«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

Mostrar mensagens com a etiqueta testemunhos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta testemunhos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Aurélio Santos - "a pergunta que nunca lhe fiz"

- Edição Nº2070  -  1-8-2013


Comentário
A pergunta que nunca lhe fiz

Image 13741

Muitos, foram vítimas silenciosas da exploração e da opressão, vítimas submissas por julgarem ser esse o seu destino. Alguns, enfrentando corajosamente o medo, confrontaram a voz do poder com o poder da sua voz, exigiram justiça e dignidade, ajudaram a construir a História dos dias de hoje.
Poucos, tiveram força, determinação e abnegação bastante para gastar a vida por inteiro numa luta incessante pelo quebrar das grilhetas que tornam os homens menos livres.
Foi isso que fez deles homens diferentes, os tornou grandes e justamente os inscreveu na História dos homens.
Percorro a exposição no pátio da Galé sobre o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal onde quase tudo me é bastante familiar. Fomos companheiros de luta na clandestinidade e na Revolução, durante décadas.
Detenho-me na reconstituição do que foi a sua cela na Penitenciária de Lisboa. Espaço exíguo, onde por um ainda mais exíguo postigo gradeado se escoa uma ténue luz. Pergunto a mim mesmo: Como se resiste, incomunicável, durante sete longos anos? Por que se resiste?
À memória chegam-me as suas palavras numa entrevista, após a fuga de Peniche: «Certamente é possível enlouquecer ao ter consciência de que, adiante, nada mais existe, que te encontras preso e não podes fugir desses ásperos muros, pó de cimento imóvel, fugir dos surdos passos do vigilante que anda no corredor.»
Como se resiste, por que se resiste? O sótão das memórias devolve-me agora os comentários feitos por comunistas espanhóis que com ele se encontraram clandestinamente, na casa do Penedo em Sintra, no fim da 2.ª Guerra Mundial: «A sua extrema magreza impressionava, as orelhas pareciam transparentes. Vivia com imensas dificuldades, os comunistas portugueses tinham muitas dificuldades financeiras.»

E vem-me à lembrança aquela pergunta que nunca lhe fiz...
Conheci Álvaro Cunhal em Moscovo após a fuga de Peniche. Não descobri nele vestígios por aquilo que seria uma compreensível amargura por tantos anos privado de tudo. Pelo contrário, sempre lhe vi uma natural e sincera afabilidade e uma profunda confiança na capacidade dos trabalhadores e do povo português no derrube do hediondo regime fascista que tão barbaramente o tinha tratado.
Mais tarde, quando trabalhava na Rádio Portugal Livre em Bucareste, tive com ele contactos mais regulares. Cunhal era um homem de convicções fortes, com uma determinação e firmeza inquebrantáveis, mas paralelamente existia nele um profundo conhecimento e compreensão pela complexidade e fragilidades da natureza humana. A sua visão arguta e abrangente da realidade permitiram-lhe sempre o gizar de caminhos que se revelaram um precioso e valioso contributo na vida do PCP.
Desde o primeiro dia em que o conheci que persistiu em mim a tentação de lhe perguntar: Álvaro, por que te tornaste comunista? À pergunta que nunca tive coragem de formular ele foi-me respondendo dia após dia, todos os dias, com uma firmeza e uma convicção que estão muito para além de uma opção ideológica. Só uma opção de vida e de generosidade as poderia justificar.
Recentemente alguém ao referir-se a Álvaro Cunhal afirmou: «o que torna os homens grandes não é o que fizeram por si ou para si, mas o que fizeram pelos outros.»
Álvaro Cunhal ajudou a abrir a estrada por onde um dia o sonho se tornará verdade, se fará real, por onde os homens libertos da sua condição de escravos dos novos tempos, se tornarão mais homens, porque livres.
Mais cedo do que tarde a História o confirmará.
Por esse legado de profunda coerência e inteira dedicação ao nosso colectivo partidário e ao povo português – obrigado Álvaro.
Obrigado, camarada.









Aurélio Santos

terça-feira, 28 de maio de 2013

Um belo testemunho... por tão vivo e vivido



Cose a camisola

António Borges Coelho*

Nos meados de Junho de 1957 entraram na Fortaleza de Peniche os dirigentes do MUD Juvenil condenados no dia 12 pelo Tribunal Plenário do Porto: Ângelo Veloso, Pedro Ramos de Almeida, Hernâni Silva, e eu próprio. A carrinha da Pide entrou na parada da Fortaleza. Quando abriram as portas, o Ângelo desatou a correr pela rampa acima:
- Ó Coelho, olha como é belo! - Apontaram-lhe as metralhadoras.
Subimos então a rampa para o pavilhão C, o da máxima segurança, que dominava o porto e o Largo onde as mulheres de sete saias cosiam as redes e jogavam a pela.
O Ângelo entrou na primeira cela para ver como era. O guarda fechou com violência as duas portas e correu a chave. O Ângelo tocou. O guarda abriu: - O que é que quer? - E atirou outra vez com brutalidade as portas. Verificamos a seguir que não tinham outra forma de fechar.
Pelas cinco horas, tocou o apito e abriram as celas. Olhamos para o corredor e vimos aproximar-se Álvaro Cunhal. Sorria e estendeu a mão a cada um de nós. – Boa tarde, camaradas! - Era uma aparição. Muito jovem nos seus quarenta e três anos. Os cabelos Brancos que despontavam acrescentavam-lhe a auréola. Seguia-o o Rogério de Carvalho, um companheiro humaníssimo, mas o Álvaro dominava inteiramente a cena.
A foto de Cunhal, a preto e branco, passava na imprensa clandestina. O rosto jovem, anguloso e austero, olhava para nós com uma impressionante força interior. Circulavam narrativas. Falava-se do espancamento brutal a que fora sujeito, do seu papel na organização do Partido. Líamos copiografadas as suas palavras no Tribunal Plenário. Os oito anos de isolamento na Penitenciária de Lisboa douravam-lhe a aura. Alguns de nós tinham lido o seu relatório ao III Congresso Ilegal do PCP e o opúsculo “Se fores Preso, camarada”. Havia ainda o poema “A Lâmpada Marinha” que Pablo Neruda lhe dedicara, a ele, e a Militão Bessa Ribeiro. Eu próprio, em liberdade, escrevi-lhe um poema. Mostrei-lho meses depois deste nosso encontro. - Não tens outro tema mais interessante? -
Depois do XX Congresso e do relatório de Krutchev, o culto da personalidade não era politicamente correto. A reação desfavorável de Cunhal foi genuína. Destruí o poema.
Este encontro ocorrera porque todos os dias às cinco horas, desde que não estivessem de castigo, os presos tinham uma hora de convívio no refeitório. Deixavam-nos ler, jogar xadrez, escrever à família, mas conversa só por intermédio do guarda: - Ó senhor guarda, posso perguntar…
“Pode”.
“Não pode falar em política!”
Álvaro Cunhal, como qualquer de nós, viveu aqueles dias sempre iguais. Às sete horas tocava o apito. Levantar, lavar, despejar o balde, regresso às celas. Os presos, a quem, por escala, cabiam as limpezas do dia, varriam o corredor, arranjavam o quarto de banho, lavavam a loiça e, acompanhados pelo guarda, com o mar a soprar pelas furnas, lançavam o lixo do alto das muralhas.
Ao meio-dia e ao fim da tarde, desciam a rampa em direção à cozinha onde presos comuns confecionavam o almoço e o jantar. Comíamos no refeitório em silêncio. Chicharro cosido ao almoço, chicharro frito ao jantar. Se atirássemos o arroz à parede, ficaria colado como argamassa.
Depois do almoço, quando não estávamos de castigo ou não chovia, era o recreio, uma hora ao ar livre no pequeno largo travado pela muralha. Para a frente, volta, para trás. A voz estava treinada para chegar ao ouvido do vizinho. Cunhal era o alvo principal dos presos e dos guardas. O guarda do turno andava no meio:
- Fale mais alto que eu também quero ouvir!
No recreio as conversas andavam à volta da situação política, mais animadas se chegavam mensagens clandestinas. E discutíamos literatura e pintura, os clássicos e os modernos, trocávamos ideias sobre economia política e filosofia.
Nas celas os nossos passos ficavam marcados na humidade do chão. Não havia cadeira nem mesa, só a cama onde não nos podíamos sentar e muito menos escrever. Escrevíamos, sentávamo-nos. Vivíamos em transgressão permanente.
Fechados quase todo o dia e a noite, sem mesa e sem cadeira, por vezes em condições psicológicas extremamente penosas, estudávamos. Mas faltavam os materiais de base. Para receber um livro, o preso tinha de devolver o que tinha entrado. “Não são permitidas bibliotecas”. E sempre o olho do guarda a controlar os nossos movimentos pelo ralo. Aproveitando a nossa ausência no refeitório ou no trabalho de limpeza, o Bolas passava revista aos papéis e ia mostrá-los ao chefe.
Nestas condições, o trabalho, realizado por Álvaro Cunhal na prisão, foi impressionante. Na Penitenciária traduziu o “Rei Lear” e trouxe de lá, já elaborado, o ensaio “As lutas de Classes em Portugal nos fins da Idade Média”. Na Fortaleza escreveu “A Arte, o Artista e a Sociedade”, possivelmente ainda com outro título, um outro ensaio sobre a literatura portuguesa dos anos quarenta-cinquenta, a novela “Cinco Dias e Cinco Noites” e “A Mulher do Lenço Preto” que receberia o título final de “Até amanhã, camaradas”. Todos estes manuscritos, menos “A Mulher do Lenço Preto”, viajaram para a minha cela debaixo das camisolas, uma delas, rota no cotovelo.
- Cose a camisola!
Eu fazia ouvidos de mercador. Insistiu que lha desse para a coser. E coseu.
Na Penitenciária e na Fortaleza, Álvaro Cunhal desenhou a carvão o povo operário e camponês, os pescadores e as mulheres de Peniche no jogo da pela, as assembleias do povo em luta. Tinha obtido uma autorização especial que lhe permitia receber livros de arte. Ao pavilhão C chegaram álbuns de Velasquez, El Grego, Bruegel o Velho, Goya, Delacroix, Van Gogh. “O Filho Pródigo”, “Las Meninas” ou “A Velha Fritando Ovos”, “Os Céus de Toledo”, “As Seara e os Corvos”, de Van Gogh, ou o “Saturno”,  de Goya, iluminaram clandestinamente o branco das nossas paredes.
As janelas gradeadas das celas eram altas e em guilhotina. A vista para o exterior ficava cortada. Pedi ao meu pai uns socos que me permitiram chegar com os olhos à frincha e ver as ondas do mar a bater no Baleal ao fundo. O Álvaro ficava na segunda cela virada para o porto, o Rogério de Carvalho na cela do lado, depois ocupada pelo Carlos Costa.
É quase impossível inserir acontecimentos nos quase dois anos e meio que vivemos na Fortaleza de Peniche. Os dias corriam iguais, alterados pela saída de camaradas ou a chegada de uma nova fornada. Perdemos a luta contra a construção do parlatório. Blindado por um vidro espesso, impedia qualquer contacto entre o preso e o familiar e obrigavam-nos a falar muito alto com guardas dum lado e do outro lado. Mas ganhamos outras pequenas batalhas.
O enfermeiro da prisão descobriu o que os médicos não tinham descoberto. Cunhal tinha de ser operado a uma fístula provocada, ainda em liberdade, pelas longas viagens de bicicleta. As greves de 1943, de 1944 e 1947 tinham alargado a influência do Partido clandestino no meio operário, em muitos sectores da população camponesa, na pequena burguesia e também entre os intelectuais. A bicicleta ficou como símbolo da entrega revolucionária. Ela ligava o Partido ao País dos humilhados e dos ofendidos.
Quando levaram o Álvaro para ser operado, a Fortaleza ficou mais vazia. Faltava a sua palavra, a alegria contagiante e diária, mesmo nos momentos mais difíceis, a sua fé. Peso da palavra.
Nada nem ninguém consegue travar um preso, mesmo mergulhado numa cela ou num buraco, aparentemente com o nada como destino. Há sempre qualquer falha que escapa ao carcereiro.
Álvaro Cunhal, Jaime Serra e mais oito companheiros fugiram da Fortaleza de Peniche no princípio da noite de 3 de Janeiro de 1960. Salazar tremeu.
Dessa noite ficou-me nos ouvidos o grito:
- Ó da guarda, fugiram os presos!
Ficou também o ruído das botas da ronda que vinha render a guarda e os disparos sem nexo e intermináveis das metralhadoras. O guarda prisional chorava. Toda a noite, o abrir e fechar das celas, o cheirar dos cães e na parada as portas dos carros a bater.
Uma tarde, durante a lavagem da louça, falei ao Álvaro na prática socrática e cartesiana da dúvida para atingir a verdade. Não a punha em causa, mas respondeu-me que as dúvidas não o atormentavam, querendo significar que não alteravam o caminho que traçara.
A queda do muro de Berlim e o colapso da União Soviética feriram-no profundamente, mas não destruíram a sua confiança nas promessas da história e da teoria.
Nos últimos anos, meio cego, compararam-no ao rei Lear, mas a mente continuava ágil. Não saía. Queria preservar a imagem e a dignidade. Ele sabia que era símbolo, quase mítico, de décadas de luta e de sacrifício.


*Historiador

(publicado na revista Seara Nova, nº1723,

Obrigado, Ana Goulart)