Os sublinhados, fi-los, há já uns bons anos, e, ao aferir as minhas preocupações de então, de sempre, senti, obviamente, uma enorme tranquilidade. Assinalo-vos estes extractos para aguçar o vosso interesse por este opúsculo exemplar. Os princípios expostos permitem-nos desarmar qualquer agressor, afirmando assim “a superioridade moral” que é forçoso confirmar na prática.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Rogério Ribeiro, Álvaro Cunhal e a sua criação artística
Rogério
Ribeiro, Álvaro Cunhal e a sua criação artística

Intervenção de Rogério Ribeiro na
Conferência realizada na Biblioteca-Museu República e Resistência
Começo por vos pedir desculpa pelo atrevimento.
Aceitar o convite para vos falar de Álvaro Cunhal e a sua criação artística, ou seja das suas reflexões sobre arte, dos seus desenhos e da sua pintura, é uma tarefa que me excede. Com consciência das dificuldades, também vos peço que compreendam como era difícil escusar-me ao prazer, à alegria que esta pequena conversa me exigia. Voltar a aproximar-me dos seus textos, das memórias que o tempo foi guardando, de conversas rápidas que deixaram registo, constitui uma obrigação a gosto. É de algum modo evocá-lo, sentir-me vaidosamente como colega de ofício deste homem tão exigente consigo e tão simples, que marcou e que continuará marcando o tempo português como activo e influente protagonista.
São inúmeros os testemunhos de reconhecida admiração dos que com ele privaram ou daqueles a quem aconteceu um contacto de acaso, ou daqueles que partilhavam as ideias, as formas de luta, dos camaradas de Partido, ou mesmo dos adversários que lhe reconheciam a inteligência, a cultura e a invulgar coragem... Todas as memórias se registam em grandes e pequenos acontecimentos da vida, mas a mesma matriz de camaradagem solidária, ampla, sensível, determinada, confiante e impulsionadora. . . era constante em Álvaro Cunhal.
Acompanhei-o por duas vezes na apresentação do seu livro «A arte, o artista e a sociedade», em Santiago do Cacém e em Almada. Era comovente ver o seu entusiasmo quando propunha à plateia que ouvisse um pequeno trecho gravado. Uma voz feminina, cantando, elevava-se como uma lâmina aguda ganhando o silêncio da sala, numa breve melodia de rara beleza pela extensão e pela qualidade e timbre da voz. Depois perguntava, deixando um certo tempo para que a voz continuasse a ressoar no mais intimo do nosso coração. Sabem o que ouviram? Perguntava e respondia, não é uma diva em S. Carlos, é uma camponesa de Trás-os-Montes num canto de trabalho.
Esta comparação estimulante permitia o enlace do erudito e do popular, agarrava as forças criadoras do homem, exaltava a dignidade e explicava a capacidade de podermos ser simultaneamente intérpretes e espectadores da vida e permitia entender uma dimensão alargada da arte como força permanente indispensável e renovadora.
A procura de encontrar formas de transmitir o sentido do «belo» no seu valor intrínseco, constituindo um valor estético em si mesmo, era para Álvaro Cunhal uma linha, um forte motivo de reflexão. Considerava a obra de arte aberta à complexidade dos nossos sentimentos e motivações.
***
«O artista é um criador e o belo é em si mesmo um valor estético». Esta é uma afirmação simples, luminosa e bastante clara.
São inúmeros os exemplos dados nos seus textos que permitem afirmá-lo.
Por exemplo, comentando um quadro de EL Greco, «Uma vista de Toledo», onde o céu se abate dramático e anunciador duma violenta tempestade em azuis quase negros e cinzentos, comenta: «não nos transmite apenas a violência de uma tempestade natural, mas o pesadelo da inquisição». E acrescenta, «o significado social não precisa de ser explicitado para ser suficientemente expressivo».
Este «mover» entre o conteúdo e a forma, entre as vontades e os sonhos, entre o compromisso e a luta social expressas na arte, ao longo da sua história, continuando-se como questão central hoje, é também uma linha de reflexão que desde a sua juventude Álvaro Cunhal debate, analisa, discute.
Em 1939 (ano em que faz um desenho para a capa da primeira edição dos «Esteiros» de Soeiro Pereira Gomes ), numa polémica na Seara Nova em que se envolve com José Régio, autor da «Encruzilhada de Deus», e que Álvaro Cunhal intitulou «Numa Encruzilhada dos Homens» e depois, «Ainda na encruzilhada», o que estava em causa era fundamentalmente a relação da arte com a vida.
Para os «presencistas» a arte era um fim em si mesmo, a mais pura e sublime. Ela deveria ser a revelação íntima do seu autor, dos seus problemas, das suas cogitações, num universo pessoal e livre de problemas, das questões sociais ou outras que marcavam o tempo a acontecer como coisa exterior e fora do seu ambiente ou da motivação criativa.
Contrariava Álvaro Cunhal com toda a força da sua argumentação, que não estava «em causa o valor poético mas a atitude social, que através da poesia cantava e comunicava». O isolamento do poeta na sua torre de marfim, como então se dizia, e que não apoucava a arte, antes lhe dava novas e renovadas dimensões se à sua qualidade acrescentasse a participação e utilidade no quadro de vida que então se vivia. Não é necessário recordá-lo, os anos 40 são anos dramáticos, são invadidos pelo fascismo alemão lançado na guerra que incendiará a Europa, pela Espanha saída duma guerra civil, onde o fascismo de Franco impôs a lei da morte, pela Itália de Mussolini, pela nossa repressão interna, onde o polvo fascista alargava violentamente a sua acção repressiva.
É, no entanto, necessário deixar uma nota. Cunhal nesta polémica e mais tarde no livro das suas reflexões sobre a problemática artística, ressalva a importância do movimento da «Presença» na sua rotura com o passado academizante e contra a mediocridade existente na literatura portuguesa de então. Refere alguns autores com particular carinho o que sublinha o seu grande respeito, a sua argúcia e o natural envolvimento activo, critico, participante no mundo intelectual.
Entre outras, estas, julgo terem sido linhas mestras que motivaram a Álvaro Cunhal longas e debatidas reflexões sobre o exercício, o pensamento e a prática da arte, quer interrogando a sua função, a sua utilidade efectiva no plano global do indivíduo, a sua luta solidária, quer como elemento participante na modificação da sociedade movida por ideais de fraternidade, de justiça social e de liberdade.
***
Houve um sentimento profundo que atravessou o homem, um pouco por todo o mundo, um sentimento pleno e sensível onde se reflectiram e convergiram duma forma idêntica os desejos, os sonhos, as lutas, que de todos os continentes se anunciavam numa vontade que conquistou o canto e a voz de milhares e milhares de homens numa determinação de ganhar a paz necessária ao refazer do mundo.
É neste quadro que nasce, ou o que se encontrou como resposta a estas premissas um movimento denominado neo-realismo, que como o disse Álvaro Cunhal «está indissoluvelmente ligado à luta pela liberdade e à democracia, contra a ditadura fascista em Portugal.»
Dos poetas do «Novo Cancioneiro» dos quais dizia João Gaspar Simões, «é o facto de esses poetas terem decidido que a poesia deveria ser utilizada para determinados fins», motivo que os isola e caracteriza diferentemente dos da Presença para quem a poesia era uma actividade em si mesma.
Mas o movimento começa a conhecer os primeiros livros como o novo e importante romance «Gaibéus» de Alves Redol, e avança com uma vitalidade extraordinária que se estende à poesia, à música, ao teatro, ao cinema, às artes plásticas, a todas as actividades criadoras, tendo como vector comum não apenas o autor e o esforço pela qualidade do seu trabalho, como, e cito, «partir de uma visão da sociedade em que o interesse social e humano do artista o conduzia a tomar como objecto da criatividade não o seu eu, antes as classes trabalhadoras, nomeadamente o operariado, os camponeses, os pescadores».
O neo-realismo foi nestes anos o motor, o que deu a motivação, a unidade, a energia, e teve uma participação muito activa na vida do País, dando uma luta sem tréguas à censura, à pide, ao regime. Conta Álvaro Cunhal que um crítico do Diário de Noticias preocupado com o insucesso da literatura «oficial», comentava «entre nós é preciso dizer mal dos ricos para agradar aos leitores».
O que ressalta hoje, quando a memória ou estudos que começam de novo a surgir, ou um simples olhar sobre o quadro dos acontecimentos, era a forte solidariedade política. Os presos políticos enchiam as prisões por todo o mundo. Uma repressão sem lei varria de igual modo o mais pequeno sinal de indignação, o mínimo sinal de luta, odiava a inteligência, desprezava o conhecimento, queria calar o mais sussurrado grito pela liberdade
Mas não conseguiam...
Escritores, poetas, operários, camponeses, estudantes, homens e mulheres, como uma imensa mola disparavam para o futuro, mau grado as condições da repressão arbitrária, mau grado a censura, a violência, e a miséria. É neste barco que viaja uma grande e incontida esperança que os poetas cantam, que os músicos como que a anunciam, que os escritores denunciando-a abrem ao mundo, que os pintores descobrem uma outra natureza em si próprios... que uma grande onda de solidariedade invade o mundo.
***
Mas Álvaro Cunhal, para além das polémicas que marcaram de forma inquestionável o mundo intelectual de então, e que continuam como questão central no campo das ideias sobre a problemática artística, desenhava, escrevia, pintava. Creio que procurava por uma necessidade interior, quase vital, pela forma encantada com que se envolvia em conversas sobre estes temas, traduzir a sua forma de encarar a prática artística, participando, ensaiando, descobrindo pelos meios de que dispunha os caminhos do seu trabalho.
E aqui será necessário, mesmo sabendo que certamente o sabem, referir as condições em que os «Desenhos da Prisão» são realizados, e nada mais claro do que citar a nota anexa à edição de 1975: «Desenhos da Prisão» foram executados de 1951 a 1959, nas cadeias da penitenciária de Lisboa, onde Álvaro Cunhal passou sete anos de rigoroso isolamento, e do Forte de Peniche, de onde se evadiu em 3 de Janeiro de 1960. A sua publicação, pelas Edições Avante! em Dezembro de 1975, enquadra-se nas iniciativas de recolha de fundos para o Partido Comunista Português.
Estamos a falar dum conjunto de desenhos, não realizados em atelier, como uma sequência normal de trabalho numa perspectiva de desenvolvimento, mas dum homem a quem foi retirada a liberdade, numa prolongada prisão em condições inenarráveis, que quis encontrar, procurando no mais profundo da sua vontade, a capacidade de, na folha, como uma bandeira branca aberta na cela, implicar o lápis a abrir janelas sobre realidades vividas, inventadas, recriando-as com grande carinho e ternura.
É necessário olhar os desenhos neste contexto e adivinhar a multiplicidade de solicitações a que Álvaro Cunhal teria certamente que responder.
E ao olhá-los que sentimentos, que valores eles reflectem na simplicidade das linhas que os contornam, da tonalidade de claro escuro, da sombra que os invade para sublinhar a densidade e fazer ressaltar com mais evidência um rosto, um perfil, um plano, nas multidões que se deslocam ou brincam, ou fantasiam jogos, o que sentimos é um fazer lento, uma demora que procura a exigência, não o traço rápido corrido, espontâneo, mas a tentativa duma conquista global, serena e intensa. As figuras isoladas que nos olham, estão duma forma singular, diferentes de outros desenhos, estáticas, como se eternas numa expressão de dádiva, duma ternura firme, parecem em diálogo com o autor. Tão eloquentes como a camponesa do canto em Trás-os-Montes.
É durante estes anos que escreve «Até Amanhã, Camaradas» que leva como um tesouro quando da fuga de Peniche, e ocorre-me de quão grande é o valor que o próprio autor atribui ao seu manuscrito ganhando foros de coisa essencial, como Camões salva os Lusíadas do mar, importa ressaltar a consciência da importância dum trabalho irrepetível que o próprio autor já lhe reconhece. E felizmente agora todos o podemos reconhecer como um ícone da nossa literatura, como peça essencial para a compreensão duma luta, mas revelando pela solidez das histórias, pelo fundo humano, pelo conhecimento sensível e profundo da realidade narrada, pela movimentação dos conflitos, pela diversidade da natureza humana, que dá aos seus livros uma qualidade literária, um calor e uma humanidade rara.
De regresso a Lisboa, depois da apresentação em Berlim da exposição comemorativa dos 60 anos do Partido (naturalmente na RDA), por amabilidade, Sérgio Vilarigues deu-me o lugar ao lado de Álvaro Cunhal, dizendo: «aproveitem para falar de pintura que eu tenho sono». E foi o que aconteceu. Dessa magnífica conversa de quatro horas, queria ressaltar, pela forma tão empenhada e comovente, como o fez, o comentário ao quadro de Rembrandt «O regresso do filho pródigo» que no essencial se encontra no livro sobre Arte, e por isso o citaria : «. . . é uma obra notável,... mas o mais exaltante é o valor estético da mensagem humanista... do que conheceu a solidão e o abandono que tem naqueles pés nus superiormente pintados a marca dessa longa caminhada, dessa longa experiência e que regressa, carente de protecção, de carinho e de amor.»
A pintura de Cunhal, procura a representação do drama, das margens entre o sofrimento e o amor tal como ele a descreve na apreciação de outras obras como por exemplo a de Rembrandt. Creio que é inevitável, quando um pintor olha um quadro e fala dele, fala sempre também um pouco de si próprio.
***
E uma última nota que toca os problemas com que arte se debate hoje, e que no seu livro Álvaro Cunhal se lhes refere com particular sensibilidade.
«Pouco conseguida é uma obra de arte que só com a explicação acaba por ser reconhecida como tal» e ainda «mais importante do que aquilo que o artista quis fazer é aquilo que realmente fez».
Para quem acompanhe a crítica, nos jornais, nas revistas, na rádio ou na televisão, mesmo escassa como é, certamente encontra sentido nestas observações pertinentes de Álvaro Cunhal.
Nunca se assistiu da parte dos artistas a uma tão cabal explicação das motivações, do momento inspirador, da infância que sempre houve, das razões directas ou indirectas, do que quis dizer mas que conseguiu evitar, como nos últimos anos em que os poleiros estão cheios de boas razões e boas casas para se sentirem afirmados.
Ou muito me engano ou estamos perante outra «Encruzilhada dos homens» que foi motivo da polémica entre Cunhal e Régio.
E terminava citando Álvaro Cunhal, cujo pensamento felizmente se encontra mais que escrito, registado em inúmeras publicações, dando-nos a possibilidade de rever e encontrar neste saber de experiência que praticou, motivações e estímulos seguros para continuar a procura do belo e do sentido da arte no mundo do homem.
E a citação é sobre Picasso:
«Picasso é um caso extraordinário de insatisfação e de busca incessante, de rebeldia e revolta, de destruição e superação autofágica, de instabilidade, de negação do que está para trás, da necessidade do novo e do inesperado.»
Obrigado.
1930-2008

Começo por vos pedir desculpa pelo atrevimento.
Aceitar o convite para vos falar de Álvaro Cunhal e a sua criação artística, ou seja das suas reflexões sobre arte, dos seus desenhos e da sua pintura, é uma tarefa que me excede. Com consciência das dificuldades, também vos peço que compreendam como era difícil escusar-me ao prazer, à alegria que esta pequena conversa me exigia. Voltar a aproximar-me dos seus textos, das memórias que o tempo foi guardando, de conversas rápidas que deixaram registo, constitui uma obrigação a gosto. É de algum modo evocá-lo, sentir-me vaidosamente como colega de ofício deste homem tão exigente consigo e tão simples, que marcou e que continuará marcando o tempo português como activo e influente protagonista.
São inúmeros os testemunhos de reconhecida admiração dos que com ele privaram ou daqueles a quem aconteceu um contacto de acaso, ou daqueles que partilhavam as ideias, as formas de luta, dos camaradas de Partido, ou mesmo dos adversários que lhe reconheciam a inteligência, a cultura e a invulgar coragem... Todas as memórias se registam em grandes e pequenos acontecimentos da vida, mas a mesma matriz de camaradagem solidária, ampla, sensível, determinada, confiante e impulsionadora. . . era constante em Álvaro Cunhal.
Acompanhei-o por duas vezes na apresentação do seu livro «A arte, o artista e a sociedade», em Santiago do Cacém e em Almada. Era comovente ver o seu entusiasmo quando propunha à plateia que ouvisse um pequeno trecho gravado. Uma voz feminina, cantando, elevava-se como uma lâmina aguda ganhando o silêncio da sala, numa breve melodia de rara beleza pela extensão e pela qualidade e timbre da voz. Depois perguntava, deixando um certo tempo para que a voz continuasse a ressoar no mais intimo do nosso coração. Sabem o que ouviram? Perguntava e respondia, não é uma diva em S. Carlos, é uma camponesa de Trás-os-Montes num canto de trabalho.
Esta comparação estimulante permitia o enlace do erudito e do popular, agarrava as forças criadoras do homem, exaltava a dignidade e explicava a capacidade de podermos ser simultaneamente intérpretes e espectadores da vida e permitia entender uma dimensão alargada da arte como força permanente indispensável e renovadora.
A procura de encontrar formas de transmitir o sentido do «belo» no seu valor intrínseco, constituindo um valor estético em si mesmo, era para Álvaro Cunhal uma linha, um forte motivo de reflexão. Considerava a obra de arte aberta à complexidade dos nossos sentimentos e motivações.
«O artista é um criador e o belo é em si mesmo um valor estético». Esta é uma afirmação simples, luminosa e bastante clara.
São inúmeros os exemplos dados nos seus textos que permitem afirmá-lo.
Por exemplo, comentando um quadro de EL Greco, «Uma vista de Toledo», onde o céu se abate dramático e anunciador duma violenta tempestade em azuis quase negros e cinzentos, comenta: «não nos transmite apenas a violência de uma tempestade natural, mas o pesadelo da inquisição». E acrescenta, «o significado social não precisa de ser explicitado para ser suficientemente expressivo».
Este «mover» entre o conteúdo e a forma, entre as vontades e os sonhos, entre o compromisso e a luta social expressas na arte, ao longo da sua história, continuando-se como questão central hoje, é também uma linha de reflexão que desde a sua juventude Álvaro Cunhal debate, analisa, discute.
Em 1939 (ano em que faz um desenho para a capa da primeira edição dos «Esteiros» de Soeiro Pereira Gomes ), numa polémica na Seara Nova em que se envolve com José Régio, autor da «Encruzilhada de Deus», e que Álvaro Cunhal intitulou «Numa Encruzilhada dos Homens» e depois, «Ainda na encruzilhada», o que estava em causa era fundamentalmente a relação da arte com a vida.
Para os «presencistas» a arte era um fim em si mesmo, a mais pura e sublime. Ela deveria ser a revelação íntima do seu autor, dos seus problemas, das suas cogitações, num universo pessoal e livre de problemas, das questões sociais ou outras que marcavam o tempo a acontecer como coisa exterior e fora do seu ambiente ou da motivação criativa.
Contrariava Álvaro Cunhal com toda a força da sua argumentação, que não estava «em causa o valor poético mas a atitude social, que através da poesia cantava e comunicava». O isolamento do poeta na sua torre de marfim, como então se dizia, e que não apoucava a arte, antes lhe dava novas e renovadas dimensões se à sua qualidade acrescentasse a participação e utilidade no quadro de vida que então se vivia. Não é necessário recordá-lo, os anos 40 são anos dramáticos, são invadidos pelo fascismo alemão lançado na guerra que incendiará a Europa, pela Espanha saída duma guerra civil, onde o fascismo de Franco impôs a lei da morte, pela Itália de Mussolini, pela nossa repressão interna, onde o polvo fascista alargava violentamente a sua acção repressiva.
É, no entanto, necessário deixar uma nota. Cunhal nesta polémica e mais tarde no livro das suas reflexões sobre a problemática artística, ressalva a importância do movimento da «Presença» na sua rotura com o passado academizante e contra a mediocridade existente na literatura portuguesa de então. Refere alguns autores com particular carinho o que sublinha o seu grande respeito, a sua argúcia e o natural envolvimento activo, critico, participante no mundo intelectual.
Entre outras, estas, julgo terem sido linhas mestras que motivaram a Álvaro Cunhal longas e debatidas reflexões sobre o exercício, o pensamento e a prática da arte, quer interrogando a sua função, a sua utilidade efectiva no plano global do indivíduo, a sua luta solidária, quer como elemento participante na modificação da sociedade movida por ideais de fraternidade, de justiça social e de liberdade.
Houve um sentimento profundo que atravessou o homem, um pouco por todo o mundo, um sentimento pleno e sensível onde se reflectiram e convergiram duma forma idêntica os desejos, os sonhos, as lutas, que de todos os continentes se anunciavam numa vontade que conquistou o canto e a voz de milhares e milhares de homens numa determinação de ganhar a paz necessária ao refazer do mundo.
É neste quadro que nasce, ou o que se encontrou como resposta a estas premissas um movimento denominado neo-realismo, que como o disse Álvaro Cunhal «está indissoluvelmente ligado à luta pela liberdade e à democracia, contra a ditadura fascista em Portugal.»
Dos poetas do «Novo Cancioneiro» dos quais dizia João Gaspar Simões, «é o facto de esses poetas terem decidido que a poesia deveria ser utilizada para determinados fins», motivo que os isola e caracteriza diferentemente dos da Presença para quem a poesia era uma actividade em si mesma.
Mas o movimento começa a conhecer os primeiros livros como o novo e importante romance «Gaibéus» de Alves Redol, e avança com uma vitalidade extraordinária que se estende à poesia, à música, ao teatro, ao cinema, às artes plásticas, a todas as actividades criadoras, tendo como vector comum não apenas o autor e o esforço pela qualidade do seu trabalho, como, e cito, «partir de uma visão da sociedade em que o interesse social e humano do artista o conduzia a tomar como objecto da criatividade não o seu eu, antes as classes trabalhadoras, nomeadamente o operariado, os camponeses, os pescadores».
O neo-realismo foi nestes anos o motor, o que deu a motivação, a unidade, a energia, e teve uma participação muito activa na vida do País, dando uma luta sem tréguas à censura, à pide, ao regime. Conta Álvaro Cunhal que um crítico do Diário de Noticias preocupado com o insucesso da literatura «oficial», comentava «entre nós é preciso dizer mal dos ricos para agradar aos leitores».
O que ressalta hoje, quando a memória ou estudos que começam de novo a surgir, ou um simples olhar sobre o quadro dos acontecimentos, era a forte solidariedade política. Os presos políticos enchiam as prisões por todo o mundo. Uma repressão sem lei varria de igual modo o mais pequeno sinal de indignação, o mínimo sinal de luta, odiava a inteligência, desprezava o conhecimento, queria calar o mais sussurrado grito pela liberdade
Mas não conseguiam...
Escritores, poetas, operários, camponeses, estudantes, homens e mulheres, como uma imensa mola disparavam para o futuro, mau grado as condições da repressão arbitrária, mau grado a censura, a violência, e a miséria. É neste barco que viaja uma grande e incontida esperança que os poetas cantam, que os músicos como que a anunciam, que os escritores denunciando-a abrem ao mundo, que os pintores descobrem uma outra natureza em si próprios... que uma grande onda de solidariedade invade o mundo.
Mas Álvaro Cunhal, para além das polémicas que marcaram de forma inquestionável o mundo intelectual de então, e que continuam como questão central no campo das ideias sobre a problemática artística, desenhava, escrevia, pintava. Creio que procurava por uma necessidade interior, quase vital, pela forma encantada com que se envolvia em conversas sobre estes temas, traduzir a sua forma de encarar a prática artística, participando, ensaiando, descobrindo pelos meios de que dispunha os caminhos do seu trabalho.
E aqui será necessário, mesmo sabendo que certamente o sabem, referir as condições em que os «Desenhos da Prisão» são realizados, e nada mais claro do que citar a nota anexa à edição de 1975: «Desenhos da Prisão» foram executados de 1951 a 1959, nas cadeias da penitenciária de Lisboa, onde Álvaro Cunhal passou sete anos de rigoroso isolamento, e do Forte de Peniche, de onde se evadiu em 3 de Janeiro de 1960. A sua publicação, pelas Edições Avante! em Dezembro de 1975, enquadra-se nas iniciativas de recolha de fundos para o Partido Comunista Português.
Estamos a falar dum conjunto de desenhos, não realizados em atelier, como uma sequência normal de trabalho numa perspectiva de desenvolvimento, mas dum homem a quem foi retirada a liberdade, numa prolongada prisão em condições inenarráveis, que quis encontrar, procurando no mais profundo da sua vontade, a capacidade de, na folha, como uma bandeira branca aberta na cela, implicar o lápis a abrir janelas sobre realidades vividas, inventadas, recriando-as com grande carinho e ternura.
É necessário olhar os desenhos neste contexto e adivinhar a multiplicidade de solicitações a que Álvaro Cunhal teria certamente que responder.
E ao olhá-los que sentimentos, que valores eles reflectem na simplicidade das linhas que os contornam, da tonalidade de claro escuro, da sombra que os invade para sublinhar a densidade e fazer ressaltar com mais evidência um rosto, um perfil, um plano, nas multidões que se deslocam ou brincam, ou fantasiam jogos, o que sentimos é um fazer lento, uma demora que procura a exigência, não o traço rápido corrido, espontâneo, mas a tentativa duma conquista global, serena e intensa. As figuras isoladas que nos olham, estão duma forma singular, diferentes de outros desenhos, estáticas, como se eternas numa expressão de dádiva, duma ternura firme, parecem em diálogo com o autor. Tão eloquentes como a camponesa do canto em Trás-os-Montes.
É durante estes anos que escreve «Até Amanhã, Camaradas» que leva como um tesouro quando da fuga de Peniche, e ocorre-me de quão grande é o valor que o próprio autor atribui ao seu manuscrito ganhando foros de coisa essencial, como Camões salva os Lusíadas do mar, importa ressaltar a consciência da importância dum trabalho irrepetível que o próprio autor já lhe reconhece. E felizmente agora todos o podemos reconhecer como um ícone da nossa literatura, como peça essencial para a compreensão duma luta, mas revelando pela solidez das histórias, pelo fundo humano, pelo conhecimento sensível e profundo da realidade narrada, pela movimentação dos conflitos, pela diversidade da natureza humana, que dá aos seus livros uma qualidade literária, um calor e uma humanidade rara.
De regresso a Lisboa, depois da apresentação em Berlim da exposição comemorativa dos 60 anos do Partido (naturalmente na RDA), por amabilidade, Sérgio Vilarigues deu-me o lugar ao lado de Álvaro Cunhal, dizendo: «aproveitem para falar de pintura que eu tenho sono». E foi o que aconteceu. Dessa magnífica conversa de quatro horas, queria ressaltar, pela forma tão empenhada e comovente, como o fez, o comentário ao quadro de Rembrandt «O regresso do filho pródigo» que no essencial se encontra no livro sobre Arte, e por isso o citaria : «. . . é uma obra notável,... mas o mais exaltante é o valor estético da mensagem humanista... do que conheceu a solidão e o abandono que tem naqueles pés nus superiormente pintados a marca dessa longa caminhada, dessa longa experiência e que regressa, carente de protecção, de carinho e de amor.»
A pintura de Cunhal, procura a representação do drama, das margens entre o sofrimento e o amor tal como ele a descreve na apreciação de outras obras como por exemplo a de Rembrandt. Creio que é inevitável, quando um pintor olha um quadro e fala dele, fala sempre também um pouco de si próprio.
E uma última nota que toca os problemas com que arte se debate hoje, e que no seu livro Álvaro Cunhal se lhes refere com particular sensibilidade.
«Pouco conseguida é uma obra de arte que só com a explicação acaba por ser reconhecida como tal» e ainda «mais importante do que aquilo que o artista quis fazer é aquilo que realmente fez».
Para quem acompanhe a crítica, nos jornais, nas revistas, na rádio ou na televisão, mesmo escassa como é, certamente encontra sentido nestas observações pertinentes de Álvaro Cunhal.
Nunca se assistiu da parte dos artistas a uma tão cabal explicação das motivações, do momento inspirador, da infância que sempre houve, das razões directas ou indirectas, do que quis dizer mas que conseguiu evitar, como nos últimos anos em que os poleiros estão cheios de boas razões e boas casas para se sentirem afirmados.
Ou muito me engano ou estamos perante outra «Encruzilhada dos homens» que foi motivo da polémica entre Cunhal e Régio.
E terminava citando Álvaro Cunhal, cujo pensamento felizmente se encontra mais que escrito, registado em inúmeras publicações, dando-nos a possibilidade de rever e encontrar neste saber de experiência que praticou, motivações e estímulos seguros para continuar a procura do belo e do sentido da arte no mundo do homem.
E a citação é sobre Picasso:
«Picasso é um caso extraordinário de insatisfação e de busca incessante, de rebeldia e revolta, de destruição e superação autofágica, de instabilidade, de negação do que está para trás, da necessidade do novo e do inesperado.»
Obrigado.
1930-2008
domingo, 20 de janeiro de 2013
Na sessão pública de abertura...
... Fausto Neves tocou esta peça (e fez um pequena e didáctica introdução)
de Fernando Lopes Graça, dedicada a Álvaro Cunhal nos 80 anos deste.
Foi muito bonito (e ainda terminou a sua intervenção com uma peça de Debussy, lembrando que Debussy era filho de um "communard", um homem da Comuna de Paris, de 1870)!
de Fernando Lopes Graça, dedicada a Álvaro Cunhal nos 80 anos deste.
Foi muito bonito (e ainda terminou a sua intervenção com uma peça de Debussy, lembrando que Debussy era filho de um "communard", um homem da Comuna de Paris, de 1870)!
A sessão pública de abertura...
... foi, para usar um expressão adequada, um acontecimento político e cultural.
Da intervenção de Jerónimo de Sousa, que merece ser toda lida e reflectida, retira-se este trecho:
Da intervenção de Jerónimo de Sousa, que merece ser toda lida e reflectida, retira-se este trecho:
« ... Álvaro Cunhal, não é apenas fonte de inspiração, de ensinamento, de exemplo que
nos mobiliza e referencial teórico para os combates que hão-de vir, é mais do
que isso, é um combatente que nos acompanha com a sua opinião e análise muito
concretas de resposta a problemas reais do nosso país e do nosso povo e no
rasgar de novos horizontes para Portugal, hoje tão necessários para libertar o
país do rumo para o declínio e de uma vergonhosa sujeição e dependência a que a
política de direita, de recuperação capitalista e latifundista, conduziu e
continua a conduzir o país.
As comemorações que agora se abrem não visam promover qualquer culto da
personalidade. Culto que Álvaro Cunhal sempre combateu e ao qual dedicou em o
“Partido com Paredes de Vidro” avisadas palavras quer sobre o fenómeno da
deificação dos vivos, mas igualmente dos mortos e em relação aos quais, a
prestação de uma justa homenagem jamais se poderia traduzir numa
“desencorajadora subestimação do papel dos vivos” da sua luta e acção, aos quais
cumpre, como afirmava, com a sua “investigação, a análise e o espírito
criativo, o estudo e a interpretação dos novos fenómenos” que o devir da
sociedade sempre coloca.
Uma homenagem, portanto, não para incensar e endeusar – utilizando as suas
próprias palavras –, mas de reconhecimento do seu valor e para aprender com os
seus ensinamentos, o seu exemplo e que neste momento de mistificação e
generalizações grosseiras, pode e deve servir também para demonstrar que a política é uma actividade nobre e imprescindível na vida dos homens.
Uma homenagem que é indissociável da identificação de Álvaro Cunhal com o PCP
e o seu projecto. Temos afirmado que Álvaro Cunhal não era o que foi sem o PCP e
o PCP não seria o que é, com as suas características, sem o contributo de Álvaro
Cunhal.(...)».
No muito amplo salão da Faculdade de Medicina Dentária, verdadeiramente a "deitar por fora", teve lugar uma variada parte cultural - com Fausto Neves a tocar três peças de piano, com a Banda de Almada, com leitura de poemas, os Mineiros de Aljustrel, actuação do "Coro de Lopes Graça" e a participação da JCP - a servir de pano de fundo e de ligação para as intervenções, a já referida de Jerónimo de Sousa, de José Capucho e em nome da JCP.
Foi uma sessão de abertura digna, animada e, até, empolgante, correspondendo aos objectivos desta assinalação do centenário de Álvaro Cunhal. De luta e esperança, de cultura e convívio. Porque também houve tempo e espaço para rever amigos e camaradas, para conviver e marcar encontros para as próximas oportunidades, entre outras as ligadas ao centenário de Álvaro Cunhal. Todas mobilizadoras e de luta.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Álvaro Cunhal, na Marinha Grande, em 18 de Janeiro de 1975
Na sequência da mensagem anterior, neste trabalho de equipa e para que fique registo, aqui vai:
«Marinha Grande é um nome escrito a ouro na
história do movimento operário português. Melhor se pode dizer: escrito com
lágrimas e sangue.
Porque a luta dos trabalhadores da Marinha Grande
ao longo de 50 anos de fascismo foi paga com pesadas perdas, com perseguições,
torturas, prisões, com o assassínio e a deportação de muitos dos seus melhores
filhos, com séculos passados nas masmorras fascistas por muitos anos, com
privações e sacrifícios silenciosos e anónimos das famílias dos militantes,
educadas na mesma escola de elevada consciência de classe e incansável
combatividade.
As tradições de luta do proletariado da Marinha
Grande são inseparáveis da actividade dos comunistas. A classe forjou a sua
vanguarda revolucionária – a vanguarda revolucionária (os comunistas) soube
estar à altura da classe.
Marinha Grande pode orgulhar-se de muitos
combatentes de vanguarda que tem dado ao movimento operário. Pode orgulhar-se
dos seus mártires e dos seus heróis. E a vinda para a sua terra natal, hoje,
nesta data, dos restos mortais de um militante comunista que deu toda a sua vida
à luta pela liberdade da classe operária e do povo português – o camarada José
Gregório – é, ao lado de outros nomes gloriosos, um símbolo das qualidades e
tradições do proletariado da Marinha Grande e do papel da sua vanguarda
revolucionária – o Partido Comunista Português.»
(Do discurso de Álvaro Cunhal no
comício do PCP,
a 18 de Janeiro de 1975,
na Marinha Grande,
na Marinha Grande,
no 18 de Janeiro em liberdade)
Álvaro Cunhal e o 18 de Janeiro
Dávamos ainda os primeiros passos de Abril...
Em 1975 o povo da Marinha Grande homenageou, pela primeira vez em liberdade, os seus heróis do 18 de Janeiro de 1934.
Álvaro Cunhal não faltou!
São conhecidos, por publicados em edições avante!, os desenhos da prisão, de Álvaro Cunhal. Aqui se trarão alguns desses desenhos. Mas esses dois álbuns estão muito longe de esgotar tudo o que Álvaro Cunhal nos deixou como legado da sua enorme sensibilidade traduzida em traços que são também provas da sua arte.
Álvaro Cunhal fez a capa e ilustrou a primeira edição de Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes (Edições "Sirius", de 1941), que depois abriu a edição de Obras Completas deste autor, editadas em 1979, com capa, ilustrações e arranjo gráfico de Rogério Ribeiro. Uma "preciosidade" editorial a assinalar o 70º aniversário do nascimento de Soeiro Pereira Gomes e o 30º aniversário da sua morte.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Para que não restem dúvidas
A história, por dever de gratidão, retém no seu crivo os indivíduos “que por obras valorosas” continuam referência, vivendo na lembrança colectiva. Acontece porém que a história, escrita pelas classes que detêm o poder, relegam para o esquecimento, assassinam historicamente todos os que com elas não se identificam social e ideologicamente. E este rasurar da história processa-se pelos mais ínvios e dissimulados caminhos. No «Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa», editado em 2001, todas as siglas partidárias, das mais recentes aos grupelhos sem expressão e já desaparecidos, estão contempladas neste instrumento de consulta, só as siglas “PC e PCP” com nove décadas de existência foram “esquecidas”. Um lapso que cumprirá a sua missão enquanto o dicionário existir.
Compete-nos, é um dever que a história nos impõe, imperativo de classe, marcar a importância dos que entre nós se destacaram na luta pela dignificação dos que vendem a sua força de trabalho e com quais lutaram para que fôssemos livres. Ao amputarem a história dos feitos e valores daqueles que se distinguiram na luta pela construção de uma sociedade justa, coarctam-nos as raízes, enfraquecem-nos a confiança e a nossa caminhada, titubeante, perde vigor. Assim sendo, atentos, não podemos esquecer os que dedicaram toda a sua existência, dignificando-a ao abraçar a luta de todos os oprimidos. Desta postura não resulta o culto de personalidade, mas o dever de colocar no devido lugar histórico os que connosco como classe se ergueram e que a história não pode nem deve esquecer. Não nos podemos permitir que sejam os opressores a fazerem a triagem de quem ou não deve ficar para a posteridade.
2013 é, será, o ano em que seremos nós a escrever a nossa própria história, sem o tal ‘culto de personalidade’ com que capciososamente há quem espalhe um fumo de despeito para ofuscar a limpidez do nosso propósito.
Ao assinalar o ‘Centenário de Álvaro Cunhal’ por decisão do Comité Central do PCP, o Partido reforçou o seu grau de responsabilidade e a sua decisão é, inequivocamente, o sentir de todos os militantes comunistas e de muitas mulheres e homens que desde sempre nos têm acompanhado. Não temos a pretensão de enaltecer a figura de Álvaro Cunhal, trabalho quão difícil como desnecessário. Desejamos que este ano em que assinalamos o ‘Centenário de Álvaro Cunhal’ e em que também nos envolveremos, não pretende desenvolver o culto só pelo militante comunista mas afirmar a validade da sua existência como ser humano a elevado grau.
A personalidade deste dirigente comunista vai muito para além dos seus camaradas e das nossas fronteiras; os seus feitos e obra são o nosso sentir.
Dedicar este ano a Álvaro Cunhal é a melhor e mais sentida homenagem que podemos fazer ao nosso povo trabalhador.
Excertos de uma entrevista-testemunho sobre o homem Álvaro Cunhal
Extractos da entrevista de Maria Eugénia Cunhal à Voz do Operário (Ana Goulart), em Janeiro 2013.
... Quando Eugénia Cunhal nasceu, o irmão, Álvaro, era já um jovem de 14 anos. A diferença de idade não impediu que entre os dois se estabelecesse uma amizade profunda, consolidada com afecto, ternura, cumplicidade e camaradagem.
... Eugénia Cunhal, a mais nova dos quatro filhos de Avelino Cunhal e Mercedes Barreirinhas, assume o orgulho de ser "a irmã do Álvaro".
A ideia de um Álvaro Cunhal austero, até um pouco frio, corresponde à verdade?
Não. Era muitíssimo disciplinado, mas não era nada austero, nem nada frio. Era uma pessoa extremamente ternurenta, extremamente afetiva e afetiva com ternura. Gostava de fazer festas, de abraçar, de dar beijinhos. O Álvaro tinha uma expressão que à vista dos outros poderia parecer de uma pessoa um pouco distante, não sei. Porém, não era assim. Era uma pessoa extremamente terna.
(...)
Tinha noção da dimensão e importância da atividade política do seu irmão?
Quando era muita novinha talvez não tivesse...
Lembro-me da primeira vez que fui ao Aljube vê-lo. Foi horrível vê-lo do outro lado das grades, muito magro, muito pálido, com o cabelo cortado muito curto...
(...)
Álvaro Cunhal era uma personalidade multifacetada. Político, sem dúvida, mas também escritor, artista plástico, intelectual, enfim, um homem de cultura. Há alguma influência familiar nesta riqueza e dimensão humana de Álvaro Cunhal?
O meu pai era escritor e pintor, além de advogado e professor. O Álvaro só quando estava preso é que pintava... O meu pai também pintava muito, levava-nos a museus e em casa falava-se muito de arte. Mas claro que se o Álvaro não tivesse talento ficava apreciador, mas não criador, não criativo.
A vossa não era o que se pode designar por "família operária", no entanto, Álvaro Cunhal dedicou toda a sua vida à causa do proletariado...
... o Álvaro dizia que era filho adoptivo do proletariado. Isto é algo que o Álvaro disse muitas vezes.
(...)
Os indispensáveis contributos de Álvaro Cunhal para a liberdade, a paz, a democracia geraram a admiração de muitos homens e mulheres e, muito em particular, dos seus camaradas de partido. Álvaro Cunhal é uma personalidade incontornável da História de Portugal que sempre recusou o culto da personalidade.
Completamente. O Álvaro era uma pessoa humilde, uma pessoa simples que pensava sempre em termos de coletivo. O Álvaro sabia que sozinho não conseguiria fazer muito e o que tinha valor era o coletivo do partido. Álvaro era essencialmente um militante do PCP, embora tivesse responsabilidades. Não tinha uma pontinha de vaidade, nem mesmo uma apreciação demasiada dele próprio.
(...)
O exemplo do Álvaro foi muito importante, porém, foi um exemplo fundamentalmente humano porque quando era miúda ouvia a palavra "comunistas" sem lhe perceber o sentido e foi essa capacidade humana de se interessar pelas pessoas, de ajuda, de amor aos outros que me marcou profundamente.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
De vez em quando um desenho
Foi lançado, pelos CTT, um selo (250 mil exemplares) e um bloco filatélico(70 mil exemplares), de homenagem ao político Álvaro Cunhal, comemorando a data de nascimento do mesmo.
O desenho do selo é da responsabilidade, do autor da face nacional das moedas de euro, Vítor Santos.
(É com esta "notícia" que pretendemos abrir aqui um espaço para os Desenhos de Álvaro Cunhal)
Um novo “tacho” – Alô, alô, experiência...
Tenho um novo “tacho”! Fui contratado para escrever e fazer parte da equipa de um novo blog colectivo... por um ano.
Enquanto processo o orgulho e prazer proporcionados pelo convite, este primeiro post é o equivalente ao clássico “alô, alô, experiência... isto está ligado?”, seguido das duas ou três pancadinhas no microfone com que alguns artistas menos dados às coisas da técnica presenteiam (e enlouquecem) os técnicos de som.
Para além do blog (este blog), vou estar ligado a um grande projecto regional, cobrindo o Alentejo, centrado no fenómeno da Reforma Agrária, um dos “amores” de Álvaro Cunhal... projecto multifacetado de que irei dando novidades e que me fará entrar em ensaios e estúdio dentro de muito poucos dias, acompanhado por um belo grupo de pessoas.
A característica (que se pretende uma das mais importantes) de todas as realizações que venham a acontecer durante este ano, é o seu carácter aberto a todas e todos, independentemente das suas filiações partidárias.
Conto com a vossa visita e leitura!
Um abraço colectivo,
Samuel
Abertura de novos espaços neste espaço
Como contributo sequente ao anúncio da edição deste blog, um visitante fez-nos chegar, por email e com sugestão de inclusão, 5 anexos retirados de Obras escolhidas de Álvaro Cunhal, edições avante!, tomo II, sobre O desvio de direita nos anos 1956-1959 (Elementos de estudo).
Dada a extensão de cada um dos anexos e tratar-se de elementos de estudo, de grande actualidade político-ideológica, decidiu-se editá-los como "Citações", correspondendo assim a criar mais um local onde estão à disposição para consulta e estudo. Nestes primeiros passos do blog, julgamos ser a forma adequada de agradecer o contributo e de estimular a que outros se venham juntar.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Rumo à Vitória - extracto
Propagar slogans que adormeçam as vontades ou obscureçam horizontes aos trabalhadores em períodos socialmente agitados, tem sido e continua a ser uma arma usada desde há muito e ainda hoje eficaz. Ao realçar a nossa pequenez económica e geográfica, os ideólogos e os governantes-instrumentos do neoliberalismo reinante, procuram refrear as lutas que travamos e que é forçoso acelerar.
Este importante documento que li e distribui em 1965 veio-nos abrir horizontes “Rumo à Vitória”.
Quase meio século passado é possível aferir a justeza da análise e colher ensinamentos para as lutas que travamos.
«Há hoje, em Portugal, nas colónias e no estrangeiro quem diga: “Quando Angola ou Moçambique conquistarem a independência, a luta do povo português contra a ditadura fascista será extraordinariamente facilitada”. Esta forma de pôr o problema não é correcta. Faz lembrar essa outra que ouvimos durante anos: “Quando Franco cair, será mais fácil fazer cair Salazar”, sem se admitir, como se pode admitir, que a queda das ditaduras se dê pela ordem inversa. Que elementos permitem afirmar que a luta dos povos coloniais alcançará o seu objectivo da independência, antes que o povo português conquiste a democracia? Quando tais ideais partem de portugueses, elas representam uma posição comodista, de quem pretende que os outros façam o que lhe cabe a si fazer. Nós trabalhamos para libertar Portugal da ditadura fascista e não poupamos esforços para que seja no mais curto espaço de tempo. Depende de factores de ordem interna e internacional que seja o povo português ou sejam os povos coloniais a libertar-se primeiro. É prematuro afirmar-se quem o conseguirá. O que se pode afirmar é que a libertação de Angola, Moçambique e Guiné, a dar-se antes do derrubamento do fascismo, será um golpe a que o regime de Salazar dificilmente poderá sobreviver. Assim, também a conquista da Democracia pelo povo português, a dar-se antes, tornará inevitável, a muito curto prazo, a independência nacional dos povos das colónias portuguesas, condição da conquista da verdadeira independência de Portugal.»
sábado, 12 de janeiro de 2013
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