«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Para que não restem dúvidas


A história, por dever de gratidão, retém no seu crivo os indivíduosque por obras valorosas” continuam referência, vivendo na lembrança colectiva. Acontece porém que a história, escrita pelas classes que detêm o poder, relegam para o esquecimento, assassinam historicamente todos os que com elas não se identificam social e ideologicamente. E este rasurar da história processa-se pelos mais ínvios e dissimulados caminhos. No «Dicionário da Língua Portuguesa ContemporâneaAcademia das Ciências de Lisboa», editado em 2001, todas as siglas partidárias, das mais recentes aos grupelhos sem expressão e desaparecidos, estão contempladas neste instrumento de consulta, as siglas “PC e PCP” com nove décadas de existência foram “esquecidas”. Um lapso que cumprirá a sua missão enquanto o dicionário existir.

Compete-nos, é um dever que a história nos impõe, imperativo de classe, marcar a importância dos que entre nós se destacaram na luta pela dignificação dos que vendem a sua força de trabalho e com quais lutaram para que fôssemos livres. Ao amputarem a história dos feitos e valores daqueles que se distinguiram na luta pela construção de uma sociedade justa, coarctam-nos as raízes, enfraquecem-nos a confiança e a nossa caminhada, titubeante, perde vigor. Assim sendo, atentos, não podemos esquecer os que dedicaram toda a sua existência, dignificando-a ao abraçar a luta de todos os oprimidos. Desta postura não resulta o culto de personalidade, mas o dever de colocar no devido lugar histórico os que connosco como classe se ergueram e que a história não pode nem deve esquecer. Não nos podemos permitir que sejam os opressores a fazerem a triagem de quem ou não deve ficar para a posteridade.

2013 é, será, o ano em que seremos nós a escrever a nossa própria história, sem o talculto de personalidade com que capciososamente há quem espalhe um fumo de despeito para ofuscar a limpidez do nosso propósito.

Ao assinalar o ‘Centenário de Álvaro Cunhal’ por decisão do Comité Central do PCP, o Partido reforçou o seu grau de responsabilidade e a sua decisão é, inequivocamente, o sentir de todos os militantes comunistas e de muitas mulheres e homens que desde sempre nos têm acompanhado. Não temos a pretensão de enaltecer a figura de Álvaro Cunhal, trabalho quão difícil como desnecessário. Desejamos que este ano em que assinalamos o ‘Centenário de Álvaro Cunhal’ e em que também nos envolveremos, não pretende desenvolver o culto pelo militante comunista mas afirmar a validade da sua existência como ser humano a elevado grau.

A personalidade deste dirigente comunista vai muito para além dos seus camaradas e das nossas fronteiras; os seus feitos e obra são o nosso sentir.

Dedicar este ano a Álvaro Cunhal é a melhor e mais sentida homenagem que podemos fazer ao nosso povo trabalhador.

Excertos de uma entrevista-testemunho sobre o homem Álvaro Cunhal

Extractos da entrevista de Maria Eugénia Cunhal à Voz do Operário (Ana Goulart), em Janeiro 2013.

... Quando Eugénia Cunhal nasceu, o irmão, Álvaro, era já um jovem de 14 anos. A diferença de idade não impediu que entre os dois se estabelecesse uma amizade profunda, consolidada com afecto, ternura, cumplicidade e camaradagem.
... Eugénia Cunhal, a mais nova dos quatro filhos de Avelino Cunhal e Mercedes Barreirinhas, assume o orgulho de ser "a irmã do Álvaro".
(...)
A ideia de um Álvaro Cunhal austero, até um pouco frio, corresponde à verdade?
Não. Era muitíssimo disciplinado, mas não era nada austero, nem nada frio. Era uma pessoa extremamente ternurenta, extremamente afetiva e afetiva com ternura. Gostava de fazer festas, de abraçar, de dar beijinhos. O Álvaro tinha uma expressão que à vista dos outros poderia parecer de uma pessoa um pouco distante, não sei. Porém, não era assim. Era uma pessoa extremamente terna.
(...)
Tinha noção da dimensão e importância da atividade política do seu irmão?
Quando era muita novinha talvez não tivesse...
Lembro-me da primeira vez que fui ao Aljube vê-lo. Foi horrível vê-lo do outro lado das grades, muito magro, muito pálido, com o cabelo cortado muito curto...
(...)
Álvaro Cunhal era uma personalidade multifacetada. Político, sem dúvida, mas também escritor, artista plástico, intelectual, enfim, um homem de cultura. Há alguma influência familiar nesta riqueza e dimensão humana de Álvaro Cunhal?
O meu pai era escritor e pintor, além de advogado e professor. O Álvaro só quando estava preso é que pintava... O meu pai também pintava muito, levava-nos a museus e em casa falava-se muito de arte. Mas claro que se o Álvaro não tivesse talento ficava apreciador, mas não criador, não criativo.
A vossa não era o que se pode designar por "família operária", no entanto, Álvaro Cunhal dedicou toda a sua vida à causa do proletariado...
... o Álvaro dizia que era filho adoptivo do proletariado. Isto é algo que o Álvaro disse muitas vezes.
(...)
Os indispensáveis contributos de Álvaro Cunhal para a liberdade, a paz, a democracia geraram a admiração de muitos homens e mulheres e, muito em particular, dos seus camaradas de partido. Álvaro Cunhal é uma personalidade incontornável da História de Portugal que sempre recusou o culto da personalidade.
Completamente. O Álvaro era uma pessoa humilde, uma pessoa simples que pensava sempre em termos de coletivo. O Álvaro sabia que sozinho não conseguiria fazer muito e o que tinha valor era o coletivo do partido. Álvaro era essencialmente um militante do PCP, embora tivesse responsabilidades. Não tinha uma pontinha de vaidade, nem mesmo uma apreciação demasiada dele próprio.
(...)
O exemplo do Álvaro foi muito importante, porém, foi um exemplo fundamentalmente humano porque quando era miúda ouvia a palavra "comunistas" sem lhe perceber o sentido e foi essa capacidade humana de se interessar pelas pessoas, de ajuda, de amor aos outros que me marcou profundamente. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

De vez em quando um desenho


Foi lançado, pelos CTT, um selo (250 mil exemplares) e um bloco filatélico(70 mil exemplares), de homenagem ao político Álvaro Cunhal, comemorando a data de nascimento do mesmo.

O desenho do selo é da responsabilidade, do autor da face nacional das moedas de euro, Vítor Santos.

(É com esta "notícia" que pretendemos abrir aqui um espaço para os Desenhos de Álvaro Cunhal)

Um novo “tacho” – Alô, alô, experiência...



Tenho um novo “tacho”! Fui contratado para escrever e fazer parte da equipa de um novo blog colectivo... por um ano.
Enquanto processo o orgulho e prazer proporcionados pelo convite, este primeiro post é o equivalente ao clássico “alô, alô, experiência... isto está ligado?”, seguido das duas ou três pancadinhas no microfone com que alguns artistas menos dados às coisas da técnica presenteiam (e enlouquecem) os técnicos de som.
Para além do blog (este blog), vou estar ligado a um grande projecto regional, cobrindo o Alentejo, centrado no fenómeno da Reforma Agrária, um dos “amores” de Álvaro Cunhal... projecto multifacetado de que irei dando novidades e que me fará entrar em ensaios e estúdio dentro de muito poucos dias, acompanhado por um belo grupo de pessoas.
A característica (que se pretende uma das mais importantes) de todas as realizações que venham a acontecer durante este ano, é o seu carácter aberto a todas e todos, independentemente das suas filiações partidárias.
Conto com a vossa visita e leitura!
Um abraço colectivo,
Samuel

(Post publicado em paralelo com o "Cantigueiro")


Abertura de novos espaços neste espaço

Como contributo sequente ao anúncio da edição deste blog, um visitante fez-nos chegar, por email e com sugestão de inclusão, 5 anexos retirados de Obras escolhidas de Álvaro Cunhal, edições avante!, tomo II, sobre O desvio de direita nos anos 1956-1959 (Elementos de estudo). 
Dada a extensão de cada um dos anexos e tratar-se de elementos de estudo, de grande actualidade político-ideológica, decidiu-se editá-los como "Citações", correspondendo assim a criar mais um local onde estão à disposição para consulta e estudo. Nestes primeiros passos do blog, julgamos ser a forma adequada de agradecer o contributo e de estimular a que outros se venham juntar.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Rumo à Vitória - extracto


 Propagar slogans que adormeçam as vontades ou obscureçam horizontes aos trabalhadores em períodos socialmente agitados, tem sido e continua a ser uma arma usada desdemuito e ainda hoje eficaz. Ao realçar a nossa pequenez económica e geográfica, os ideólogos e os governantes-instrumentos do neoliberalismo reinante, procuram refrear as lutas que travamos e que é forçoso acelerar.

Este importante documento que li e distribui em 1965 veio-nos abrir horizontesRumo à Vitória”.

Quase meio século passado é possível aferir a justeza da análise e colher ensinamentos para as lutas que travamos.
 
«Há hoje, em Portugal, nas colónias e no estrangeiro quem diga: “Quando Angola ou Moçambique conquistarem a independência, a luta do povo português contra a ditadura fascista será extraordinariamente facilitada”. Esta forma de pôr o problema não é correcta. Faz lembrar essa outra que ouvimos durante anos: “Quando Franco cair, será mais fácil fazer cair Salazar”, sem se admitir, como se pode admitir, que a queda das ditaduras se pela ordem inversa. Que elementos permitem afirmar que a luta dos povos coloniais alcançará o seu objectivo da independência, antes que o povo português conquiste a democracia? Quando tais ideais partem de portugueses, elas representam uma posição comodista, de quem pretende que os outros façam o que lhe cabe a si fazer. Nós trabalhamos para libertar Portugal da ditadura fascista e não poupamos esforços para que seja no mais curto espaço de tempo. Depende de factores de ordem interna e internacional que seja o povo português ou sejam os povos coloniais a libertar-se primeiro. É prematuro afirmar-se quem o conseguirá. O que se pode afirmar é que a libertação de Angola, Moçambique e Guiné, a dar-se antes do derrubamento do fascismo, será um golpe a que o regime de Salazar dificilmente poderá sobreviver. Assim, também a conquista da Democracia pelo povo português, a dar-se antes, tornará inevitável, a muito curto prazo, a independência nacional dos povos das colónias portuguesas, condição da conquista da verdadeira independência de Portugal.»

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Militante


 O Militante (Janeiro/Fevereiro 2013) inicia a publicação de textos de
Álvaro Cunhal. (aqui)

"O amor ao povo e à Pátria e o internacionalismo"


No quadro da agressão e do assalto "troikulento", o recente relatório do FMI (cuja autoria, responsabilidade e contornos não se conhecem com rigor) veio levantar uma onda de indignação. A indignação é mais que legítima, embora, nuns casos, tenha aspectos semelhantes a "lágrimas de crocodilo", noutros, possa parecer fazer parte de manobras de diversão, noutros ainda, apeteça perguntar se não foi esta a cama que se foi preparando e só agora se veja quanto incómoda é quando nela nos querem deitar.
Mas que há uma onda de indignação, é certo, o que justifica, até, posições e rupturas que podem surpreender por vários motivos.
Nesta oportunidade, sem pingo de oportunismo que é outra maleita dos tempos que correm, quando se inicia o ano de 2013 com a assinalação do centenário de Álvaro Cunhal, é da maior pertinência lembrar o que ele escreveu em muitas ocasiões, nomeadamente na sua obra O Partido com paredes de vidro, de 1985, no último capítulo, o 11º, no seu último ponto, O amor ao povo e à Pátria e o internacionalismo.


Reproduz-se um trecho (pgs. 264/5):

(...)

(...)

c.q.d.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

La Lâmpara Marina - Pablo Neruda

Lâmpada Marinha 









de Pablo Neruda 


Porto cor de céu
I
Porto cor do céu
I
Quando desembarcas em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os tectos,
as janelas salpicadas do ouro verde dos limões,
do azul ultramarino dos navios,
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quando desembarcas,
não conheces,
não sabes que por detrás das janelas,
ronda, escura, a polícia negra,
os carcereiros de luto,
de Salazar,
perfeitos filhos de sacristia e calabouço,
despachando presos para as ilhas,
condenando ao silêncio,
pululando como esquadrões de sombra,
sobre janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia,
sob outonais cornucópias,
a polícia,
procurando portugueses,
escarvando o solo,
destinando os homens à sombra.

A cítara esquecida
II

Ó Portugal formoso,
cesta de frutas e flores ?
emerges na prateada margem do oceano,
na espuma da Europa,
com a cítara de ouro que te deixou Camões,
cantando com doçura,
esparzindo nas bocas do Atlântico
teu tempestuoso odor de vinhedos,
de flores cidreiras e marinhas,
tua luminosa lua entrecortada
de nuvens e tormentas.

Os presídios
III

Mas,
português da rua,
entre nós que ninguém nos escuta,
sabes onde está Álvaro Cunhal?
Sabes, ou alguém o sabe,
como morreu o valente Militão?
E sua mulher,
sabes tu que enlouqueceu sob torturas?
Moça portuguesa,
passas como que bailando
pelas ruas rosadas de Lisboa,
mas…
sabes?,
sabes onde morreu Bento Gonçalves,
o português mais puro,
honra de teu mar, de tua areia,
sabes?
que ninguém volta jamais da Ilha,
das ilhas de Sal,
que Tarrafal se chama o campo da morte?

Sim, tu sabes, moça,
rapaz, sim, tu sabes,
em silêncio a palavra anda com lentidão,
e percorre não só Portugal
mas toda a Terra.

Sim, sabemos,
em remotos países,
que há trinta anos uma lápide,
espessa como túmulo,
 ou como túnica de clerical morcego,
afoga Portugal, teu triste destino,
salpica tua doçura,
com gotas de martírio
e mantém suas cúpulas de sombra.

O mar e os jasmins
IV

Da tua pequena mão,
outrora saíram criaturas,
espantadas no assombro da geografia.
Depois, a ti volveu Camões,
para deixar-te o ramo de jasmins,
sempiterno a florescer.
A inteligência ardeu,
qual vinho de transparentes uvas,
em tua raça,
Guerra Junqueiro, entre as ondas 
deixou cair o trovão
da liberdade bravia,
transportando o Oceano a seu cantar,
e outros multiplicaram
teu esplendor de rosais e frutos,
como se de teu estreito território
saíssem grandes mãos
derramando sementes pela terra toda.

Não obstante,
o tempo te soterrou,
o pó clerical acumulado em Coimbra
caiu sobre teu rosto de laranja oceânica
e cobriu o esplendor de teu perfil.

A lâmpada marinha
V

Portugal,
volta ao mar, a teus navios.
Portugal volta ao homem, ao marinheiro,
volve à terra tua, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo à luz matutina do cravo e da espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres,
não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do Oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de Ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita Aparição do pão sobre a mesa,
a aurora,
tu, descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isso?
Como podes negar-te ao ciclo da luz,
 tu que mostraste caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e amplo Pai do horizonte,
como podes fechar a porta
aos novos frutos,
ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa,
procura na correnteza
as ondas ancestrais,
a marítima barba de Camões.
Rompe
as teias de aranha que cobrem
tua fragrante copa de verdura
e então
a nós outros, filhos dos teus filhos,
aqueles para quem descobriste a areia,
até então escura,
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que tu podes
atravessar de novo
o novo mar escuro,
e descobrir o homem que nasceu
nas maiores ilhas da terra.
Navega, Portugal,
 a hora chegou,
levanta tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volve a ser caminho.
A esta idade agrega tua luz,
volta a ser lâmpada,
aprenderás de novo a ser estrela.

Poema  inserido na campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal, 1954.

Essa Vida Preciosa, Salvemo-la - Jorge Amado


Essa Vida Preciosa, Salvemo-la






Jorge Amado

«Tão magro, de magreza impressionante, chupado a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português. Falava sobre Portugal, sobre que poderia falar?
Sua paixão e sua tarefa: libertar o povo português da humilhação salazarista, libertar Portugal dessa já tão larga noite de desgraça, de silêncios medrosos, de vozes comprimidas, de alastrada e permanente fome do povo, de corvos clericais comendo o estômago do país, de tristes inquisidores saídos dos cantos mal iluminados das sacristias e da História para oprimir o povo e vendê-lo à velha cliente inglesa ou ao novo senhor norte-americano. Sua paixão e sua tarefa: fazer de Portugal outra vez um país independente e do povo português um povo novamente livre e farto e dono da sua natural alegria.
Ah! Aqueles cansados olhos fundos sorriam e a voz estrangulada de cólera se abria em doçura de palavras de amor para falar de Portugal e do povo português. Eu compreendia que aquele homem de magreza impressionante, de físico combalido pela dura ilegalidade perseguida, era o seu próprio país, seu próprio povo e que, com seu cansaço, sua fadiga de anos, sua rouca voz de velho sono, suas mãos ossudas, eles estava construindo a vida, o dia de amanhã, o mundo novo a nascer das ruínas fatais do salazarismo.
Como era terno seu sorriso ao falar das festas populares nas aldeias do Minho ou dos homens rudes de Trás-os-Montes! Conhecia tudo do seu país e do seu povo, tudo o que era autêntico de Portugal, desde o mar-oceano com a sua história portuguesa e gloriosa até as vinhas ao sol e as cantigas e os poemas dos poetas reduzidos na sua grandeza pela censura fascista; desde as histórias heróicas dos militantes presos, torturados até à loucura e à morte, as tenebrosas histórias do Tarrafal, o campo de concentração mais antigo e mais cruel da Europa, até às doces histórias de amor da província portuguesa, com um sabor romântico das velhas legendas.
Contou-me coisas de espantar com sua voz ora doce, grávida de ternura, ora violenta de cólera desatada quando falava da fome dos trabalhadores, da opressão salazarista sobre o povo, da opressão imperialista sobre a sua pátria de primavera e mar. (...) os comunistas portugueses, heróis anónimos do povo, os invencíveis, os que estão rasgando a noite fascista com a lâmina de sua audácia e de sua certeza para que novamente o sol da liberdade ilumine o país dos pescadores e das uvas. De um me disse: «Esse esteve no Brasil e aprendeu com vocês» (...) Falou do campo, dos homens que habitam as montanhas, daqueles que Ferreira de Castro, o grande romancista, descreveu em «Terra Fria» e «A Lã e a Neve». (...) Falou dos operários das cidades daqueles que Alves Redol descreveu em seus magníficos romances e contou da sua irredutível resistência ao regime salazarista. (...) Naquela tarde como que me apossei por inteiro de Portugal, do melhor Portugal, do Portugal eterno, como se Álvaro Cunhal o trouxesse nas suas mãos ossudas, tão descarnadas e nervosas, como se trouxesse – e o trazia em verdade – no seu coração de revolucionário e patriota.
Voltei a vê-lo ainda uma vez, dias depois, e a longa conversa sobre Portugal continuou. Falou-me dos escritores, dos plásticos, dos pescadores, fadistas, e sobretudo da luta subterrânea, dura e difícil e jamais vencida. (...) Veio o processo, dentro dos métodos infames dos tribunais fascistas. Ali se ergueu Álvaro Cunhal (Militão morrera de torturas) e não era o réu, era o acusador, a voz de fogo a queimar o vergonhoso rosto dos carrascos do seu povo, dos vendilhões da sua pátria. (...) Pretendem matá-lo e nós sabemos que são frios assassinos os que querem matá-lo. É uma vida preciosa, preciosa para Portugal e para o mundo, ajudemos o povo português a salvá-la! (...) Há alguns meses eu estava em frente ao mar Pacífico, na costa sul do Chile, em Isla Negra, em casa de Pablo Neruda, meu companheiro de lutas de esperança. Uma figura de proa de barco se elevava em frente ao mar de ondas altas e violentas. Por isso falámos de Portugal e do seu destino marítimo. Contei ao poeta sobre Cunhal, e Pablo levantou-se, deixou-me com o pescador que parara para escutar-nos e quando voltou havia escrito esse maravilhoso poema que é «A Lâmpada Marinha»* sobre Portugal, seu povo, Álvaro Cunhal e o dia luminoso de amanhã (...) Hoje o mais bravo dos filhos desse povo heróico, aquele que tudo sacrificou para ser fiel à esperança do povo está com sua vida ameaçada.»

Texto para a campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal, 1954.

* - será inserido em próxima mensagem

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Além fronteiras - Graham Greene

 
Graham Greene,
 escritor inglês, católico, 60 livros publicados, conhecedor do mundo como poucos, tinha um sonho que confessou a Eduardo Lourenço «o meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal». O que teria levado este intelectual com uma mundivivência invejável nutrir tamanho interesse em conhecer Álvaro Cunhal? Uma interrogação que deixo a quem nos ler.

Mapa de Iniciativas/Programação Central (05.01.2013)



Centenário de Álvaro Cunhal


Na sequência de decisão tomada na reunião do Comité Central do PCP, de 1 de Julho de 2012, está em marcha uma iniciativa que assinala o centenário de Álvaro Cunhal.
A resolução então tomada teve o título Vida, pensamento e luta: exemplo que se projecta na actualidade e no futuro e já muito trabalho foi feito.
Desse trabalho foi dado, ontem, conhecimento formal, em reunião de quadros, para se "prestar contas" e discutir o já realizado, e para estimular e avançar com o trabalho futuro.
Foi uma reunião de dia inteiro, com centenas de militantes de todo o País.
Tendo participado nessa reunião, fiz uma pequena declaração, muito longe de me aproximar dos 6 minutos para as intervenções não centrais. Disse:





Camaradas,



Também quero não deixar de sublinhar a importância desta reunião e o significado desta sala repleta.

A formulação “quero não” não é uma “figura de estilo” mas uma lição que aprendi num texto da juventude do camarada Álvaro Cunhal (está no Tomo 1 das Obras Escolhidas).

O Partido não quer esquecer Álvaro Cunhal… perdão!, o Partido quer não esquecer Álvaro Cunhal e seu contributo em todas as suas vertentes. Práticas e teóricas.

O que não se pode esgotar neste ano de comemorações do seu centenário, que antes deve ser um passo para melhor se conhecer e aproveitar, no nosso trabalho militante quotidiano, o seu exemplo, a lição da vida deste camarada decisivo para o que somos e para o que continuaremos a ser.


No meio das dezenas de intervenções foi apenas mais uma, quase só para afirmar presença.

No entanto, tendo-me saído aquela distinção do Álvaro entre "quero não" e"não quero", hoje, em domingo caseiro, fui lá, ao Tomo I das Obras Escolhidas, e aproveito para precisar a (e beneficiar da re-) leitura:


(...)


































(...)

De um artigo - "Queremos!, queremos!" - publicado no jornal Liberdade, nº 249, 17 de Fevereiro de 1935,  tinha Álvaro Cunhal 21 anos!

Programa central - Principais momentos: 19 de Janeiro