«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Aventura do Álvaro - MEC


Crónica de Miguel Esteves Cardoso (MEC) no “O Independente” de 1 de Dezembro de 1989. Carinhoso para com o político que sempre respeitou e caustico para os que os traíram além do rapapé a outros que se estavam a juntar aos ratinhos. 
Um texto datado... mas nem por isso! Ou não em todos os trechos...

A Aventura do Álvaro

Cada vez que vejo o Dr. Vital Moreira ou a Dr.ª Zita Seabra fico agoniado. Sou demasiado sensível. Não é que eu não possa ver sangue. Até posso. O que o meu estômago não aguenta são as facadas nas costas. Para mais quando os esfaqueadores, de faca na mão e dentinhos na televisão, estão a sorrir.
O Vital e a Zita são muito parecidos. Ambos têm nomes que não lembram ao diabo. Ambos são baixinhos e franzinos. Ambos têm bigodes. Ambos têm narinas epilépticas, daquelas que abrem e fecham a 180 pulsações por minuto. Parecem dois ratinhos. Serão irmãos?
O mais engraçado é que o Vital, com aqueles olhos meigos e aquele cabelo comprido, dá mais para Menina Ratinha e a Zita, com cabelo curto e ar duro, dá mais para Sr. Rato. Para facilitar, chamemos-lhes Rato Zito e Ratinha Vitalina.
Para , deviam escolher outras carreiras. O Rato Zito dava um bom chefe de redacção duma revista de desporto feminino. Podia até assinar uma incisiva coluna sobre o lançamento do dardo. A Ratinha Vitalina, que tem uma cabecinha fabulosa, devia regressar imediatamente à vida académica.
O que não está certo é que estejam os dois, ansiosos a rasteirinhos, a fungar junto às pernas da mesa da perestroika, a ver se lhes cai alguma migalhinha. Enquanto os grandes ursos, de garfo e faca em punho, se deliciam com um banquete de democracia, servido pelo Urso-Chefe Gorbachev, irrita ver estes dois ratinhos de gente a porem-se de , de patinhas pedintes e tremelicantes, para chamar a atenção dos animais importantes. O que vale é que ninguém lhes liga nenhuma.
Querem sobretudo roer o juízo ao Álvaro, o Ursinho Bom. Querem mostrar-lhes que são ratinhos muito jovens e frescos. Estão fartos de ser ratinhos e querem ser ursos também. Esquecem-se de que Álvaro, o Ursinho Bom, é muito mais sábio e peludo do que eles julgam. O Bom Urso Álvaro não precisa que sejam os ratinhos portugueses a explicar-lhe o que é a perestroika. Como ele é um Urso Grande, o camarada Gorbachev explica-lhe directamente.
Se o Rato Zito e a Ratinha insistem na política, há uma coisa que não percebo. Porque é que não se inscrevem no PRD? Tenho a certeza de que seriam bem-vindos. Ou talvez fosse mais fácil, por uma questão de dimensões relativas, o PRD inscrever-se neles. De qualquer modo, tanto um como outro estão mal no PC, que é um partido comunista e, para além disso, honrado. Hoje em dia, pelos vistos, estão filiados no PCP os anticomunistas mais primários de Portugal.
Não se pense que sou contra os críticos. Quem é que pode ser? Sou é contra os oportunistas. Em Estrasburgo, sinto-me mais bem defendido pelo Barros Moura do que por qualquer um dos outros; gosto mais do Judas e sou incondicional de José Magalhães, que é de longe o mais interessante dos políticos portugueses. o convidei a escrever uma coluna semanal aqui n’O Independente e a página está à espera dele quando quiser. Tanto um como o outro parecem comunistas sinceros e modernos. Mais importante ainda, têm tratado o Tio Álvaro com lealdade e respeito que ele merece. Acho mal é que o Partido Comunista Português se esteja a transformar num partido cheio de facções e tendências, traições e inconfidências, ambições e ganâncias. Qualquer dia está como o CDS. Ou o PSD. Ou como o PS. Quando se perder a força electiva do PC e a coesão e a convicção ideológica, a disciplina e o sacrifício diante de uma causa comum – o nosso mundo perderá o último dos combatentes puros.
Quero que o PC se renove e tudo isso. O que odeio é o som que fazem as patinhas do Rato Zito e da Ratinha Vitalina a esfregarem-se de contente cada vez que um projecto socialista se afunda. É uma frottage sibilina. Quando o muro caiu, devem ter chegado a Berlim guinchos de alegria do ratazame português. «Uiiiii! Agora é que vamos enterrar o Tio Álvaro»! Se fossem ratinhos descomprometidos estaria tudo bem. Mas não é o caso. Tanto o Rato Zito como a Ratinha Vitalina, como se sabe, ajudaram a manter o Muro enquanto lhes convinha.
Álvaro, o Ursinho Bom, não se pode comparar com estes ratos. É melhor que todos eles juntos. Até a nota de curso dele (19) é superior à da Vitalina. Depois de uma vida inteira de sacrifício e sobrevivência, a levar facadas nas costas de toda a gentequem é que não passou pelo PC? – ainda consegue ser o político português mais aprumado. É sem dúvida o melhor inimigo que a burguesia portuguesa teve.
Álvaro, o Ursinho Branco, tem pinta, integridade, coragem, sentido de humor, sentido patriótico, inteligência, bom gosto. E tem as suas ideias. Dedicou-lhes a vida, para grande benefício dos portugueses mais pobres e azar dos mais ricos. É pena ser de Esquerda – acho que dava um belíssimo conservadormas pronto. Se é para ser de Esquerda, mais vale não estar com meias medidas.
A Ratinha Vitalina e o Ratinho Zito são da Esquerda «fofa«, são comunistas de pelúcia, daqueles com quem os filhinhos dos patrões podem brincar à vontade, sem medo de se magoarem. É a Esquerda que abre lojinhas de prendas, com caixinhas em madeira de pinho que têm um cigarro e uma carteira de fósforos dentro. Amanhã podem fazer murinhos de Berlim em esferovite, com um martelinho ao lado, a dizer: «A demolir».
Qual é o capitalista que tem medo destes ratinhos? Deita-se-lhes um triângulozinho de queijo Tigre e pronto. Passados uns minutos está a correr no carrossel e a fazer truques. Em comparação, as dentuças afiadas de Álvaro, o Urso Branco, continuam a aterrorizar os patrões portugueses. Enquanto o Zito e a Vitalina são o Bernardo e Bianca da «perestroika» portuguesa, Álvaro Cunhal é um verdadeiro urso russo. Não tem nada de Walt Disney.
Faz rir a ideia de que os ratinhos Zito e Vitalina são «modernos» e que Álvaro, o Ursinho Bom, é «antiquado». Basta olhar para os cortes de cabelo e para as maneiras de vestir. Com o Álvaro Cunhal, sempre impecável nas suas camisas brancas, cabelos puxados para trás, calças largas, pode entrar em qualquer lado. O homem veste-se como os putos. Em contrapartida, a Zita é um susto. Veste-se como qualquer militante de trinta-e-dois que cortam o cabelo no barbeiro da Lisnave, mas compram roupa «feminina» nas boutiques mais modernas de Setúbal. Acham-se extraordinariamente descomplexadas por «trazer» um lenço de seda atado à sacola e usar jeans americanos para rapaz.
Do Vital estamos conversados. É da tribo mais perigosa de Portugal – dos Tontinhos-Maconde. O Haiti pode ter os Tonton-Macoutes, que praticam as piores espécies de bruxarias. Mas ao menos vestem-se bem. Podiam muito bem aparecer num anúncio da Benetton. Os tontinhos-Macondes são piores e estão a tomar conta de todo o País. O estilo é Benetton do Barreiro, meados dos anos 70. a franja é cão-de-água como Françoise Hardy. O bigode é Sabrina Deluxe, que são aquelas com uns pelos muito rijos que apanham tudo do chão. Ainda por cima, o Tontinho-Maconde nem sequer tem mérito de fazer uma opção pessoal, porque deixa isso tudo à companheira. É da imortal escola portuguesa do Escolhe Tu, Filha.
Por estas e por outras é que Álvaro, o Ursinho Bom, é muito mais rebelde, muito mais jovem, muito mais comunista do que os ratinhos que o querem cercar. E mesmo que não fosse, a cultura portuguesa, que é suave e sofisticada, consagra aos estadistas com mais de 40 anos de serviço público um direito inalienável, que é o direito de cair da cadeira abaixo. Se eles quiserem. E não vale empurrar. Ou guinchar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

1969, Álvaro Cunhal na R.P.L.


O frontispício do opúsculo clandestino de 1969 e um extrato sobre a oportunidade das lutas reivindicativas. [Rádio Portugal Livre AQUI]


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Ajudas na manhã...

depois de leituras antes de adormecer:

"Unidade de movimentos não significa identidade de objectivos. Mal foi terem-se alimentado ilusões. Homens que se encontram e resolvem caminhar juntos não se tornam, por esse facto, irmãos gémeos. Pela mesma razão por que aglomerados aliados numa etapa dum movimento transformador se não fundem num só aglomerado. Muitas vezes marcham a par camadas da população, cujos interesses coincidem num movimento, mas que os destinos históricos virão a separar (...)"

Álvaro Cunhal
Aviso prévio
artigo publicado
no jornal O Diabo, nº 276,
de 6 de Janeiro de 1940

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

OUTRAS VOZES

 HÉLIO BERNARDO LOPES “Notícias do Nordeste” 21/01/2013
Álvaro Cunhal
Tiveram início neste passado sábado as comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, líder histórico do Partido Comunista Português, e figura cimeira do movimento comunista ao nível mundial. Como se pôde ver à saciedade, ao tempo e ao redor do seu funeral, Álvaro Cunhal de há muito havia conquistado um lugar cimeiro no imaginário coletivo português.

São três, em minha opinião, os meios para se poder aferir o que foi o papel histórico-político de Álvaro Cunhal: as obras que escreveu, mas que requerem algum conhecimento da História e da Filosofia Política; os discursos e intervenções políticas; e a obra de José Pacheco Pereira, em diversos volumes, e sobre cujo conteúdo nunca Álvaro Cunhal levantou um infinitésimo reparo. Para destes aspetos, há toda a sua obra literária, mas também a sua intervenção no domínio da pintura, por onde mostrou facetas que o colocam, inquestionavelmente, como uma personalidade complexa, muito completa, com um humanismo que pode encontrar-se quando se está despido de preconceitos e se procura, de facto, esclarecer a verdade histórico-política. No fundo, o que o nosso embaixador, José Fernandes Fafe fez com Fidel Castro.

Disse Jerónimo de Sousa, neste
passado sábado, que Álvaro Cunhal mostrou uma evidente perceção do desastre que viria por e que hoje está à vista de todos, por e por partes diversas do Mundo. Não sei, de facto, ao que se referia o líder comunista, mas recordo uma posição escrita de Álvaro Cunhal, ainda de antes da Revolução de 25 de Abril, e que corrobora a realidade ora referida por Jerónimo de Sousa e também defendida por muitos intelectuais e estudiosos de todo o Mundo e de quadrantes políticos diversos: não servia ao PCP a democracia burguesa, porque ela seria um tempo de passagem e serviria a grande burguesia.
Ao tempo, e mesmo depois de Abril, estas palavras foram usadas para (supostamente) mostrar não ser Álvaro Cunhal um democrata. Mas tratou-se de um ato de má-fé, porque o que ali se condenava era a falsa democracia de que então se deu conta, e que conduziu o Mundo de hoje e Portugal ao estado de desastre que ninguém questiona. Inquestionavelmente, a democracia (burguesa) de hoje é uma simples palavra, traduzindo um modelo onde uma minoria acaba por conseguir viver à custa da pobreza e da incerteza generalizadas da grande maioria. hoje, um pouco por todo o Mundo, intelectuais diversos defendem que a democracia se transformou numa passagem das velhas ditaduras nacionais, suportadas em visões diversas da organização social, para a nova ditadura dos designados mercados, autênticas máquinas de crime organizado internacional. E, como pode ver-se, não surge um político do dito arco do poder que dinamize um movimento destinado a pôr um fim nesta sociedade de horror.

Álvaro Cunhal conquistou
um indiscutível e inapagável lugar no imaginário coletivo e na História de Portugal e do Mundo, aqui por via do papel que desempenhou durante o exílio. E por tudo isto, cujos contornos foi possível observar ao tempo do seu funeral, eu sempre defendi que os seus restos mortais deverão vir a ocupar um lugar no Panteão Nacional. Não será o único, mas um direito que também é de todos os portugueses realmente livres, intelectualmente honestos e com uma atitude cristão perante a vida.




HÉLIO BERNARDO LOPES escreve para o Notícias do Nordeste diariamente. É Autor de uma vasta obra que se distribui pelo texto jornalístico, pelo ensaio e pela ficção. Professor universitário, Humanista e matemático de formação, leccionou no ensino superior, tendo sido professor na Escola Superior de Polícia. Exerce a escrita diariamente, sendo colaborador de um considerável número de jornais regionais.
Publicado Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013 | Por: Hélio Bernardo Lopes

Antologia

De uma intervenção de Álvaro Cunhal

em Dezembro de 2003:

(...)

4

Uma falsa avaliação da situação criou porém nas forças revolucionárias uma ilusão: que era irreversível o avanço revolucionário e o processo em curso de libertação da humanidade.
Para essa ilusão não se tiveram em conta três realidades.
A primeira: a capacidade mostrada pelo capitalismo, mais que os países socialistas, de não só desenvolver as forças produtivas, como de descobrir, desenvolver e aplicar novas e revolucionárias tecnologias.
A segunda: a utilização pelo imperialismo, designadamente pelos Estados Unidos, de colossais meios materiais e ideológicos, a repressão brutal contra os trabalhadores e os povos em luta, colossais meios financeiros, económicos, políticos e militares contra as revoluções, bloqueios, sabotagens, atentados, conspirações, acções terroristas e guerras declaradas e não declaradas.
A terceira: as tendências crescentes nos países socialistas, nomeadamente na União Soviética, para a centralização e burocratização do poder e para a estagnação, pondo em perigo o futuro da sociedade socialista em construção.
Todos estes elementos em conjunto conduziram, na segunda metade do século XX, à vitória do capitalismo na competição com o socialismo.
(...)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Iniciativas - Notícias

Évora

Terça, 19 de Fevereiro de 2013
Cerca de 120 pessoas participaram no passado sábado, nas iniciativas comemorativas do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal no distrito de Évora.


AO ENCONTRO DO ENCONTRO


Três curtos discursos em homenagem póstuma a Álvaro Cunhal

[primeiro discurso "Uma chama não se prende" AQUI]

2. AO ENCONTRO DO ENCONTRO

para que eu pudesse fazer o meu caminho pelo
caminho comum e partilhar o tempo
a invenção, o desejo, o trabalho e a luta por
uma terra sem amos

para que nas histórias lidas desde a infância
eu aprendesse a descobrir os meus
a articular aquelas palavras
sobre as quais o confronto ainda não terminou
e assim nos movem para que eu pudesse sentir-me esperado sobre
esta terra tão dilacerantemente bela
e tão insuportavelmente devasta

para que tendo aprendido a falar eu tivesse
podido encontrar os outros na minha língua
para que eu pudesse olhar, estender as mãos
e encontrar o corpo do mundo
como a minha tarefa comum

para que eu viesse e pudesse chegar a esta reunião contínua
esta assembleia de homens
explorados e livres, oprimidos e
livres

foi necessário que a convocatória chegasse até mim
foi necessário que eles continuassem reunidos e me esperassem
foi necessário que tu tivesses vindo e chegado antes
que te tivessem acolhido e te tivessem transformado o nome próprio
em nome comum

Manuel Gusmão

De vez em quando, um desenho - desenhos originais - 7

Porque o anterior desenho (dos originais) suscitou algumas dúvidas nalguns amigos/as, aqui vai um outro, muito rapidamente:



ver a "história"  dos desenhos






 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

(re)Leituras urgentes…




Quanto mais não fosse para demonstrar que aquela coisa “maluca” do Facebook não serve apenas para as avozinhas e os avozinhos partilharem fotografias dos netinhos, ou para Cavaco Silva e Passos Coelho partilharem alarvidades… muito antes pelo contrário, pode ser mais um espaço para estarmos “de pé”… aqui fica, acabadinho de “surripiar” à página de Facebook do PCP-Carnaxide.


«No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.»

Álvaro Cunhal, «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», 1970.