Depois de falar da sua obra sobre a vida íntima de Álvaro Cunhal, Manuel Luís Goucha mostrou uma série de depoimentos dos ex-colegas, do filho e do próprio apresentador de Você na TV sobre Judite de Sousa, a profissional e a amiga.
As palavras carinhosas e os elogios tecidos levaram a pivô a deixar cair algumas lágrimas e a ficar emocionada em direto.
A vida e a obra de Álvaro Cunhal são o mote de uma exposição patente no Pátio da Galé, no Terreiro do Paço, em Lisboa. Esta é uma das iniciativas que assinalam o centenário do nascimento do líder histórico do Partido Comunista Português.
«A versão d' O Rei
Lear, queagora
se publica, apareceu inicialmente nas "Obras de Shakespeare", editadas emfascículospelaTipografia Scarpa em
Lisboa, que, para
o efeito, se assumiu comoeditora do
projecto. [...]
O texto d' O Rei
Lear, então publicado, nãofigurasob o nome do seuverdadeiro
tradutor. Não é possívelestabelecer se se trata
de um pseudónimo ou
de alguémque
tivesse emprestado o nomepara
o efeito. Como
director literário e organizador da edição,
soube semprequemera o tradutor e entrei no estratagemaeditorialcomplenoconhecimento da situação.
Ao leitormenosavisado poderá parecerestranhotodoesteesquema
da dissimulação da autoria da versão
portuguesa. A verdade é que
o nome do tradutor não
se podia revelar na altura.
Tratava-se do Dr. Álvaro Cunhal. Sob as condições da ditadura
salazarista, que suprimira todas as liberdadespolíticas
e exercia a coerçãopolicialsobre os cidadãos,
o seunomeeraanátemapara o regime. Paramais, o Dr.
Álvaro Cunhal encontrava-se na Penitenciária,
e tudoquanto
a ele se referisse erazelosamente controlado pelas autoridades no sentido
de apagar a suapresença. Fica assimesclarecida a questão
da autoria da tradução e do 'mistério' que a
rodeou.
O textoentregue
impunha-se pelasuaqualidadeliterária
e conformava-se plenamentecom o critérioque havíamos adoptado para
a publicação das "Obras de Shakespeare".
Nele se nota o rigor
da expressão e a fidelidade
ao original. As subtilezas e
complexidades, que se nos deparam no textoinglês, são
examinadas nas notasonde se explica e fundamenta
a versão adoptada. Pormais de uma vez
se pressente noscomentários
do tradutor a inclinaçãopara
o desenvolvimento dos temastratados,
masque
a natureza do trabalho
empreendido exclui à partida. A seriedade, que
preside à elaboração do texto, revela uma preparaçãocuidadapara
a tarefa da tradução.
O tradutor documentou-se convenientemente
e reflectiu demoradamente sobre a obra.
A questão do poder e a suarepresentação
nas tábuas de umpalco continuam a ter
uma importânciaexcepcional
no quetoca
ao seuaspectodramático. O teatro
de Shakespeare, mais do queparaser
lido, é paraservisto e ouvido,
e o texto tem, porisso, de sugerir
uma dimensãovisual
na alusãosemânticaque transmite ao leitor/espectador. Esta parábola
da arte de reinar e dos
afectos, que condicionam ou perturbam a escolha
do governante, tem raízes profundas na cultura e no imagináriopopular.
Frisa o tradutor queestedrama'é admirávelexemplo
da obra dum grandeartistaassente
no espíritocriador
do seupovo,
da fusão do génio popular.'Históriabemconhecida e repetidas vezes sem conta, ela faz parte
do repertóriointelectual
do espectadorcomum,
sendo a suaencenaçãoacessível a umlargopúblico.
O perfilpsicológico
do rei Lear, a suaaposta na sucessão,
ao quererdar o reino à filhaquemais o
amasse, dão sinal de megalomania, que
é má conselheiraemmatériapolítica.
Mas a junção
do dramafamiliarcom o problema
da governação oferecia ao público uma intimidadeque
permitia ver de dentro,
os chamados bastidores da História, o queestesó
capta nosseusefeitosexteriores,
julgados como consequência política. A sageza na vida
e na arte de governar, que se ganhacom a experiência,
abandona o rei
Lear, deixa-o à mercê das paixões, da vaidadepessoal e da egomania, levando à tragédia, cujamagnitude se impõe emtoda a sua
complexidade na sucessão das cenasque
constituem a narrativa do drama. A sintonia entre
o tema e as vivências
do tradutor é perfeita e revela-se nas páginas da versão
portuguesa. [...]»