«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

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quinta-feira, 4 de abril de 2013

A propósito de uma iniciativa da CGTP




José    Casanova



A segunda carta

Em «carta à direcção da CGTP» (Público, 2/4), meia dúzia de «investigadores ligados às questões do trabalho» criticam severamente a central sindical por «promover uma iniciativa no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal».

Ancorados num luzido mostruário de siglas – ISCTE-IUL; CES-FEUC; UTAD; UMinho; SOCIUS-ISEG-UTL – os investigadores começam por dizer que «não está em causa a figura de Álvaro Cunhal», mas… logo adiante constata-se que é isso mesmo que está em causa: a figura de Álvaro Cunhal e a sua acção enquanto dirigente do PCP.

É claro que os investigadores, generosos, magnânimos, possuídos por elevado espírito democrático, autorizam, vá lá, que dirigentes do CGTP «possam juntar-se às comemorações» promovidas pelo PCP – o que não toleram, isso nunca, é uma comemoração promovida pela central sindical.

E explicam porquê. Fazem-no com argumentos velhos, conhecidos, sabidos, consabidos e, obviamente, fruto de laboriosa investigação. Em boa verdade, repetem, enfeitado com bambinelas de modernidade, todo o velho receituário dos ataques ao movimento sindical unitário nas últimas décadas: o blá-blá-blá das correias de transmissão, ão, ão, ão…

Corrijo-me: avançam com um argumento novo! Este: «Álvaro Cunhal foi dirigente de um partido político e não da central sindical». Brilhante!

Se os investigadores deitassem uma olhadela à obra desse «dirigente de um partido político», designadamente aos textos que, desde pelo menos o longínquo ano de 1943, produziu sobre trabalho e movimento sindical, encontrariam matéria de sobra para concluir o contrário do que concluíram. Isto porque ficariam em condições de avaliar e valorizar o contributo singular dado por Álvaro Cunhal em todo o processo de construção, fortalecimento e defesa do projecto sindical que a CGTP-IN corporiza: unitário, de classe, independente, de massas, democrático. E, por isso tudo, revolucionário. E, por isso tudo, a provocar ódios e raivas ao grande capital e aos seus propagandistas.

E se tal fizessem acabariam por concluir da necessidade imperiosa de enviar uma segunda carta à CGTP-IN: desta vez a felicitá-la pela justa homenagem que prestou a Álvaro Cunhal.

Excelente resposta a uma carta algo insólita,
se não fosse bem compreensível....
E em comentário de nossa responsabilidade,
que nada acrescentará,
não resistimos a lembrar que
a central sindical unitária é de classe,
e que o partido de que Álvaro Cunhal 
foi destacado dirigente
também é um partido de (da.mesma) classe.
não havendo, nem devendo haver, 
qualquer confusão entre as duas organizações.
S.R. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

TESTEMUNHO


ENTRE AS FLORES DE JUNHO

As tuas cinzas jazem num canteiro No último combate com a fatalIdade No derradeiro encontro das Quatro Estações Assim te semeaste nos Jardins da Terra Assim respondeste às bandeiras nos túmulos numa tarde de sol para todos nós Entre as flores de Junho

Álvaro

Saiu uma
nuvem de adeus No crematório Entre as jacarandás Vestidas de roxo

Álvaro
Tu sabias que eras criaDor Tu sabias que eras breve mas jamais ausEnte
Álvaro
Não vale a pena dizer que não morreste Vale a pena dizer o que deve ser dito Que nos ensinaste a viVer e a morrer

Álvaro
Não repetirei os passos da tua vida Não recontarei os passos da tua morte Somente lembrarei que a História da Humanidade e a História de Portugal estiveram no teu cortejo e bem se que continuarão a precisar do teu nome Para escreVer o nome do Homem

Álvaro

Lámpara
Marina em cada anoitecer Na melancolia recliNada nas janelas de Lisboa

Álvaro

Dir-te-ei Continuas
presEnte no mundo Embora te tenhas ausentado em Junho

Álvaro
Nunca será em vão chOrar por ti Mas cantaremos todos os dias Até que amanhã seja hoje
CÉSAR PRÍNCIPE 

sábado, 30 de março de 2013

De conversavinagrada.blogspot.com

Álvaro Cunhal, 

"Porque nenhum de nós anda sozinho/E até mortos vão a nosso lado"


"Como, estás louco? Mesmo sem olhos um homem pode ver como anda o mundo. Olha com as orelhas. como aquele juiz ofende aquele humilde ladrão. Escuta com o ouvido, troca os dois de lugar, como pedras nas mãos; qual o juiz, qual o ladrão?"  (Rei Lear)

(A morte de Cordelia – filha do Rei Lear)


Eu, que sou corpo e apenas porta-voz do que decidem o Meu Contrário e a Minha Alma, venho cumprir o compromisso de aqui escrever sobre o homem, o escritor, o artista, o ensaísta, o resistente, o lutador, o político, todas as semanas durante todo um ano em que se celebrará o centenário o seu nascimento. Escolheram, Minha Alma e Meu Contrário, que escrevesse hoje sobre Rei Lear, peça de William Shakespeare, e que Álvaro Cunhal traduziu em reclusão (entre 1953 e 1955, na cadeia de Lisboa, sob o pseudónimo Maria Manuela Serpa). Minha Alma e Meu Contrário me aconselharam a que o fizesse: sem esquecer o que terá sido o feito, em tais condições de privação da liberdade; o que terá sido o feito, sobre a pressão de quem levava vida perseguida; o que terá sido o feito, se quem o fez não saberia se o dia seguinte iria existir... Não saberemos nós como o pensar, por ser inimaginável que tivesse superado a adversidade e deixado tal obra acabada e em condições de merecer elevados elogios, por quem faz oficio de tradução o seu próprio ganha pão. Sobre a escolha de Rei Lear para tal trabalho, Minha Alma não tem dúvidas, a trama e o drama, além de permanecerem actuais, reúnem todos os valores (e a sua ausência) que justificam e explicam a sua luta. Meu Contrário realça o desafio, vencido, que expõe o intelectual  perante si mesmo, e acha o feito extraordinário: como foi possível, rodeado de esbirros e de ratos?


In “blog” – Conversa avinagrada.
Obrigados!

Um texto "à medida"


- Edição Nº2052  -  28-3-2013

Do Vietname, com amor,
para Álvaro Cunhal


As quartas de manhã, nos idos do dealbar de 1976, eram o pedaço mais desejado da semana para um grupo de jornalistas empenhados em escrever, nem sempre bem, nem sempre conseguindo esse desiderato, «a verdade a que temos direito». Não era, nessas alturas, preciso arranjar desculpas para o atraso ao encontro, nada de o trânsito estar de morrer, o metro, nem imaginam, o autocarro atrasou-se, o despertador, vejam lá, deu-lhe para não tocar. Chegávamos todos a tempo e horas, enchíamos a sala com a nossa vontade de ouvir e de aprender, muitos de nós licenciados, experts em coisas várias, diplomados em filologias, histórias e economias. E depois chegava o Álvaro, sorriso encorajador, uns papéis ou um bloco-notas debaixo do braço, um cumprimento às vezes afável, às vezes contundente, às vezes enrugado, consoante os ventos que sopravam contra ou a favor dos que, honesta e fraternalmente, queríamos que soprassem.

As quartas feiras de manhã eram o contacto com a experiência, a humanidade, a força inabalável, a inflexibilidade e a ternura do Secretário-geral do Partido Comunista Português, ali sentado connosco, a ouvir-nos preocupações e sonhos, a sugerir-nos caminhos e atitudes, a saber de cada um de nós, dos nossos problemas, das nossas vidas, a contar-nos pouco da sua intimidade e muito do seu sonho acordado, da sua inabalável confiança nos operários da terra ou da fábrica, da tela ou dos livros, da vida e do futuro. Era um de nós sendo o que todos nós queríamos vir a ser, não líderes ou dirigentes de um colectivo incomparável, mas homens e mulheres tão íntegros, empenhados, seguros, revolucionários e confiantes como ele porque, com ele, com o seu exemplo, com as suas palavras, ficaríamos envergonhados de ser menos do que aquilo que nos propunha que fossemos e que desejávamos ou passávamos a desejar ser.

Pelo meio destes afazeres andava eu às voltas com as cantigas e calhou, integrado no grupo «Introito» e tendo como parceiro o Samuel, dar uma saltada a Dusseldorf para participar numa festa do DKP (Partido Comunista Alemão na, então, Alemanha Ocidental). Cantigas em palcos de solidariedade, conversas impensáveis com Hartmut Friekenbrink, nosso guia e militante do DKP que falava um português correctíssimo e, depois, já no poente da festa, uma visita de despedida arredondada ao recinto dela, na bebericagem de uns scnhapps de variados e gulosos sabores em stands que representavam vários movimentos e partidos progressistas do mundo e que, por honra à casa que os hospedava e ao bom gosto dos seus frequentadores, dispunham da apetecível bebida.

Vai daí, estávamos nós na prática do desporto líquido (como diria na altura o Baptistas-Bastos), eis que nos surge um grupo de caras risonhas e afáveis, mostrando nos seus traços sua origem asiática. Dirigiram-se a nós e quiseram confirmar se éramos portugueses. Perante a nossa resposta afirmativa alargaram os sorrisos e um deles estendeu-nos um ramo de cravos vermelhos. Disse-nos: para dar a Álvaro Cunhal.

Abraços, algumas lágrimas, sorrisos redondos, saúdes, e eu a olhar para um ramo de cravos vermelhos que um grupo de vietnamitas me depositara nos braços e com a responsabilidade de o entregar, com indicação de remetente, a Álvaro Cunhal.

No dia seguinte entrei pela António Serpa e entreguei a quem devia os cravos e a estória deles. Ainda estavam viçosos.

Acho que ainda hoje estão viçosos.

Nuno Gomes dos Santos 

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Ora aqui está um texto "à medida" deste "blog". A uma das suas muitas "medidas"... tal como o desejámos e vamos cumprindo. Como tantas outras mensagens já aqui colocadas.
Obrigados, Nuno!
S.R.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Uma homenagem singular

António Sampaio da Nóvoa
Reitor da Universidade de Lisboa

Na homenagem a Álvaro Cunhal na Aula Magna da Universidade de Lisboa

quarta-feira, 27 de março de 2013

Com muito gosto aceitei o convite


Pedro Pezarat Correia
No passado sábado, 23 de Março, numa Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa completamente lotada, teve lugar uma sessão cultural evocativa da figura de Álvaro Cunhal, que inicia um ano dedicado às comemorações do centenário do seu nascimento. Não pertencendo nem nunca tendo pertencido ao Partido Comunista Português (PCP) situo-me, porém, no grupo daqueles que consideram que o PCP se inscreve na área política que gostariam de ver o povo português escolher para liderar os destinos do país. Aqui fica o meu registo de interesses para que não haja equívocos com esta nota no GDH.
Com muito gosto aceitei o convite que me dirigiram para integrar a Comissão Promotora e estive presente na Aula Magna onde, entre muitas vantagens, beneficiei da oportunidade de ouvir mais um magnífico discurso do reitor da Universidade, professor Sampaio da Nóvoa. Guardo de Álvaro Cunhal, do cidadão, do resistente e precursor do 25 de Abril, do político, do estadista, do intelectual multifacetado, um profundo respeito. Particularmente agora, quando as figuras menores que têm passado pelo poder sem honra e sem dignidade vêm aviltando a imagem dos políticos e da democracia – e este é dos pecados maiores que lhes devem ser cobrados –, é justo e é pedagógico, evocar alguém que se empenhou profundamente na política sem mácula, sem cedências susceptíveis de violarem os princípios, os valores, os compromissos. Álvaro Cunhal era uma referência para quantos, independentemente dos sectores ideológicos e partidários em que se situassem, cultivavam o rigor na gestão da polis, na política, porque era de uma enorme exigência. Mas começava por ser exigente consigo próprio. Concordasse-se ou discordasse-se dele, confiava-se nele.
Recordo que, quando partilhei algumas responsabilidades no país e, com os meus camaradas, discutíamos ou analisávamos a situação política, o sentimento generalizado em relação a Álvaro Cunhal era o de que se tratava de um homem de carácter, credível no que dizia, fiável naquilo com que se comprometia. pela década de 90, quando eu estava reformado da vida militar e Álvaro Cunhal deixara a liderança do PCP, encontrávamo-nos, não com muita frequência mas com alguma regularidade, por vezes com mais dois ou três amigos. Eram conversas privadas, interessantíssimas, trocas de impressões passando em revista as conjunturas nacional e internacional. E Álvaro Cunhal gostava de frisar o que mais o marcara quando teve de lidar com os militares na política no período revolucionário e nos anos em que perdurou o Conselho da Revolução e um militar na presidência da República: eram homens de palavra. E isso fora decisivo na manutenção de relações de respeito mútuo.
um aspecto que não posso deixar de registar. Hoje, quando a União Europeia navega em águas agitadas sem rumo perceptível e em que os chamados países periféricos sofrem as consequências de decisões que parecem tudo menos inocentes, é oportuno recordara voz lúcida de Álvaro Cunhal que na altura muitos acusaram de “velho do Restelo”. Quando os responsáveis políticos embandeiravam em arco com a adesão à Comunidade Económica Europeia e a entrada no “clube dos ricos”, quando a maioria do povo português embarcava na euforia da festa das remessas dos fundos estruturais e se empanturrava em betão a troco do abandono da agricultura, da extinção da frota pesqueira, do esvaziamento da marinha mercante, do encerramento de indústrias de base, Álvaro Cunhal alertava e repetia: os portugueses irão pagar isto. Era ouvido com cepticismo. Não me excluo, a palavra de Álvaro Cunhal levava-me a reflectir, mas deixava-me dúvidas.
Álvaro Cunhal tinha razão. Os portugueses estão a pagar isso.
25 de Março de 2013

O QUE EM ALEGRIA APREGOASTE


 
O QUE EM ALEGRIA APREGOASTE

É como morto que não procurarás novos lugares,
e, para onde olhares, não verás nem as altas montanhas
nem o fundo do mar, apenas o vento envelhecerá o
que agora te cobre e outros pisam – nãobarco
para navegar, nem ofertas para arrecadar, outros
querem a tua alma, outros deuses conhecer
ou os fragores sábios do povo nomear,

seguir-te, ou de múltiplas e notáveis vénias
se equivocam, e cedem ao deleite e à glória
o que em alegria apregoaste, fazendo
amanhecer as manhãs e os caminhos
pela primeira vez para que fôssemos
compreender quanto poder existe
numa palavra ou no brilho
simples de um olhar.

Jorge Velhote

(poema de Jorge Velhote a Álvaro Cunhal)