«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Álvaro Cunhal evocado em Cascais

«Teve lugar no sábado, no Centro de Trabalho de Cascais do PCP, um extenso debate (durou três
horas) sobre a vida, o pensamento e a luta de Álvaro Cunhal, que contou com a participação de José Casanova, director do Avante! e membro do Comité Central do Partido. Perante uma sala cheia, o dirigente comunista traçou o percurso de Álvaro Cunhal desde a juventude até aos seus últimos dias, marcado sempre pela firme defesa do Partido do qual foi o mais destacado construtor e com o qual a sua vida se funde.
José Casanova falou da inteligência, integridade, cultura e firmeza de Álvaro Cunhal, referindo ainda a importância universal do seu pensamento e da sua acção para o movimento comunista internacional. Aliás, depois de Lénine mais nenhum dirigente comunista em todo o mundo teve uma tão fecunda e extensa obra, garantiu o director do Avante!, acrescentando que esta não se limita à teoria marxista-leninista, estendendo-se igualmente aos domínios da história, da literatura, da pintura e das artes. 
A sua tese sobre o aborto, escrita na juventude, é ainda hoje um elemento referencial a ter em conta quando se analisa essa questão, salientou José Casanova, considerando da mesma forma que o livro «A Arte, o Artista e a Sociedade» deveria ser de leitura obrigatória em qualquer licenciatura em História de Arte. Notável é igualmente o seu trabalho, produzido na prisão, sobre «A luta de classes em Portugal nos Finais da Idade Média», abordagem única, marxista-leninista, sobre tão importante período da história nacional. 
Na resposta às inúmeras questões colocadas pelos participantes, José Casanova esclareceu diversos aspectos do pensamento e da biografia de Álvaro Cunhal, que fazem dele uma figura maior da história de Portugal e um dos mais notáveis teóricos e dirigentes do movimento comunista internacional.»

no avante!
de 31.01.2013 

Chegada de Álvaro Cunhal ao aeroporto da Portela - adenda


TARGETA ENVIADA PELA ANA ALVES MIGUEL
.







Mesmo oportuno.
Muito obrigados.
Venham mais coisas destas!

Chegada de Álvaro Cunhal ao aeroporto da Portela


Excerto de textos mais longos:

«(…)O largo em frente das chegadas do aeroporto foi-se enchendo. Sentia-se qualquer coisa de intraduzível. A vinda de Cunhal, num avião a aterrar na Portela, uma multidão a esperá-lo, um certo aparato militar para o receber e proteger, ultrapassava o que podia ser vivido no prolongamento de um fim de semana que era uma viragem na História. E não só de Portugal.
«A emoção era grande, e o pobre Costa Mendes não resistiu, ali morrendo com o coração a estoirar de espanto!
«O abraço que o Rogério Paulo me deu ficou a selar aquele ambiente irreal, aquela expectativa inacreditável. E foi a Joaquina e o Alfredo, e foi, e foi, e foi…
«De repente, Cunhal aparece, é içado para cima de um carro militar, com a ajuda de soldados, a Luiza Amorim fala. Cunhal, oferecendo a sua bela imagem, impõe respeito e simpatia, calmo mas evidentemente emocionado, também falou.
 «O que disse? O que então devia ser dito: a confiança, a certeza num futuro lutado, a necessidade de se estar à altura das novas condições. “Cunhal ao governo” saiu espontâneo num coral de vozes emocionadas e firmes. E foi um grande, um enorme abraço que nos uniu todos, diferente e igual ao primeiro, ao da saída de Caxias, havia só um par de noites mas que parecia já ter sido há tanto tempo.»

Assim foi a chegada de Álvaro Cunhal a Lisboa, tal como a vivi nos dias 29 e 30 de Abril e a registei em «Porque vivi e quero contar…», com os canos das espingardas dos soldados transformados em jarras para os cravos vermelhos que Cid Simões comprara  aos molhos, pela quase fortuna de 200 escudos, como há dias em conversa me confessou.
O que verdadeiramente importará dizer, com o distanciamento que estes 38 anos já possibilitam, é que o que Álvaro Cunhal disse do cimo daquele carro militar justifica a interpretação de que essa chegada e a intervenção feita fecharam o 25 de Abril e abriram o 1º de Maio… e o rumo às conquistas sociais, no caminho aberto pelo Rumo à Vitória.

Num trecho da sua declaração, Álvaro Cunhal disse:

"[...] O momento exige que se reforce na acção diária a unidade da classe operária, a unidade das massas populares – força motora das grandes transformações sociais; que se alargue e reforce na acção diária a unidade de todos os democratas e patriotas e se desenvolva impetuosamente a sua força organizada; que se reforce a aliança, a cooperação, a solidariedade recíproca entre as massas populares e os oficiais, sargentos, soldados e marinheiros de sentimentos democráticos e liberais. A aliança do povo e dos militares é, na situação específica hoje existente, uma condição essencial para o progresso da democratização da sociedade portuguesa. [...]"

As propostas que Álvaro Cunhal incluiu nesta sua intervenção à chegada ao aeroporto de Lisboa, coerentes com esta afirmação, foram muito claras, e desmentem especulações completamente esvaziadas de rigor (e de pudor), efabulações que levam a tantos preconceitos e os alimentam como arma da luta de classes.
 Foram 5 as propostas:

«1- consolidar e tornar irreversíveis os resultados alcançado pelo MFA de 25 de Abril e nos cinco dias desde então decorridos;
2 – alcançar todas as liberdades democráticas, incluindo a da acção legal dos partidos políticos, e assegurar o seu exercício;
3 – pôr fim imediato à guerra colonial;
4 – alcançar satisfação das reivindicações mais imediatas das massas trabalhadoras;
5 – assegurar a realização de eleições verdadeiramente livres para a Assembleia Constituinte.”

Álvaro Cunhal terminou o seu discurso com uma saudação ao MFA e à Junta de Salvação Nacional, e com as seguintes “palavras de ordem”, secundadas, com emoção e entusiasmo, pela multidão que enchia a plataforma frente ao aeroporto:

“Avante para a conquista definitiva da liberdade!
Avante para o fim imediato da guerra colonial
Avante para a realização de eleições livres e a instauração em Portugal de um regime democrático escolhido pelo povo!”

Ter vivido este episódio é inapagável nas nossas vidas. 
Registá-lo e transmiti-lo será um dever.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cunhal e o Protocolo


Do blog «duas ou três coisas» 'notas pouco diárias', do Embaixador Francisco Seixas da Costa, transcreve-se este interessante apontamento:


«A propósito da história aqui contada, há dias, sobre Álvaro Cunhal, uma amiga relatou-me uma cena passada, nos idos de 70, no Palácio da Ajuda, durante um jantar de gala, na receção de um chefe de Estado estrangeiro.

A esposa de um ministro português, senhora pouco dada ao mundo social e de um conservadorismo primário, pediu para falar com alguém responsável pela organização do jantar. A razão era simples: tinha sido colocada ao lado de Álvaro Cunhal e, sem cerimónias, adiantou que não queria comer "com um comunista ao lado" e "logo com esse homem horroroso!".

Foi explicado à senhora que as regras do protocolo eram o que eram, que o "homem horroroso" era o líder de um dos partidos com assento parlamentar e que não era viável fazer mudanças de lugares, porque isso implicaria ter de trocar outras pessoas, o que iria forçosamente gerar algum escândalo. À palavra "escândalo" - que mais tarde viria a atingir o seu marido, mas isso não faz parte desta história... -, a senhora acalmou e  se acomodou à ideia de ter de comer "com um comunista ao lado".

No final do jantar, a diplomata cruzou-se com a senhora, ainda nos corredores da Ajuda, e inquiriu como tinha corrido o repasto. A senhora estava radiante: "Sabe? O Dr. Cunhal é simpatiquíssimo. Imagine que até conhecia os nomes das heroínas dos romances de Madame Delly!".

Permanecerá para todo o sempre em mistério a razão pela qual o líder comunista havia lido romances típicos da adolescência feminina dos anos 50 e 60. agora, convém dizer que a Madame Delly era o pseudónimo de dois escritores franceses.»

De vez em quando um desenho - desenhos originais - 2 - os gatos de bigodes

Participar na concretização deste projecto de acompanhar o centenário de Álvaro Cunhal com a edição de um blog está a revelar-se uma experiência extraordinária. Em cada passo se aprende, em cada contacto - de nossa iniciativa, ou a nós vindo - nos sentimos humanamente enriquecidos.
Desde o início, tínhamos a intenção de publicar alguns dos desenhos originais que, por acasos, há anos guardo como meus (ver aqui neste blog), e quando escolhía um segundo desenho para essa série, li (ou reli) a entrevista publicada no Diário de Notícias de 12 de Junho de 2010, com Ana Cunhal, a filha de Álvaro Cunhal, no espaço que o "sítio" do PCP dedica ao centenário (aqui-DN,12.06.2010), e a decisão foi (diria) compulsiva. 
Também durante as reuniões, Álvaro Cunhal desenhava gatos com olhos enormes, com alguma tristeza ou cansaço, e grandes bigodes a "abanar ao vento". Talvez com o pensamento a  fugir-lhe para a filha de que estava afastado mas sempre "presente"...