«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

sábado, 31 de agosto de 2013

Debate em contraditório versus farisaísmo

Extractos de uma espécie de diário:
(...)
Num jornal desse dia, o Público, que por mero acaso me caiu nas mãos, um título “agarrou-me”: Obrigado, dr. Cunhal!
&-----&-----&
Sem me iludir, mas aberto a surpresas agradáveis que a comemoração do centenário de Álvaro Cunhal tem proporcionado, li-o com interesse, até porque o tema era Debate-Interrupção da gravidez, e a escrita escorrida e escorreita, como é próprio de quem faz da língua um veículo de argumentação e de doutrinação. 
&-----&-----&
Pois o autor – o doutor Portocarrero de Almada (PdeA) – fez do seu escrito uma verdadeira lição de farisaísmo.
&-----&-----&
Se começa por se associar a “essa venturosa efeméride” do centenário do nascimento do “mítico secretário-geral do Partido Comunista Português”, o excurso bem nos deixa a dúvida sobre o que PdeA considera venturoso na efeméride.
&-----&-----&
Enuncia ele três motivos para justificar o que  diz ser “homenagem, que parece contradizer a minha condição de sacerdote católico” e que, por o ser como é, exclui a contradição dialéctica.
&-----&-----&
Logo o prova ao enunciar o primeiro motivo – de ordem familiar! –, revelando um incontido azedume por Cunhal se referir, «em tom muito depreciativo, a um meu avô, também jurista e autor de O crime do aborto, obra contrária a todo e qualquer aborto, que já Santo Agostinho considerara “o mais abominável crime”»
&-----&-----&
Que PdeA, tal como seu avô e Santo Agostinho, assim pense não é de estranhar e está no seu pleníssimo direito.
&-----&-----&
Já não se pode aceitar que, ao referir o segundo motivo, sublinhando que Cunhal afirma que “o aborto é um mal”, embrulhe essa afirmação numa argumentação que pretende ignorar o carácter jurídico da tese de Cunhal, que trata da descriminalização do aborto terapêutico e, sobretudo, ataca as causas da existência do mal e procura prevenir os perigos da sua clandestinidade, a que os estratos populacionais economicamente folgados se eximem pagando o preço que for acordado e/ou onde ele esteja legalizado.
&-----&-----&
O terceiro motivo é, diria, ridículo, pois PdeA considera que a apresentação daquela tese – “não obstante o reduzido mérito científico do trabalho”, como tão depreciativamente o etiqueta – desmente “uma certa historiografia moderna (que) negaria liberdade de opinião e de expressão nos meios universitários”, apesar de conceder o “inegável e censurável carácter autoritário do antigo regime”.
&-----&-----&
“Antigo regime”, a que idónea historiografia chama fascismo e que torturou violentamente o “beneficiário dessa “liberdade de opinião”, lhe pôs em vida em perigo várias vezes - como camaradas seus não resistiram -, o encarcerou (8 anos em isolamento) de que só se libertou em fuga colectiva heróica
&-----&-----&
Mas se o “Obrigado, dr. Cunhal!” ilustra a hipocrisia de todo o texto, justifica-se que, a título pessoal, agradeça a PdeA o ter-me obrigado a procurar a referência ao seu avô feita por Álvaro Cunhal, e assim ter-me levado a reler o trabalho em que este terá sido depreciativo para o seu antepassado.
&-----&-----&
É que, segundo Cunhal no seu trabalho, há quem fale «com notável impudência de assuntos de que mostra ignorância: “Nem no caso da prenhez ser consequência de violação sobre (sic!) mulheres idiotas, admitimos que seja provocado o aborto, visto que, sendo ainda muito obscuras as leis da hereditariedade, o que há a fazer, como nos outros casos de violações, é confiar-se a criança aos cuidados do Estado”» (O crime do aborto, Dr. Mendes Correia, Lisboa, 1935, pg.127)
&-----&-----&
Mas, sendo essa uma posição ideológica, vai mais longe, reclamando que se “recuse o direito de dar vida a alienados, a epilépticos, a degenerados, a criminosos, a vagabundos, a estropiados físicos e psíquicos, a mendigos profissionais, a alcoólicos, a sifilíticos.”
&-----&-----&


Sem aborto, terapêutico e em quaisquer circunstâncias, e a caminho da raça pura, em que se incluiria, evidentemente, a castração como pena para alguns crimes ou situações!
(...)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Lançamento da Fotobiografia de Álvaro Cunhal



600 fotos com a vida e obra de Álvaro Cunhal

São 296 páginas que retratam a vida e a obra do secretário geral do PCP e que as Edições Avante editam no ano em que se comemora o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. O livro começou  a ser vendido ontem no Liceu Camões, onde se realizou a sessão de lançamento.



Um dos coordenadores da obra, Manuel Rodrigues, do Comité Central do PCP, folheou com a repórter Teresa Dias Mendes as 600 fotografias, muitas delas inéditas. 

Clique na imagem abaixo para ouvir a conversa


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

MEMÓRIA



MEMÓRIA

Dele não conto
o dia-a-dia
do corpo da liberdade

Na minha memória
ele está antes: seu lutador

Seu destemor
seu fazedor de ofício e arte


Maria Teresa Horta
Lisboa, 11 de Março 2008

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Fotobiografia




























Álvaro
nos 
100 anos
de LENINE

Coexistência pacífica

Uma "encomenda" - das que dão muito gosto satisfazer... - está a exigir a consulta de algumas fontes de informação e formação. Naturalmente... o recurso a um trecho de Álvaro Cunhal, retirado de A situação no movimento comunista internacional (informe apresentado na reunião do Comité Central do PCP, Agosto de 1963), no tomo II (1947-1964) das Obras Escolhidas, edições avante!:

«(...)






























(,,,)»

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

CEE (Álvaro Cunhal, «Discursos», 1980)

«É uma visão idílica imaginar que o Mercado Comum é uma associação de países ricos e filantrópicos, prontos a ajudar os países mais atrasados. O PCP tem assumido a defesa das relações económicas e comerciais com a CEE. Mas tem considerado que uma integração provocaria ainda maiores dificuldades à economia portuguesa… Os países do Mercado Comum defendem os seus interesses próprios e por eles estão prontos a sacrificar os interesses dos outros. Mesmo quando admitem o alargamento da comunidade a Portugal, Espanha e Grécia, não é para ajudarem os países que estão de fora mas para que a entrada destes sirva os interesses dos nove que estão dentro... Nós, comunistas, não aceitamos que as decisões acerca dos problemas nacionais caibam ao imperialismo, caibam ao estrangeiro!»

(Álvaro Cunhal, «Discursos», 1980)

Ir lembrando





segunda-feira, 12 de agosto de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Álvaro Cunhal homenageado em Setúbal

Álvaro Cunhal homenageado em Setúbal
Antigo dirigente comunista integra toponímia da cidade

Álvaro Cunhal é homenageado em Setúbal com a integração do nome do antigo dirigente comunista na toponímia da cidade, após a aprovação da Câmara Municipal da proposta apresentada na reunião pública ordinária realizada ontem à tarde.

A futura Avenida Álvaro Cunhal, localizada na freguesia de S. Sebastião, ficará delimitada pela Estrada Nacional 10 ao Alto da Guerra e a confluência da A12 com as avenidas Antero de Quental e Pedro Álvares Cabral.

Álvaro Barreirinhas Cunhal nasceu em Coimbra, a 10 de novembro de 1913 e faleceu em Lisboa, a 13 de junho de 2005.

Filho de Avelino Cunhal, conhecido advogado de Seia, e de Mercedes Barreirinhas Cunhal, foi, além de destacado dirigente comunista, também escritor, artista plástico, intelectual e ensaísta.

Aderiu ao Partido Comunista Português em 1931, com apenas 17 anos.

Em 1934 foi eleito representante dos estudantes no Senado da Universidade de Lisboa. No ano seguinte é eleito secretário-geral da Federação das Juventudes Comunistas e, em 1936, integra, pela primeira vez, o Comité Central do PCP.

Em 1940, escoltado pela PIDE, defendeu na Faculdade de Direito a tese de licenciatura sobre a temática do aborto e da sua despenalização, trabalho em que obteve a nota de 16 valores atribuída por um júri presidido por Marcelo Caetano.

Em 1960 evade-se, com outros presos políticos, todos destacados quadros do PCP, da prisão de Peniche, onde estava encarcerado desde 1949, numa operação marcada por minucioso planeamento e grande ousadia.

Apesar das difíceis condições dos cárceres do regime salazarista, o antigo líder do PCP consegue dedicar-se à pintura, ao estudo e à leitura e é neste período que faz uma das mais conhecidas traduções e ilustrações da obra “Rei Lear”, de Shakespeare.

Em 1961 é eleito secretário-geral do PCP, cargo que ocupa até 1992.

Na extensa obra literária publicada sob o pseudónimo Manuel Tiago, que apenas revelou em 1995, destaca-se o romance “Até Amanhã Camaradas”.

Foi ministro sem pasta nos primeiro, segundo, terceiro e quarto governos provisórios depois do 25 de Abril, deputado na Assembleia da República entre 1975 e 1992 e membro do Conselho de Estado entre 1982 e 1992.

A proposta votada ontem pela Autarquia seguiu-se à aprovação da Comissão Municipal de Toponímia, em reunião realizada a 18 de abril.
 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Entre as 100 figuras portuguesas que moldaram o século XX, segundo o Expresso

Entre os 100 portugueses que o Expresso (por Henrique Monteiro e Rui Ramos, na Revista) escolheu como as figuras que moldaram os 100 anos do século XX, não podia faltar Álvaro Cunhal.
As quatro páginas que lhe são dedicadas (duas com uma fotografia) ilustram bem o embaraço que Henrique Monteiro, o autor do texto, confessa ao iniciá-lo:
«Escrever sobre Álvaro Cunhal pode ser das tarefas mais traiçoeiras do mundo».
E explica porquê, ao mesmo tempo que, logo de rajada, revela os preconceitos, as contradições, as incorrecções, até o mau trabalho profissional, de que eivou o seu escrito.
«Começamos por onde? Pela sua simpatia ou pela sua intolerância? Peça coerência política ou pela incoerência de estar sempre de acordo com Moscovo, mesmo quando Moscovo mudava? Pela enorme cultura ou por uma certa simplicidade, misturada com falsa modéstia, que gostava de fazer passar? Pelo homem ou pelo político?».
Nestas perguntas está Álvaro Cunhal (simpático, coerente, culto, simples, homem e político, ou político porque homem), e está o que o preconceito e a luta ideológica obriga a dar como caricatura e anti-retrato de Álvaro Cunhal. E o texto mostra o cumprimento dessa tarefa traiçoeira de, sem deixar de dizer o que Cunhal foi, fazer a contra-apologia por via do que Cunhal não foi mas que deve ser dito que foi (aqui mais uma vez...). Além de imprecisões e erros inaceitáveis, mas que mostram alguma falta de rigor e profissionalismo. 
Exemplos:

  • «... Mas em 1949 foi de novo preso e encarcerado no forte-prisão de Peniche, onde permanecerá 11 anos - oito dos quais em isolamento.»
  • «... em 1960, que nasce, da ligação com a militante Maria Moreira, a única filha, Ana Maria, hoje com 43 anos...»
  • «... sem nunca esclarecer de onde viera (Cunhal jamais revelava esses dados ao certo) aterrou no aeroporto da Portela, proveniente de Paris.»
  • «Logo ali, saltou para cima de um Chaimite (carro de combate) recriando assim a chegada Lenine, fundador da URSS, a São Petersburgo.» (não resisto a comentar: falso e ridículo!)
  • «... três anos depois da queda do Muro de Berlim, que revelou, aos que ainda não tinham dado por isso, a miséria do comunismo...»
  • «... menos ainda foi seduzido pela perestroika de Gorbatchov.» («sempre de acordo com Moscovo, mesmo quando Moscovo mudava»?!... por favor!, que incoerência de texto!)
  • «Apesar das pessoas que, politicamente, foi eliminando, Cunhal tornou-se um ícone.» (... e não se podia exterminá-lo?!...)
  • «... é ortodoxo até à medula, mas consegue ser mais heterodoxo do que muitos camaradas de partido...»
Para terminar o seu texto, HM conta um episódio que dá gosto (melhor: gozo) transcrever:
«Pessoalmente, cobri a sua última campanha eleitoral. Andava sempre elegantemente vestido e tinha hábitos distintos. Havia, porém, um pormenor que me intrigava: nunca largava uma pochette, que transportava debaixo do braço. Durante toda a campanha perguntei-lhe o que trazia na bolsa e ele recusou sempre responder, embora de forma amável, acusando-me de querer publicar algo de "escandaloso" ou "reaccionário" no Expresso. Um dia, porém, em que estive a sós com ele (os jornalistas quase todos estavam a protestar por algum motivo), voltei à carga e perguntei:
- O que traz aí, dr. Cunhal?
Ele respondeu que me daria uma prova de confiança se eu jurasse não revelar a ninguém, coisa que cumpri até hoje. E então respondeu, pondo um ar severo:
- Uma bomba!
Fiquei sem saber o que dizer, até que ele, já com um sorriso desconcertante, me mostrou, a bomba de asma que transportava para o caso de ter uma crise.»

Fica o registo.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

agenda com cinema, música e desenho.


 

Novas gerações abordam obra de Álvaro Cunhal


«No ano em que se celebra o centenário do nascimento do ex-líder do PCP, anuncia-se agenda com cinema, música e desenho.
Entre o cinema, a música e as artes plásticas há uma programação em preparação para assinalar o centenário de Álvaro Cunhal, que nasceu em Coimbra a 10 de novembro de 1913. A referência ao antigo líder do PCP "é sobretudo um ponto de partida, mais do que um aspeto central", explica em comunicado Tiago Vieira, do Secretariado da Juventude Comunista Portuguesa, anunciando uma agenda que assim alarga horizontes para lá da figura e sua obra.
O que faz, por exemplo, o concurso de curtas-metragens Cinco Dias, Cinco Noites - Este País também É para Jovens! é propor aos participantes o desafio de levarem para o ecrã a temática da obra Cinco Dias, Cinco Noites, escrita por Álvaro Cunhal sob o pseudónimo Manuel Tiago.» DN.Foto Gustavo Bom

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Aurélio Santos - "a pergunta que nunca lhe fiz"

- Edição Nº2070  -  1-8-2013


Comentário
A pergunta que nunca lhe fiz

Image 13741

Muitos, foram vítimas silenciosas da exploração e da opressão, vítimas submissas por julgarem ser esse o seu destino. Alguns, enfrentando corajosamente o medo, confrontaram a voz do poder com o poder da sua voz, exigiram justiça e dignidade, ajudaram a construir a História dos dias de hoje.
Poucos, tiveram força, determinação e abnegação bastante para gastar a vida por inteiro numa luta incessante pelo quebrar das grilhetas que tornam os homens menos livres.
Foi isso que fez deles homens diferentes, os tornou grandes e justamente os inscreveu na História dos homens.
Percorro a exposição no pátio da Galé sobre o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal onde quase tudo me é bastante familiar. Fomos companheiros de luta na clandestinidade e na Revolução, durante décadas.
Detenho-me na reconstituição do que foi a sua cela na Penitenciária de Lisboa. Espaço exíguo, onde por um ainda mais exíguo postigo gradeado se escoa uma ténue luz. Pergunto a mim mesmo: Como se resiste, incomunicável, durante sete longos anos? Por que se resiste?
À memória chegam-me as suas palavras numa entrevista, após a fuga de Peniche: «Certamente é possível enlouquecer ao ter consciência de que, adiante, nada mais existe, que te encontras preso e não podes fugir desses ásperos muros, pó de cimento imóvel, fugir dos surdos passos do vigilante que anda no corredor.»
Como se resiste, por que se resiste? O sótão das memórias devolve-me agora os comentários feitos por comunistas espanhóis que com ele se encontraram clandestinamente, na casa do Penedo em Sintra, no fim da 2.ª Guerra Mundial: «A sua extrema magreza impressionava, as orelhas pareciam transparentes. Vivia com imensas dificuldades, os comunistas portugueses tinham muitas dificuldades financeiras.»

E vem-me à lembrança aquela pergunta que nunca lhe fiz...
Conheci Álvaro Cunhal em Moscovo após a fuga de Peniche. Não descobri nele vestígios por aquilo que seria uma compreensível amargura por tantos anos privado de tudo. Pelo contrário, sempre lhe vi uma natural e sincera afabilidade e uma profunda confiança na capacidade dos trabalhadores e do povo português no derrube do hediondo regime fascista que tão barbaramente o tinha tratado.
Mais tarde, quando trabalhava na Rádio Portugal Livre em Bucareste, tive com ele contactos mais regulares. Cunhal era um homem de convicções fortes, com uma determinação e firmeza inquebrantáveis, mas paralelamente existia nele um profundo conhecimento e compreensão pela complexidade e fragilidades da natureza humana. A sua visão arguta e abrangente da realidade permitiram-lhe sempre o gizar de caminhos que se revelaram um precioso e valioso contributo na vida do PCP.
Desde o primeiro dia em que o conheci que persistiu em mim a tentação de lhe perguntar: Álvaro, por que te tornaste comunista? À pergunta que nunca tive coragem de formular ele foi-me respondendo dia após dia, todos os dias, com uma firmeza e uma convicção que estão muito para além de uma opção ideológica. Só uma opção de vida e de generosidade as poderia justificar.
Recentemente alguém ao referir-se a Álvaro Cunhal afirmou: «o que torna os homens grandes não é o que fizeram por si ou para si, mas o que fizeram pelos outros.»
Álvaro Cunhal ajudou a abrir a estrada por onde um dia o sonho se tornará verdade, se fará real, por onde os homens libertos da sua condição de escravos dos novos tempos, se tornarão mais homens, porque livres.
Mais cedo do que tarde a História o confirmará.
Por esse legado de profunda coerência e inteira dedicação ao nosso colectivo partidário e ao povo português – obrigado Álvaro.
Obrigado, camarada.









Aurélio Santos