«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

UMA CHAMA NÃO SE PRENDE


 
UMA CHAMA NÃO SE PRENDE 
rodeado de paredes
rodeadas de
muros altos
que foram depois muralhas
um preso encarcerado
ao
longo da terrível década de 50
inteira
Não cedeu.

Levado a tribunal
em 3 e 10 de Maio de 1950
então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele torturados não «falaram»
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo greve da fome foi morto
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o
seu Partido a sua acção
e a
sua orientação política

Ponto a ponto responde às calúnias
que são os porcos argumentos do ódio
e do
terror de estado Ponto a ponto
responde
com o orgulho do homem livre
e o
vigor da inteligência Responde por si
e
pelos seus como quem acusa
e
ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso
Dos 11
anos seguidos, preso,
14 meses
incomunicável,
8
anos em isolamento
E
não cedeu Nunca cedeu
Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/e grita/contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
este homem livre é uma chama
uma lâmpara
marina

Não cede e desenha
e
estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada
pelo vento e pelo silêncio
numa
cela
Não cede e escreve
A
Questão Agrária
As
lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma
tradução do Rei Lear
e escreve
Até Amanhã, camaradas

o homem livre encarcerado
fugiu
enfim
colectivamente
a 3 de
Janeiro de 1960
e
nunca mais foi apanhado

Manuel Gusmão
(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal») 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

sábado, 26 de janeiro de 2013

Convite


 
Vasculhando caixas e gavetas para encontrar tudo o que possa lembrar a participação de Álvaro Cunhal, é um convite que vos deixo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

No avante!

Na 1ª página:
 com chamada para um caderno interior (pags. 13 a 20), com um logotipo:






além do editorial.

programa - calendário

calendário

Cascais
- Domingo, 27, às 15h00, no âmbito das comemorações do centenário de Álvaro Cunhal, «Debate sobre Álvaro Cunhal, um contributo inestimável para o Movimento Comunista Internacional», no CT de Cascais, junto ao Jardim Visconde da Luz, com José Casanova, do CC e director do Avante!.

Oeiras
- Domingo, 27, às 13h00, almoço/convívio com debate, promovido pela Comissão de Freguesia de Queijas, no CT de Queijas, com Gonçalo Tomé, do CC. Ainda, às 13h00, no âmbito das comemorações do centenário de Álvaro Cunhal, almoço/convívio da Freguesia da Barcarena, no CT de Tercena,

Vila Franca de Xira
- Até quinta-feira, 31, vai estar patente ao público, no CT de Vila Franca de Xira, uma exposição sobre as comemorações do nascimento do camarada Álvaro Cunhal.

A NÍVEL DE CONCELHOS

Como é nosso intento dar nota das iniciativas sobre as comemorações dos cem anos de Álvaro Cunhal onde quer que tenham lugar, assinalamos, por exemplo - e para exemplo - a realizada pela autarquia da Moita.


«Centenário de Álvaro Cunhal: 

comemorações já tiveram início

Comemorações de AC 3 (2)No ano em que se assinala o centésimo aniversário do nascimento de Álvaro Cunhal, o Município da Moita associa-se também às várias homenagens que acontecem um pouco por todo o país, dinamizando um conjunto diversificado de iniciativas que pretendem, essencialmente, dar a conhecer a vida, o pensamento e a obra de Álvaro Cunhal. O programa foi apresentado publicamente no dia 19 de janeiro, no Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, onde foi também inaugurada a exposição “Álvaro Cunhal: Desenhos da Prisão e Projetos”.
O presidente da Câmara Municipal da Moita, João Lobo, recordou Álvaro Cunhal como “um homem livre que ganhou dimensão nacional e internacional, um intelectual, um artista e uma figura central que marcou a história do século XX”, realçando ainda que “a sua atividade multifacetada é ainda desconhecida de muitos, pelo que, ao longo deste ano, teremos oportunidade de conhecer melhor o seu legado, seja nas suas intervenções políticas, seja pelo seu pensamento ou pelas reflexões teóricas que nos deixou ou ainda desvendando a sua capacidade criadora”.
O autarca frisou que as ideias e pensamentos de Álvaro Cunhal traduzem-se na construção de uma “sociedade mais justa e melhor para todos, uma sociedade bem diferente daquela que vivenciamos”. Para João Lobo, uma forma de homenagear Álvaro Cunhal é “nunca desistirmos de lutar por aquilo em que acreditamos para a construção de uma sociedade mais justa, uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem”, concluiu.
A apresentação do programa comemorativo coube ao vice-presidente da Câmara Municipal da Moita, responsável pelo pelouro da cultura, que, além de enumerar e explicar as diversas iniciativas já agendadas, como colóquios, conferências, exposições, ciclos de cinema, entre outras, frisou que este programa “continua aberto, havendo espaço para o envolvimento e contributos de toda a comunidade”.
A conferência que se seguiu teve como protagonista o escritor Domingos Lobo que dissertou sobre “A Obra Literária de Álvaro Cunhal”.
Até ao dia 9 de fevereiro, está patente na Galeria de Exposições do Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, na Baixa da Banheira, a mostra “Álvaro Cunhal: Desenhos da Prisão e Projetos”, composta por alguns dos desenhos a lápis sobre papel que Álvaro Cunhal fez, entre 1951 e 1959, numa cela da Penitenciária de Lisboa e também no Forte de Peniche.
Nota: em anexo, seguem, além das fotografias, a intervenção do Presidente da Câmara Municipal da Moita e também o programa completo das comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal.
Câmara Municipal da Moita»

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

De vez em quando um desenho - desenhos originais - 1

Excerto de texto mais longo, para abrir uma "exposição" de desenhos inéditos de Álvaro Cunhal:

« ... (daquele) envelope não mais me recordei, até um dia em que a minha mãe me chegou com ele nas mãos e me disse que, ao arrumar umas roupas há muito em desuso, o encontrara e só então se lembrara do meu pedido para o guardar, pedido de há alguns anos, "... de antes do 25 de Abril", sublinhou.
“Ah!, é verdade!, obrigado…”. E levei-o para onde o pudesse abrir sozinho, comigo e as recordações. Não fazia ideia do que iria encontrar. Lembrei o pedido do camarada para guardar o envelope, antes de "dar o salto" adivinhado, "... não é nada de importante ou que tenha perigos..., é mais uma coisa afectiva... depois peço-to...". Entretanto, o querido camarada morrera sem que lhe tivesse devolvido o envelope que então abri!
Foi assim que me vi nas mãos com uns desenhos em pedaços de papel mal cortados, meio rasgados, mas quase todos com o traço inconfundível de Álvaro Cunhal, alguns com data. Vi-os atentamente, um a um, fizeram-me sorrir e comoveram-me, e dei por mim a perguntar-me “que faço agora a isto?”.
Aqueles desenhos originais e de enorme significado, estavam nas minhas mãos pela primeira vez, e tinha-os como se meus fossem mas não os sentia como meus. E de quem eles eram efectivamente (e afectivamente) já tinha morrido. Não me pareceu correcto ficar com os desenhos, tê-los como herança tácita… ou de usucapião!

Esperei que um encontro com o Álvaro me proporcionasse falar-lhe no assunto mas, com o tempo a passar, pareceu-me que esperar seria pouco e demasiado fortuito, ou até artificioso da minha parte. Por isso, um dia, formalmente, pedi à  camarada que secretariava Álvaro Cunhal que me marcasse uma conversa pessoal (sublinhei) com ele.
A conversa foi marcada, sem qualquer dificuldade, para uns dias depois, e lá fui eu com o (para mim) famoso envelope.
Ao entrar na sala reservada na Soeiro para o encontro, no meio dos cumprimentos iniciais, o Álvaro perguntou-me se havia algum problema, qual o motivo da conversa. Com alguma tibieza no arranque contei-lhe, em pormenor, o que me levara a pedir a conversa, e passei-lhe o envelope para as mãos.
O Álvaro começou a ver os desenhos, um por um, e não escondeu a surpresa. Passou-os todos, detinha-se mais num ou noutro e tinha exclamações, de vez em quando, “ai!, o malandro…ora esta…olha!, com data e tudo...”.
Quando acabou, olhou-me com um sorriso “… ele não devia ter guardado isto; como sabes, no final das reuniões, até por cuidados conspirativos, todos os papéis como estes tinham de ser destruídos, como as beatas e o resto do lixo… mas ele quis guardá-los…”, ensaiei um tímido “ainda bem!” e o Álvaro continuou, como se não tivesse ouvido, “… e agora?, o que é que tu queres?, são teus… não queres ficar com eles?”, gaguejei “querer, quero… mas não os considerava meus sem primeiro tos mostrar e ouvir o que dizias…”, o sorriso alargou-se mais (nas duas caras…) “Então fica!… são teus… mas vê lá a quem os mostras…”.

E acabou a reunião. Sem termos rasgado ou queimado papéis. Com um forte aperto de mão.»



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

CONVITE À LEITURA


É necessidade e dever nosso estar preparados ideologicamente para fazer face a desvios de esquerda ou de direita, gérmen sempre presente e que ao mais pequeno descuido se instala causando por vezes danos irreparáveis.

Escolhi este extrato (do indecoroso rapapé de Mário Soares a Marcelo Caetano*) de “O radicalismo pequeno burguês de fachada socialista comoconvite à leitura’ de uma análise incontornável de Álvaro Cunhal a estas perigosas tendências.

«Tal qual os oportunistas de direita da ASP. (Acção Socialista Portuguesa – 64/73) Ainda nas vésperas da burla eleitoral, Mário Soares classificava a manobra fascista como uma “operação liberalizante”, insistindo em que essa “operação”, resultado de “razões estruturais”, representa uma efectiva “evolução”. A evolução (declarou) não é tão rápida como todos a desejaríamos, mas não vejo motivos para desesperar” (“República” 23.X.69).»

*- Marcelo Caetano (a quem a ASP chamou em temposraio de luz”) [ASP, Mário Soares / Tito Morais]


O homem que gostava de canções


“Festa de aldeia” – Álvaro Cunhal, in “Desenhos da prisão”

Quando no dia 13 de Abril de 1980 chegou a hora do grande comício de encerramento da 4ª Conferência da Reforma Agrária, em Évora, nem um ano tinha passado sobre o assassinato do “Casquinha” e do “Caravela” às mãos da GNR e a mando do Governo de iniciativa presidencial de Pintassilgo, apoiado na lei criminosa de Barreto.
Já se tinha entendido que iria ser muito difícil defender a mais bela conquista do 25 de Abril... mas ainda assim, era o que faltava que se perdesse sem luta! Daí o lema da Conferência, “Defender a Reforma Agrária, prosseguir Abril”. Daí a redobrada importância do discurso que encerraria a Conferência e o comício, proferido por Álvaro Cunhal.
Eu tinha acabado de cantar algumas canções, duas delas (pelo menos) saídas do meu mais recente disco, editado no ano anterior. Palmas... sentei-me no grande estrado feito palco, a alguns lugares de distância de Álvaro Cunhal, que estava a escassos minutos de ir discursar para aqueles milhares de pessoas.
De mansinho, levantou-se e veio, sem dar muito nas vistas, sentar-se ao meu lado. Queria saber como estava a correr a “carreira” do meu disco. Gostava de várias das suas canções (não caiu na tentação de me dizer que gostava de todas!). Deu-me algumas razões técnicas para explicar o seu gosto pela minha canção com poema do AryLlanto para Alfonso Sastre y todos” (a ligação da música com a letra, a cavalgada rítmica que eu tinha decidido compor, a forma de a cantar)... mas preferia, decididamente, “Ao alcance das mãos”. Para meu grande prazer enquanto autor, disse-me também porquê. Uma mão a apertar-me o ombro, a dar-me força... e foi para o seu lugar, praticamente no momento em que o seu nome era anunciado.
Um membro da organização, provavelmente daqueles (já me cruzei com tantos!) para quem os cantores, assim que cantam a última nota com que “abrilhantaram” a sessão para que foram convidados, deixam de ter qualquer utilidade ou interesse... não aguentou a dúvida que o “angustiava” e perguntou-me:
- O que é que o Álvaro tanto tinha p'ra falar contigo em cima do palco?
Uma das minhas razoáveis qualidades (há horas em que é um defeito) foi sempre a capacidade de responder a perguntas deste “género” com respostas por vezes insolentemente anárquicas:
- Estava a dar-lhe umas ideias para o discurso!
Não lhe dei tempo para “chegar lá” por si... tive pena do seu ar algo perdido e optei por explicar-lhe o que se tinha passado realmente.
Afinal, aquela figura carregada de História, de anos de heroísmo, de algum mistério e mais tudo o que sabemos... era, também, apenas mais um homem que gostava de canções!



Adenda: Entretanto, recebi esta prenda do Monginho (sim, o Monginho dos cartoons do Avante)... que sempre tem mais uma corzinha, como ele diz. Faz toda a diferença! O cartaz é da autoria do saudoso João Martins, outro cartonista, mas este de "O Diário".

Publicado em paralelo no "Cantigueiro".

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Agenda - iniciativas próximas (e conhecidas)

02
Fev.
.
Sacavém
Lançamento das comemorações do centenário de Álvaro Cunhal, no Concelho de Loures, na Academia Musical Sacavém, pelas 15:30.
Participação de Manuel Rodrigues, membro do Comité Central do PCP e da Comissão das Comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal.
 
15
Fev.
.
Debate sobre «O Partido com Paredes de Vidro» de Álvaro Cunhal, na Casa da Cultura de Santa Iria da Azóia, pelas 21:30.
Participação de Luísa Araújo, membro do Secretariado do Comité Central do PCP.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

SUBLINHADOS


 
Os sublinhados, fi-los, há uns bons anos, e, ao aferir as minhas preocupações de então, de sempre, senti, obviamente, uma enorme tranquilidade. Assinalo-vos estes extractos para aguçar o vosso interesse por este opúsculo exemplar. Os princípios expostos permitem-nos desarmar qualquer agressor, afirmando assim “a superioridade moralque é forçoso confirmar na prática.


Rogério Ribeiro, Álvaro Cunhal e a sua criação artística

Rogério Ribeiro, Álvaro Cunhal e a sua criação artística

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Intervenção de Rogério Ribeiro na Conferência realizada na Biblioteca-Museu República e Resistência 


Começo por vos pedir desculpa pelo atrevimento.
Aceitar o convite para vos falar de Álvaro Cunhal e a sua criação artística, ou seja das suas reflexões sobre arte, dos seus desenhos e da sua pintura, é uma tarefa que me excede. Com consciência das dificuldades, também vos peço que compreendam como era difícil escusar-me ao prazer, à alegria que esta pequena conversa me exigia. Voltar a aproximar-me dos seus textos, das memórias que o tempo foi guardando, de conversas rápidas que deixaram registo, constitui uma obrigação a gosto. É de algum modo evocá-lo, sentir-me vaidosamente como colega de ofício deste homem tão exigente consigo e tão simples, que marcou e que continuará marcando o tempo português como activo e influente protagonista.

São inúmeros os testemunhos de reconhecida admiração dos que com ele privaram ou daqueles a quem aconteceu um contacto de acaso, ou daqueles que partilhavam as ideias, as formas de luta, dos camaradas de Partido, ou mesmo dos adversários que lhe reconheciam a inteligência, a cultura e a invulgar coragem... Todas as memórias se registam em grandes e pequenos acontecimentos da vida, mas a mesma matriz de camaradagem solidária, ampla, sensível, determinada, confiante e impulsionadora. . . era constante em Álvaro Cunhal.
Acompanhei-o por duas vezes na apresentação do seu livro «A arte, o artista e a sociedade», em Santiago do Cacém e em Almada. Era comovente ver o seu entusiasmo quando propunha à plateia que ouvisse um pequeno trecho gravado. Uma voz feminina, cantando, elevava-se como uma lâmina aguda ganhando o silêncio da sala, numa breve melodia de rara beleza pela extensão e pela qualidade e timbre da voz. Depois perguntava, deixando um certo tempo para que a voz continuasse a ressoar no mais intimo do nosso coração. Sabem o que ouviram? Perguntava e respondia, não é uma diva em S. Carlos, é uma camponesa de Trás-os-Montes num canto de trabalho.
Esta comparação estimulante permitia o enlace do erudito e do popular, agarrava as forças criadoras do homem, exaltava a dignidade e explicava a capacidade de podermos ser simultaneamente intérpretes e espectadores da vida e permitia entender uma dimensão alargada da arte como força permanente indispensável e renovadora.
A procura de encontrar formas de transmitir o sentido do «belo» no seu valor intrínseco, constituindo um valor estético em si mesmo, era para Álvaro Cunhal uma linha, um forte motivo de reflexão. Considerava a obra de arte aberta à complexidade dos nossos sentimentos e motivações.

***

«O artista é um criador e o belo é em si mesmo um valor estético». Esta é uma afirmação simples, luminosa e bastante clara.
São inúmeros os exemplos dados nos seus textos que permitem afirmá-lo.
Por exemplo, comentando um quadro de EL Greco, «Uma vista de Toledo», onde o céu se abate dramático e anunciador duma violenta tempestade em azuis quase negros e cinzentos, comenta: «não nos transmite apenas a violência de uma tempestade natural, mas o pesadelo da inquisição». E acrescenta, «o significado social não precisa de ser explicitado para ser suficientemente expressivo».
Este «mover» entre o conteúdo e a forma, entre as vontades e os sonhos, entre o compromisso e a luta social expressas na arte, ao longo da sua história, continuando-se como questão central hoje, é também uma linha de reflexão que desde a sua juventude Álvaro Cunhal debate, analisa, discute.
Em 1939 (ano em que faz um desenho para a capa da primeira edição dos «Esteiros» de Soeiro Pereira Gomes ), numa polémica na Seara Nova em que se envolve com José Régio, autor da «Encruzilhada de Deus», e que Álvaro Cunhal intitulou «Numa Encruzilhada dos Homens» e depois, «Ainda na encruzilhada», o que estava em causa era fundamentalmente a relação da arte com a vida.
Para os «presencistas» a arte era um fim em si mesmo, a mais pura e sublime. Ela deveria ser a revelação íntima do seu autor, dos seus problemas, das suas cogitações, num universo pessoal e livre de problemas, das questões sociais ou outras que marcavam o tempo a acontecer como coisa exterior e fora do seu ambiente ou da motivação criativa.
Contrariava Álvaro Cunhal com toda a força da sua argumentação, que não estava «em causa o valor poético mas a atitude social, que através da poesia cantava e comunicava». O isolamento do poeta na sua torre de marfim, como então se dizia, e que não apoucava a arte, antes lhe dava novas e renovadas dimensões se à sua qualidade acrescentasse a participação e utilidade no quadro de vida que então se vivia. Não é necessário recordá-lo, os anos 40 são anos dramáticos, são invadidos pelo fascismo alemão lançado na guerra que incendiará a Europa, pela Espanha saída duma guerra civil, onde o fascismo de Franco impôs a lei da morte, pela Itália de Mussolini, pela nossa repressão interna, onde o polvo fascista alargava violentamente a sua acção repressiva.
É, no entanto, necessário deixar uma nota. Cunhal nesta polémica e mais tarde no livro das suas reflexões sobre a problemática artística, ressalva a importância do movimento da «Presença» na sua rotura com o passado academizante e contra a mediocridade existente na literatura portuguesa de então. Refere alguns autores com particular carinho o que sublinha o seu grande respeito, a sua argúcia e o natural envolvimento activo, critico, participante no mundo intelectual.
Entre outras, estas, julgo terem sido linhas mestras que motivaram a Álvaro Cunhal longas e debatidas reflexões sobre o exercício, o pensamento e a prática da arte, quer interrogando a sua função, a sua utilidade efectiva no plano global do indivíduo, a sua luta solidária, quer como elemento participante na modificação da sociedade movida por ideais de fraternidade, de justiça social e de liberdade.

***

Houve um sentimento profundo que atravessou o homem, um pouco por todo o mundo, um sentimento pleno e sensível onde se reflectiram e convergiram duma forma idêntica os desejos, os sonhos, as lutas, que de todos os continentes se anunciavam numa vontade que conquistou o canto e a voz de milhares e milhares de homens numa determinação de ganhar a paz necessária ao refazer do mundo.
É neste quadro que nasce, ou o que se encontrou como resposta a estas premissas um movimento denominado neo-realismo, que como o disse Álvaro Cunhal «está indissoluvelmente ligado à luta pela liberdade e à democracia, contra a ditadura fascista em Portugal.»
Dos poetas do «Novo Cancioneiro» dos quais dizia João Gaspar Simões, «é o facto de esses poetas terem decidido que a poesia deveria ser utilizada para determinados fins», motivo que os isola e caracteriza diferentemente dos da Presença para quem a poesia era uma actividade em si mesma.
Mas o movimento começa a conhecer os primeiros livros como o novo e importante romance «Gaibéus» de Alves Redol, e avança com uma vitalidade extraordinária que se estende à poesia, à música, ao teatro, ao cinema, às artes plásticas, a todas as actividades criadoras, tendo como vector comum não apenas o autor e o esforço pela qualidade do seu trabalho, como, e cito, «partir de uma visão da sociedade em que o interesse social e humano do artista o conduzia a tomar como objecto da criatividade não o seu eu, antes as classes trabalhadoras, nomeadamente o operariado, os camponeses, os pescadores».
O neo-realismo foi nestes anos o motor, o que deu a motivação, a unidade, a energia, e teve uma participação muito activa na vida do País, dando uma luta sem tréguas à censura, à pide, ao regime. Conta Álvaro Cunhal que um crítico do Diário de Noticias preocupado com o insucesso da literatura «oficial», comentava «entre nós é preciso dizer mal dos ricos para agradar aos leitores».
O que ressalta hoje, quando a memória ou estudos que começam de novo a surgir, ou um simples olhar sobre o quadro dos acontecimentos, era a forte solidariedade política. Os presos políticos enchiam as prisões por todo o mundo. Uma repressão sem lei varria de igual modo o mais pequeno sinal de indignação, o mínimo sinal de luta, odiava a inteligência, desprezava o conhecimento, queria calar o mais sussurrado grito pela liberdade
Mas não conseguiam...
Escritores, poetas, operários, camponeses, estudantes, homens e mulheres, como uma imensa mola disparavam para o futuro, mau grado as condições da repressão arbitrária, mau grado a censura, a violência, e a miséria. É neste barco que viaja uma grande e incontida esperança que os poetas cantam, que os músicos como que a anunciam, que os escritores denunciando-a abrem ao mundo, que os pintores descobrem uma outra natureza em si próprios... que uma grande onda de solidariedade invade o mundo.

***

Mas Álvaro Cunhal, para além das polémicas que marcaram de forma inquestionável o mundo intelectual de então, e que continuam como questão central no campo das ideias sobre a problemática artística, desenhava, escrevia, pintava. Creio que procurava por uma necessidade interior, quase vital, pela forma encantada com que se envolvia em conversas sobre estes temas, traduzir a sua forma de encarar a prática artística, participando, ensaiando, descobrindo pelos meios de que dispunha os caminhos do seu trabalho.
E aqui será necessário, mesmo sabendo que certamente o sabem, referir as condições em que os «Desenhos da Prisão» são realizados, e nada mais claro do que citar a nota anexa à edição de 1975: «Desenhos da Prisão» foram executados de 1951 a 1959, nas cadeias da penitenciária de Lisboa, onde Álvaro Cunhal passou sete anos de rigoroso isolamento, e do Forte de Peniche, de onde se evadiu em 3 de Janeiro de 1960. A sua publicação, pelas Edições Avante! em Dezembro de 1975, enquadra-se nas iniciativas de recolha de fundos para o Partido Comunista Português.
Estamos a falar dum conjunto de desenhos, não realizados em atelier, como uma sequência normal de trabalho numa perspectiva de desenvolvimento, mas dum homem a quem foi retirada a liberdade, numa prolongada prisão em condições inenarráveis, que quis encontrar, procurando no mais profundo da sua vontade, a capacidade de, na folha, como uma bandeira branca aberta na cela, implicar o lápis a abrir janelas sobre realidades vividas, inventadas, recriando-as com grande carinho e ternura.
É necessário olhar os desenhos neste contexto e adivinhar a multiplicidade de solicitações a que Álvaro Cunhal teria certamente que responder.
E ao olhá-los que sentimentos, que valores eles reflectem na simplicidade das linhas que os contornam, da tonalidade de claro escuro, da sombra que os invade para sublinhar a densidade e fazer ressaltar com mais evidência um rosto, um perfil, um plano, nas multidões que se deslocam ou brincam, ou fantasiam jogos, o que sentimos é um fazer lento, uma demora que procura a exigência, não o traço rápido corrido, espontâneo, mas a tentativa duma conquista global, serena e intensa. As figuras isoladas que nos olham, estão duma forma singular, diferentes de outros desenhos, estáticas, como se eternas numa expressão de dádiva, duma ternura firme, parecem em diálogo com o autor. Tão eloquentes como a camponesa do canto em Trás-os-Montes.
É durante estes anos que escreve «Até Amanhã, Camaradas» que leva como um tesouro quando da fuga de Peniche, e ocorre-me de quão grande é o valor que o próprio autor atribui ao seu manuscrito ganhando foros de coisa essencial, como Camões salva os Lusíadas do mar, importa ressaltar a consciência da importância dum trabalho irrepetível que o próprio autor já lhe reconhece. E felizmente agora todos o podemos reconhecer como um ícone da nossa literatura, como peça essencial para a compreensão duma luta, mas revelando pela solidez das histórias, pelo fundo humano, pelo conhecimento sensível e profundo da realidade narrada, pela movimentação dos conflitos, pela diversidade da natureza humana, que dá aos seus livros uma qualidade literária, um calor e uma humanidade rara.
De regresso a Lisboa, depois da apresentação em Berlim da exposição comemorativa dos 60 anos do Partido (naturalmente na RDA), por amabilidade, Sérgio Vilarigues deu-me o lugar ao lado de Álvaro Cunhal, dizendo: «aproveitem para falar de pintura que eu tenho sono». E foi o que aconteceu. Dessa magnífica conversa de quatro horas, queria ressaltar, pela forma tão empenhada e comovente, como o fez, o comentário ao quadro de Rembrandt «O regresso do filho pródigo» que no essencial se encontra no livro sobre Arte, e por isso o citaria : «. . . é uma obra notável,... mas o mais exaltante é o valor estético da mensagem humanista... do que conheceu a solidão e o abandono que tem naqueles pés nus superiormente pintados a marca dessa longa caminhada, dessa longa experiência e que regressa, carente de protecção, de carinho e de amor.»
A pintura de Cunhal, procura a representação do drama, das margens entre o sofrimento e o amor tal como ele a descreve na apreciação de outras obras como por exemplo a de Rembrandt. Creio que é inevitável, quando um pintor olha um quadro e fala dele, fala sempre também um pouco de si próprio.

***

E uma última nota que toca os problemas com que arte se debate hoje, e que no seu livro Álvaro Cunhal se lhes refere com particular sensibilidade.
«Pouco conseguida é uma obra de arte que só com a explicação acaba por ser reconhecida como tal» e ainda «mais importante do que aquilo que o artista quis fazer é aquilo que realmente fez».
Para quem acompanhe a crítica, nos jornais, nas revistas, na rádio ou na televisão, mesmo escassa como é, certamente encontra sentido nestas observações pertinentes de Álvaro Cunhal.
Nunca se assistiu da parte dos artistas a uma tão cabal explicação das motivações, do momento inspirador, da infância que sempre houve, das razões directas ou indirectas, do que quis dizer mas que conseguiu evitar, como nos últimos anos em que os poleiros estão cheios de boas razões e boas casas para se sentirem afirmados.
Ou muito me engano ou estamos perante outra «Encruzilhada dos homens» que foi motivo da polémica entre Cunhal e Régio.
E terminava citando Álvaro Cunhal, cujo pensamento felizmente se encontra mais que escrito, registado em inúmeras publicações, dando-nos a possibilidade de rever e encontrar neste saber de experiência que praticou, motivações e estímulos seguros para continuar a procura do belo e do sentido da arte no mundo do homem.
E a citação é sobre Picasso:
«Picasso é um caso extraordinário de insatisfação e de busca incessante, de rebeldia e revolta, de destruição e superação autofágica, de instabilidade, de negação do que está para trás, da necessidade do novo e do inesperado.»
Obrigado.








1930-2008

domingo, 20 de janeiro de 2013

Na sessão pública de abertura...

... Fausto Neves tocou esta peça (e fez um pequena e didáctica introdução)



de Fernando Lopes Graça, dedicada a Álvaro Cunhal nos 80 anos deste.

Foi muito bonito (e ainda terminou a sua intervenção com uma peça de Debussy, lembrando que Debussy era filho de um "communard", um homem da Comuna de Paris, de 1870)!