descobrir, desenvolver e aplicar novas e revolucionárias tecnologias.
A segunda: a utilização pelo imperialismo, designadamente pelos Estados Unidos, de colossais meios materiais e ideológicos, a repressão brutal contra os trabalhadores e os povos em luta, colossais meios financeiros, económicos, políticos e militares contra as revoluções, bloqueios, sabotagens, atentados, conspirações, acções terroristas e guerras declaradas e não declaradas.
A terceira: as tendências crescentes nos países socialistas, nomeadamente na União Soviética, para a centralização e burocratização do poder e para a estagnação, pondo em perigo o futuro da sociedade socialista em construção.
Todos estes elementos em conjunto conduziram, na segunda metade do século XX, à vitória do capitalismo na competição com o socialismo.
(...)
domingo, 24 de fevereiro de 2013
AO ENCONTRO DO ENCONTRO
Três curtos discursos em homenagem póstuma a Álvaro Cunhal
[primeiro discurso "Uma chama não se prende" AQUI]
2. AO ENCONTRO DO ENCONTRO
para que eu pudesse fazer o meu caminho pelo
caminho comum e partilhar o tempo
a invenção, o desejo, o trabalho e a luta por
uma terra sem amos
para que nas histórias lidas desde a infância
eu aprendesse a descobrir os meus
a articular aquelas palavras
sobre as quais o confronto ainda não terminou
e assim nos movem para que eu pudesse sentir-me esperado sobre
esta terra tão dilacerantemente bela
e tão insuportavelmente devasta
para que tendo aprendido a falar eu tivesse
podido encontrar os outros na minha língua
para que eu pudesse olhar, estender as mãos
e encontrar o corpo do mundo
como a minha tarefa comum
para que eu viesse e pudesse chegar a esta reunião contínua
esta assembleia de homens
explorados e livres, oprimidos e
livres
foi necessário que a convocatória chegasse até mim
foi necessário que eles continuassem reunidos e me esperassem
foi necessário que tu tivesses vindo e chegado antes
que te tivessem acolhido e te tivessem transformado o nome próprio
em nome comum
Manuel Gusmão
De vez em quando, um desenho - desenhos originais - 7
Porque o anterior desenho (dos originais) suscitou algumas dúvidas nalguns amigos/as, aqui vai um outro, muito rapidamente:
ver a "história" dos desenhos
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
(re)Leituras urgentes…
Quanto mais não fosse para demonstrar que aquela coisa “maluca” do Facebook não serve apenas para as avozinhas e os avozinhos partilharem fotografias dos netinhos, ou para Cavaco Silva e Passos Coelho partilharem alarvidades… muito antes pelo contrário, pode ser mais um espaço para estarmos “de pé”… aqui fica, acabadinho de “surripiar” à página de Facebook do PCP-Carnaxide.
«No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.»
Álvaro Cunhal, «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», 1970.
Um Problema de Consciência
Álvaro Cunhal
Um Problema de Consciência
[1939]
O exterior parece terrivelmente inimigo. Como se nas ruas só passassem funerais. Como se nos roubassem a família, os amigos e quedássemos sós e desamparados.
A tragédia intensa do presente emprenha a visão do futuro de sombrias expectativas. Afigura-se a muitos que no futuro haverá sempre rostos empalidecidos e cheiro a pólvora e a sangue quente. Ontem parecia que o dia de hoje havia de ser risonho e acolhedor. E agora, agora, que grande serenidade para poder crer no dia de amanhã!
Quando a vida é incerta e baila ante os homens a perspectiva da morte, inunda-os uma ansiedade traduzível assim: «irei tão cedo deixar de ser?»
Só um grito desesperado de momento pode afirmar que esta vida não vale ser vivida. Quando se marcha em direcção ao espectro, mesmo que os passos sejam voluntariosos e firmes, o bater do coração compassa a ansiedade. O futuro é negro: mas na própria negrura não há ausência de luz.
Por isso, ante os perigos, a expectativa traduz-se: «irei tão cedo deixar de ser?» E, quanto mais desalentadora é a visão do mundo que fica, quanto mais fundo é o remorso de pouco se ter feito para deixar aos filhos mais valiosa herança, mais dura e brutal aparece a visão da morte.
A admissão da estabilidade de um mundo a que se não podem mostrar os corações, força a lançar rápido e iluminado olhar ao tempo em que se esperou, em que os ora desalentados ainda tinham fé no que hoje não é presente e então parecia vir a ser futuro. Uma derrota profunda e dorida leva muitos a pensar que haverá sempre e só derrotas. Ver morrer os outros vencidos; talvez também morrer vencido. No vasto mundo muitas vezes se apagam vidas, ao procurarem derrubar velhos e endurecidos troncos. E há sempre quem represente o papel de irmão desalentado: «Para quê viver? Coisas que sempre foram e hão-de ser... O homem vive encadeado a leis irresistíveis. Inúteis os sacrifícios dos que procuram modificar os seus ditames». Como se os homens não pudessem construir a sua própria história. Como se as leis da evolução das sociedades não reservassem lugar à vontade humana.
Horas de dor, de sofrimento, de tragédia. Horas em que a expectativa da morte baila com insistência ante os olhos.
Então o homem sente necessidade de justificar a sua própria existência. Há que dar uma resposta às perguntas: «que andei e que ando por cá a fazer? Que tenho feito pelos outros e pela história?»
O homem teme deixar de ser na terra. Um sono sem despertar choca violentamente contra a estrutural vontade de viver. O ser recusa-se a aceitar o próprio desaparecimento. O apagamento total e sem apelo é incompatível com a existência actual.
Por isso, aqueles que acreditaram e não crêem fogem, afastam-se, renunciam. Por isso também há homens que projectam a sua existência para além da morte. Uma alma que voe para rumo extra-terreno. Ou um ser que se desintegra para subsistir integrado em novos seres. Qualquer coisa que justifique o caminho percorrido entre o nascimento e a morte. Sonha-se para fora da terra com uma vida que nesta se não tem. Ou sonha-se com o que fica...
A morte é elemento essencial da vida. Mas isso não basta para que se aceite sem mágoa. É que a pergunta: «deixarei de ser hoje? amanhã?» — intensifica e aproxima o grande problema de consciência: «O que andei por cá fazendo? Que fica sobre a terra da minha passagem sobre a terra?»
Não satisfaz uma vida além-túmulo, mesmo que a imaginação empreste à alma asas imateriais. É esta terra donde brotou o pão que manteve o corpo e a água que matou a sede, esta terra donde tudo (mesmo pouco) nos veio e para onde iremos — e é esta humanidade a que pertencemos, este grande colectivo a que nos liga o sangue, o amor, o ódio e a interdependência — é esta terra e esta humanidade que nos exigem uma explicação.
Assim o problema da morte é o problema da vida. Depois que desapareça tudo o que de nós houve! Ou que subsista a alma! Ou que os vermes perpetuem a existência do nosso corpo!
Mas a expectativa da morte ou dum futuro de sombras perpétuas (que derrotas intensificam) chama a recordação do passado. Que poderia ter feito para que meu irmão não fosse vencido? Não lhe deixei só a ele uma tarefa que também me pertencia? E ainda... Que foi feito de toda esta energia dispendida em vida e tão sofregamente sugada? Que fica — não do meu corpo ou da minha alma — que fica das minhas acções duma vida inteira?
E a perpetuidade da nossa vida, a resistência contra um breve deixar de ser, fixa-se neste ponto vital: a justificação e perpetuidade das próprias acções, do que se fez no caminho percorrido entre o nascimento e a morte.
Haverá espectáculo mais doloroso que o do velho que olha atentamente o passado, medindo cada passo, avaliando o efeito de cada gesto, e por fim tem um grito de desalento, remorso e desespero: «uma vida inútil...?» Haverá constatação mais angustiosa que a da própria inutilidade? Não será precisamente essa constatação que as mais das vezes leva ao desejo de não ser? A inutilidade da vida é a afirmação de que nada fica das acções praticadas, de que se gastou o tempo a queimar tempo.
E então talvez valha a pena fitar a morte e esperar o para lá. A não ser que se olhe em frente — mesmo que o limite se espeque num amanhã irrefutável — e se marque uma finalidade à vida.
Quando a perspectiva da morte ou dum futuro trágico baila ante todos, até os jovens, como os velhos, olham o passado. E, depois, quantas vezes o desinteresse e a renúncia não vêm juntar a uma derrota ou a um momentâneo recuo colectivo, uma irremissível derrota individual.
...Porém, quando assim se não voga ao sabor da corrente, mas antes se escolhe caminho e se marcha, novamente o futuro sorri, à nossa vida ou à nossa morte. Sorri porque nele se adivinham marcadas as acções que vão ser praticadas. Porque a nossa vitalidade é afinal a direcção do que vem. Porque se ganha confiança na perpetuidade dos nossos actos. Subsiste a alma? O apodrecimento e desintegração é a última étape? Que interessa isso, se ganhámos uma nova eternidade!
Enquanto a humanidade for humanidade, as acções que hoje praticamos estarão sempre presentes, resistindo ao tempo e ao esquecimento a que nos votarão os nossos netos. Já os nossos corpos terão perdido a forma humana, já as suas partículas viverão separadas e dispersas e ainda nas sociedades futuras os efeitos dos efeitos das nossas acções evocarão a nossa passada existência. Com esta concepção, sentimo-nos (hoje) obreiros anónimos do futuro. Ao problema da morte, do não ser, responde satisfatoriamente a certeza consoladora deste prolongamento da nossa existência. Se se pudesse falar em eternidade, esta seria a única eternidade da nossa vida, como seres pensantes e voluntariosos.
Por isso, quanto mais sorridente é a visão do mundo que fica, quanto mais funda é a consciência de que tudo se fez para deixar aos filhos valiosa herança, menos dura e menos brutal aparece a visão da morte.
Não se trata de olhar para trás e perguntar com angústia: «que fiz? que fiz?» Trata-se de olhar em frente e perguntar com confiança e serenidade: «que poderei ainda fazer?» Não é só um exame de consciência que urge fazer: é também um apelo à consciência!
Com tal procedimento não se visa conquistar a absolvição dum juiz que após a nossa morte nos venha a ter em frente sentados no banco dos réus. Além da história, ninguém nos pedirá contas. Nem a nós, nem aos nossos espectros. Somos nós que nos devemos interrogar e julgar. Isso nos exige a vontade de viver e de perpetuar a nossa existência. Isso nos exige a gratidão. Isso nos exige a lembrança dos irmãos que morreram ao pretender desenraizar endurecidos troncos. Pode não conhecer-se o triunfo. Mas pode soçobrar-se sem que no mundo fiquem só trevas. Talvez assim nos venha acalentar a necessidade dum sacrifício heróico. E então, porque não falar em felicidade?
Num mundo em que não há risos sem lágrimas, a felicidade nunca pode ser uma situação com caracteres próprios e momentâneos. A felicidade não pode existir, não existe, como situação particular: nem quando dependente de factos estranhos à própria vontade; nem como ideia abstracta. A felicidade só pode existir como um atributo de toda uma vida. Só a satisfação pela vida que se vive poderá tornar feliz. Há então que não subordinar as acções ao alcance dum prazer. Mas antes amoldar a ideia de felicidade à vida que se vive.
Quando não nos sentimos meros joguetes da evolução mas, pelo contrário, sentimos que, mesmo ao de leve, as nossas energias modificam o seu ritmo. Quando sabemos ser leais, rectos e solidários. Quando amamos profunda e extensamente e nos sentimos capazes de sacrificadas demonstrações do nosso amor. Somos felizes porque não desejamos outra vida, porque sentimos preenchida a própria função humana. A felicidade só existe assim como condição da consciência da própria utilidade. Não dispersar actividades. Proceder com um critério. Ser coerente em todas as atitudes. Agir com uma só linha de conduta. Ter fé na própria vontade, embora aceitando as suas determinantes. Convicção de impotência e felicidade excluem-se.
Assim far-se-á da própria vida uma vida feliz. Feliz nas horas de ascenso e nas horas de derrota. Feliz na alegria e na tristeza. Porque, na felicidade, prazer e dor interpenetram-se. Até o estertor final pode conduzir à felicidade pela convicção de que se morre bem. Não pode haver felicidade sem dor, porque esta é inseparável da vida. Que se sofra! Mas que as vontades saibam amordaçar o sofrimento para triunfar. E para isso, é necessário forjar nos peitos o desinteresse pessoal por prazeres efémeros, a rijeza de aço para lutar, o esclarecimento das exigências dos sentidos. Através da dor e da angústia, corações ao alto!
Se a felicidade é dada pela satisfação da linha de conduta, pela satisfação de que se procede bem, nada, nada, nem os gritos da própria carne esfacelada, nem lágrimas de emoção, nem a revolta instante e desesperada, pode destruí-la. Porque, acima dos próprio gritos, das próprias lágrimas, do próprio desespero, fica sempre a certeza duma vida voluntariosa e independente ou – se se preferir a expressão – recta, leal, digna.
Então suporta-se a dor e ama-se a vida. Podem as leis da natureza esfrangalhar o corpo. Podem os órgãos começar cansando. E as pernas vergando de fadiga. Amortecendo-se a percepção. O corpo começar em vida o seu desagregamento. Poderá bailar ante os olhos a perspectiva da morte e o fim especar-se num amanhã irremissível.
E haverá sempre vontade de continuar, procedendo sempre e sempre duma forma escolhida, marchando sempre para um destino humano e uma missão terrena voluntariosamente traçada. Haverá sempre anseio de continuidade e aperfeiçoamento.
Atravessar-se-ão tragédias com lágrimas nos olhos, um sorriso nos lábios e uma fé nos peitos.
primeira publicação: jornal «O Diabo» n.º 233, de 1939
in Obras Escolhidas - I - 1935-1947 (página 41) .
in Obras Escolhidas - I - 1935-1947 (página 41) .
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