«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Um Problema de Consciência


 Álvaro Cunhal
Um Problema de Consciência
[1939]

O exterior parece terrivelmente inimigo. Como se nas ruas passassem funerais. Como se nos roubassem a família, os amigos e quedássemos sós e desamparados.
A tragédia intensa do presente emprenha a visão do futuro de sombrias expectativas. Afigura-se a muitos que no futuro haverá sempre rostos empalidecidos e cheiro a pólvora e a sangue quente. Ontem parecia que o dia de hoje havia de ser risonho e acolhedor. E agora, agora, que grande serenidade para poder crer no dia de amanhã!
Quando a vida é incerta e baila ante os homens a perspectiva da morte, inunda-os uma ansiedade traduzível assim: «irei tão cedo deixar de ser
um grito desesperado de momento pode afirmar que esta vida não vale ser vivida. Quando se marcha em direcção ao espectro, mesmo que os passos sejam voluntariosos e firmes, o bater do coração compassa a ansiedade. O futuro é negro: mas na própria negrura nãoausência de luz.
Por isso, ante os perigos, a expectativa traduz-se: «irei tão cedo deixar de ser E, quanto mais desalentadora é a visão do mundo que fica, quanto mais fundo é o remorso de pouco se ter feito para deixar aos filhos mais valiosa herança, mais dura e brutal aparece a visão da morte.
A admissão da estabilidade de um mundo a que se não podem mostrar os corações, força a lançar rápido e iluminado olhar ao tempo em que se esperou, em que os ora desalentados ainda tinham no que hoje não é presente e então parecia vir a ser futuro. Uma derrota profunda e dorida leva muitos a pensar que haverá sempre e derrotas. Ver morrer os outros vencidos; talvez também morrer vencido. No vasto mundo muitas vezes se apagam vidas, ao procurarem derrubar velhos e endurecidos troncos. E há sempre quem represente o papel de irmão desalentado: «Para quê viver? Coisas que sempre foram e hão-de ser... O homem vive encadeado a leis irresistíveis. Inúteis os sacrifícios dos que procuram modificar os seus ditames». Como se os homens não pudessem construir a sua própria história. Como se as leis da evolução das sociedades não reservassem lugar à vontade humana.
Horas de dor, de sofrimento, de tragédia. Horas em que a expectativa da morte baila com insistência ante os olhos.
Então o homem sente necessidade de justificar a sua própria existência. Há que dar uma resposta às perguntas: «que andei e que ando por a fazer? Que tenho feito pelos outros e pela história
O homem teme deixar de ser na terra. Um sono sem despertar choca violentamente contra a estrutural vontade de viver. O ser recusa-se a aceitar o próprio desaparecimento. O apagamento total e sem apelo é incompatível com a existência actual.
Por isso, aqueles que acreditaram e não crêem fogem, afastam-se, renunciam. Por isso tambémhomens que projectam a sua existência para além da morte. Uma alma que voe para rumo extra-terreno. Ou um ser que se desintegra para subsistir integrado em novos seres. Qualquer coisa que justifique o caminho percorrido entre o nascimento e a morte. Sonha-se para fora da terra com uma vida que nesta se não tem. Ou sonha-se com o que fica...
A morte é elemento essencial da vida. Mas isso não basta para que se aceite sem mágoa. É que a pergunta: «deixarei de ser hoje? amanhã — intensifica e aproxima o grande problema de consciência: «O que andei por fazendo? Que fica sobre a terra da minha passagem sobre a terra
Não satisfaz uma vida além-túmulo, mesmo que a imaginação empreste à alma asas imateriais. É esta terra donde brotou o pão que manteve o corpo e a água que matou a sede, esta terra donde tudo (mesmo pouco) nos veio e para onde iremos — e é esta humanidade a que pertencemos, este grande colectivo a que nos liga o sangue, o amor, o ódio e a interdependência — é esta terra e esta humanidade que nos exigem uma explicação.
Assim o problema da morte é o problema da vida. Depois que desapareça tudo o que de nós houve! Ou que subsista a alma! Ou que os vermes perpetuem a existência do nosso corpo!
Mas a expectativa da morte ou dum futuro de sombras perpétuas (que derrotas intensificam) chama a recordação do passado. Que poderia ter feito para que meu irmão não fosse vencido? Não lhe deixei a ele uma tarefa que também me pertencia? E ainda... Que foi feito de toda esta energia dispendida em vida e tão sofregamente sugada? Que fica — não do meu corpo ou da minha almaque fica das minhas acções duma vida inteira?
E a perpetuidade da nossa vida, a resistência contra um breve deixar de ser, fixa-se neste ponto vital: a justificação e perpetuidade das próprias acções, do que se fez no caminho percorrido entre o nascimento e a morte.
Haverá espectáculo mais doloroso que o do velho que olha atentamente o passado, medindo cada passo, avaliando o efeito de cada gesto, e por fim tem um grito de desalento, remorso e desespero: «uma vida inútil...?» Haverá constatação mais angustiosa que a da própria inutilidade? Não será precisamente essa constatação que as mais das vezes leva ao desejo de não ser? A inutilidade da vida é a afirmação de que nada fica das acções praticadas, de que se gastou o tempo a queimar tempo.
E então talvez valha a pena fitar a morte e esperar o para . A não ser que se olhe em frentemesmo que o limite se espeque num amanhã irrefutável — e se marque uma finalidade à vida.
Quando a perspectiva da morte ou dum futuro trágico baila ante todos, até os jovens, como os velhos, olham o passado. E, depois, quantas vezes o desinteresse e a renúncia não vêm juntar a uma derrota ou a um momentâneo recuo colectivo, uma irremissível derrota individual.
...Porém, quando assim se não voga ao sabor da corrente, mas antes se escolhe caminho e se marcha, novamente o futuro sorri, à nossa vida ou à nossa morte. Sorri porque nele se adivinham marcadas as acções que vão ser praticadas. Porque a nossa vitalidade é afinal a direcção do que vem. Porque se ganha confiança na perpetuidade dos nossos actos. Subsiste a alma? O apodrecimento e desintegração é a última étape? Que interessa isso, se ganhámos uma nova eternidade!
Enquanto a humanidade for humanidade, as acções que hoje praticamos estarão sempre presentes, resistindo ao tempo e ao esquecimento a que nos votarão os nossos netos. os nossos corpos terão perdido a forma humana, as suas partículas viverão separadas e dispersas e ainda nas sociedades futuras os efeitos dos efeitos das nossas acções evocarão a nossa passada existência. Com esta concepção, sentimo-nos (hoje) obreiros anónimos do futuro. Ao problema da morte, do não ser, responde satisfatoriamente a certeza consoladora deste prolongamento da nossa existência. Se se pudesse falar em eternidade, esta seria a única eternidade da nossa vida, como seres pensantes e voluntariosos.
Por isso, quanto mais sorridente é a visão do mundo que fica, quanto mais funda é a consciência de que tudo se fez para deixar aos filhos valiosa herança, menos dura e menos brutal aparece a visão da morte.
Não se trata de olhar para trás e perguntar com angústia: «que fiz? que fiz?» Trata-se de olhar em frente e perguntar com confiança e serenidade: «que poderei ainda fazer Não é um exame de consciência que urge fazer: é também um apelo à consciência!
Com tal procedimento não se visa conquistar a absolvição dum juiz que após a nossa morte nos venha a ter em frente sentados no banco dos réus. Além da história, ninguém nos pedirá contas. Nem a nós, nem aos nossos espectros. Somos nós que nos devemos interrogar e julgar. Isso nos exige a vontade de viver e de perpetuar a nossa existência. Isso nos exige a gratidão. Isso nos exige a lembrança dos irmãos que morreram ao pretender desenraizar endurecidos troncos. Pode não conhecer-se o triunfo. Mas pode soçobrar-se sem que no mundo fiquem trevas. Talvez assim nos venha acalentar a necessidade dum sacrifício heróico. E então, porque não falar em felicidade?
Num mundo em que nãorisos sem lágrimas, a felicidade nunca pode ser uma situação com caracteres próprios e momentâneos. A felicidade não pode existir, não existe, como situação particular: nem quando dependente de factos estranhos à própria vontade; nem como ideia abstracta. A felicidade pode existir como um atributo de toda uma vida. a satisfação pela vida que se vive poderá tornar feliz. Há então que não subordinar as acções ao alcance dum prazer. Mas antes amoldar a ideia de felicidade à vida que se vive.
Quando não nos sentimos meros joguetes da evolução mas, pelo contrário, sentimos que, mesmo ao de leve, as nossas energias modificam o seu ritmo. Quando sabemos ser leais, rectos e solidários. Quando amamos profunda e extensamente e nos sentimos capazes de sacrificadas demonstrações do nosso amor. Somos felizes porque não desejamos outra vida, porque sentimos preenchida a própria função humana. A felicidade existe assim como condição da consciência da própria utilidade. Não dispersar actividades. Proceder com um critério. Ser coerente em todas as atitudes. Agir com uma linha de conduta. Ter na própria vontade, embora aceitando as suas determinantes. Convicção de impotência e felicidade excluem-se.
Assim far-se-á da própria vida uma vida feliz. Feliz nas horas de ascenso e nas horas de derrota. Feliz na alegria e na tristeza. Porque, na felicidade, prazer e dor interpenetram-se. Até o estertor final pode conduzir à felicidade pela convicção de que se morre bem. Não pode haver felicidade sem dor, porque esta é inseparável da vida. Que se sofra! Mas que as vontades saibam amordaçar o sofrimento para triunfar. E para isso, é necessário forjar nos peitos o desinteresse pessoal por prazeres efémeros, a rijeza de aço para lutar, o esclarecimento das exigências dos sentidos. Através da dor e da angústia, corações ao alto!
Se a felicidade é dada pela satisfação da linha de conduta, pela satisfação de que se procede bem, nada, nada, nem os gritos da própria carne esfacelada, nem lágrimas de emoção, nem a revolta instante e desesperada, pode destruí-la. Porque, acima dos próprio gritos, das próprias lágrimas, do próprio desespero, fica sempre a certeza duma vida voluntariosa e independente ou – se se preferir a expressão – recta, leal, digna.
Então suporta-se a dor e ama-se a vida. Podem as leis da natureza esfrangalhar o corpo. Podem os órgãos começar cansando. E as pernas vergando de fadiga. Amortecendo-se a percepção. O corpo começar em vida o seu desagregamento. Poderá bailar ante os olhos a perspectiva da morte e o fim especar-se num amanhã irremissível.
E haverá sempre vontade de continuar, procedendo sempre e sempre duma forma escolhida, marchando sempre para um destino humano e uma missão terrena voluntariosamente traçada. Haverá sempre anseio de continuidade e aperfeiçoamento.
Atravessar-se-ão tragédias com lágrimas nos olhos, um sorriso nos lábios e uma nos peitos.

primeira publicação: jornal «O Diabo» n.º 233, de 1939
in Obras Escolhidas - I - 1935-1947 (página 41) .

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

«De uma coerência exemplar...»


 Foto de Luís de Raziel

«De uma coerência exemplar, Álvaro Cunhal, como político e, particularmente, no âmbito de secretário-geral do Partido Comunista, nunca traiu os valores pelos quais lutou durante toda a sua vida em defesa dos trabalhadores contra a ditadura fascista.

Além disso, como artista, escritor e homem de uma coragem e rectidão invulgares, impõe-se à admiração e respeito dos cidadãos conscientes, acima de quaisquer divergências
António Ramos Rosa
De ‘Retratos de Álvaro Cunhal’ Edições Afrontamento

Iniciativa em Espinho

A grande sala do Centro Multimeios de Espinho foi pequena, para acolher as centenas de pessoas que quiseram assistir à primeira comemoração do distrito de Aveiro, do Centenário de Álvaro Cunhal, que teve lugar no concelho de Espinho.

Iniciou com a abertura da Exposição “Vida, pensamento e luta: exemplo que se projecta na actualidade e no futuro”.

Seguiu-se o Coral de Letras da Universidade do Porto, sob a Direcção do Maestro Luís Borges Coelho, cantando vários compositores portugueses, e as  "heroicas" de  Fernando Lopes-Graça emocionaram a assistência.

Depois, durante 16 minutos fez-se um impressionante silêncio e, entre sorrisos saudosos e olhos rasos de lágrimas, foi projectado o vídeo que nos mostra o homem, o comunista, o intelectual, o artista que foi um dos grandes lutadores pela liberdade e pela democracia, o camarada Álvaro  Cunhal.

A sessão terminou com a intervenção de Joaquim Almeida, membro do Comité Central do PCP.

Nesta Sessão Pública não só estiveram presentes muitos militantes comunistas, como também, cidadãos de todos os quadrantes políticos que respeitosamente deram o grande contributo  para enaltecer a iniciativa e prestando a justa Homenagem ao nosso camarada Álvaro Cunhal.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A REALIDADE SOCIAL NA OBRA DE ARTE


 
A REALIDADE SOCIAL NA OBRA DE ARTE

«A influência e os reflexos da vida social na criação artística podem ou não depender da vontade do artista. Em qualquer caso são uma realidade objectiva. Decorrem do facto de que o ser humano vive em sociedade e de que o artista, como ser humano, está sob as permanentes influências externas, nomeadamente as sociais. Em todos os actos da sua vida, incluindo quando imagina e quando afirma a sua própria personalidade. O indivíduo tem ampla margem de livre decisão. Tem direito a ela. Pode recusar e negar quaisquer influências externas na própria criação artística. Não pode porém furtar-se a elas. Elas estão, por vezes com surpreendente evidência, na obra que criou.»

[Álvaro Cunhal, in A arte, o artista e a sociedade, Caminho, 1996]

Um "enorme" livro
de que mais se falará aqui

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

De vez em quando, um desenho - desenhos originais - 5

ver a "história"  dos desenhos

"Actualidade e Universalidade do Pensamento de Álvaro Cunhal"

14 de Fevereiro de 2013 - 17h24

Atualidade e Universalidade

do Pensamento de Álvaro Cunhal

O Partido com Paredes de Vidro
Este ano, em novembro, completaria 100 anos de vida o dirigente comunista, artista e destacado intelectual português Álvaro Cunhal. Autor de textos sobre temáticas variadas, que vão da conjuntura e ação partidárias à teoria da arte, o legado de Cunhal será reeditado este ano pelo PCP, como parte das comemorações do seu centenário.


Por Rita Matos Coitinho
(mestra em sociologia, cientista social e militante do PCdoB em Santa Catarina, Brasil)

  Este ano completa-se 100 anos de vida do dirigente comunista, e destacado intelectual português Álvaro Cunhal (Imagem retratada pelo artista Xesko)
Nas palavras de Jerónimo de Souza, secretário-geral no PCP no 19º Congresso partidário, realizado em dezembro último, "as Comemorações do Centenário do Nascimento de Álvaro Cunhal serão a justa homenagem ao homem, ao comunista, ao intelectual, ao artista, figura central do século XX e princípio deste século e que se afirmou como referência na luta pelos valores da emancipação social e humana no país e no mundo, e para todos aqueles que abraçam a luta libertadora de todas as formas de exploração e opressão do homem e dos povos. Que deu uma contribuição inigualável para o Partido que temos e o Partido que somos, o seu Partido de sempre – o Partido Comunista Português. (...) o seu pensamento e ação política, a sua história pessoal de combate pela liberdade, a democracia e o socialismo, não pode passar ao lado de todos os que se preocupam com os problemas que a sociedade enfrenta, de regressão social e civilizacional, no quadro de uma aguda crise sistémica do capitalismo."
(...)
continuar a ler  aqui

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

avante! de hoje - 1ª página

CUNHAL e CORVALAN


(Álvaro Cunhal com Luis Corvalán e Dias Lourenço)
Sei que estive , - que alguém me recorde o ano, -  foi um Campo demasiadamente Pequeno para recebermos Luís Corvalan.
Se encontrarem a intervenção de Álvaro Cunhal este post ficara completo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Curiosidade


Este é o frontispício da publicação pela Editorial «Avante» em 1954 com as contribuições à luta pela libertação de Álvaro Cunhal de Jorge Amado e Pablo Neruda, e por nós publicadas aqui.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Iniciativas - Loures


Na Academia Recreativa Musical de Sacavém

«Concelhia de Loures do PCP 

promoveu uma homenagem a Álvaro Cunhal



A Organização Concelhia de Loures do PCP promoveu uma homenagem a Álvaro Cunhal no centenário do seu nascimento. 

Esta iniciativa teve lugar na Academia Recreativa e Musical de Sacavém.
Na homenagem 200 pessoas assistiram à projecção do filme : "Álvaro Cunhal: vida, pensamento e luta", a uma actuação de cantar alentejano com o Coro da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos, que fizeram questão de agradecer o convite da organização local comunista, relembrando o papel de Álvaro Cunhal na Reforma Agrária. Seguiu-se um momento de poesia, com Carlos Paniágua, actor e encenador do Teatro Independente de Loures (TIL), que declamou o poema de Pablo Neruda, la Lámpara Marina, dedicado a Álvaro Cunhal.
Esteve presente ainda uma exposição sobre a vida, pensamento e luta de Álvaro Cunhal e uma banca de livros com as suas principais obras teóricas e literárias.
Manuel Rodrigues, membro do Comité Central do PCP e responsável junto deste organismo pelas comemorações do Centenário, encerrou a iniciativa com uma intervenção política onde relembrou as palavras de Álvaro Cunhal no comício realizado a 5 de Outubro de 1974 no papel dos trabalhadores de Sacavém e do concelho de Loures na derrota do regime fascista e do 28 de Setembro, e na consolidação do regime democrático.
No final da iniciativa, as duas centenas de participantes cantaram a Internacional relembrando Álvaro Cunhal com a projecção de diversas fotografias de vários momentos da sua vida.»
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Academia Recreativa
e Musical de Sacavém

(tal como no facebook)

De vez em quando... um desenho - desenhos originais - 4

ver a "história"


O Partido com paredes de vidro e os cultos (no prefácio à 6ª edição)

Se outros méritos não tivesse a iniciativa do PCP (e este ”blog”), teria o de fazer alguns debruçarem-se sobre a vida, o pensamento e a luta de Álvaro Cunhal. E assim esclarecer, com a  ajuda do camarada, certos temas delicados. Como o que a própria iniciativa parece ter levantado do culto da personalidade (e dos mortos). Já neste “blog” ele foi abordado, e mereceu a única reserva em comentário que até agora aqui chegou. Com a resposta ao comentário não se encerrou o tema, embora não se pretenda fazer dele um caso.
Acontece que, a partir da 1ª edição de O Partido com paredes de vidro, se pode ler o prefácio de 2002 (6ª edição), do próprio Álvaro Cunhal, e será útil juntar o que ele entendeu de acrescentar quase 20 anos passados. Aqui fica:

«(...)
No trabalho de direcção, o princípio do trabalho colectivo assume importância fundamental e o valor de uma «lei» (p. 111). Tem em si a contribuição individual e o mérito e a experiência de cada um dos que nele participam (p. 133).
Dirigir é «decidir, orientar, dar directrizes e indicações, distribuir e atribuir tarefas», examinar as situações e encontrar respostas para elas (p. 129). É «explicar, ajudar, convencer, dinamizar» (pp. 129-130). E realizar esse trabalho em ligação estreita com a base do partido, com a classe operária, com as massas trabalhadoras, com as populações.
A prática de ouvir as opiniões discordantes manifestadas no exercício do direito de criticar e de propor é um elemento necessário à reflexão de quem dirige. Assim as decisões convencem e ganham prestígio e autoridade.
É de combater a tendência para — em vez de dirigir — mandar, comandar, dar ordens (p. 222), impor decisões, deixar que medre «o elogio, a lisonja, o aplauso sistemático» (p. 134) a tal ou tal dirigente mais responsável, vício que quem o tem cada vez sente mais necessitar dele.
O chamado «culto da personalidade» constituiu uma terrível experiência de que ainda hoje é necessário extrair múltiplas lições. A atribuição a um «chefe» dos êxitos que se devem a muitos outros militantes; a aceitação, por sistema, «cega» ou não reflectida, das suas opiniões e decisões; a crença na sua infalibilidade; as medidas administrativas, disciplinares e repressivas contra os discordantes e os críticos – são de combater, mesmo que se manifestem de forma incipiente.
E, se se combate o «culto» dos vivos, é também necessário contrariar o «culto» dos mortos.
Dirigindo a revolução social mais extraordinária de todos os tempos, Lénine foi um dirigente revolucionário com um papel sem paralelo na história da humanidade. No desenvolvimento criativo da obra de Marx, a sua obra teórica justificou que à teoria revolucionária dos comunistas fosse dado o nome de «marxismo- leninismo».
É porém um erro (como o ensaio aponta) «utilizar cada frase de Lénine como verdade universal, eterna e intocável» e contrariar e abafar a investigação dos novos fenómenos, não verificados no tempo de Lénine, com citações de Lénine inadequadas para o efeito (p. 140).
Referindo-se de forma crítica, sem explicitar, a certo monumento comemorativo da memória de Lénine na União Soviética, o ensaio expressou assim uma crítica directa à estátua de Lénine no conjunto arquitectónico: «Um Mestre é verdadeiramente um Mestre, se os discípulos não fazem do Mestre um Deus.» (p. 141.)
(...)»

Depoimento/extrato de António Pina


Uma das «Estelas» de Victor Segalen, intitulada «Libation Mongole»,* fala de um guerreiro inimigo aprisionado no final de uma batalha a quem, por se ter batido com grande coragem, é proposto que se passe para o lado dos vencedores. É um texto admirável sobre lealdade e a inteireza de carácter: «Cortámos-lhe as pernas pelos joelhos […]. / Cortámos-lhe os braços […]. / Fendemos-lhe a boca de orelha a orelha: com o olhar, continuou a dizer-nos que permanecia fiel. / Não lhe espetemos os olhos como se faz aos cobardes. Em vez disso, cortemos-lhe respeitosamente a cabeça, derramemos o koumys dos bravos, & esta libação: / Quando renasceres, Tch’en Houo-chang, dá-nos a honra de renascer entre nós

Primeiro parágrafo do depoimento de Manuel António Pina sobre Álvaro Cunhal no livro Retratos de Álvaro Cunhal’ de José da Cruz Santos, editado pela Afrontamento.

*      *      *
* - Libation Mongole*
C'est ici que nous l'avons pris vivant. Comme il se battait bien nous lui offrîmes du service : il préféra servir son Prince dans la mort.
Nous avons coupé ses jarrets : il agitait les bras pour témoigner son zèle.
Nous avons coupé ses bras : il hurlait de dévouement pour Lui.
Nous avons fendu sa bouche d'une oreille à l'autre : il a fait signe, des yeux, qu'il restait toujours fidèle.
Ne crevons pas ses yeux comme au lâche ; mais tranchant sa tête avec respect, versons le koumys des braves, et cette libation :
Quand tu renaîtras, Tch'en Houo-chang, fais-nous l'honneur de renaître chez nous.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

De comentário a depoimento


Iluminar um comentário tal como foi escrito ao correr da pena:


«Nos meses que se seguiram à Revolução de Abril e com tanto a acontecer no nosso país quando todos eram convocados para defender as conquistas houve tempo para formar núcleos de Pioneiros. No final de 1974, início de 1975 formou-se um núcleo em Sacavém e eu e a minha irmã começamos a participar nas atividades. Eu tinha pouco mais de dez anos e guardo gratas recordações desses anos
Enquadrando-me no que nos dás a conhecer neste texto também me recordo do Álvaro estar connosco: nos encontros e no espaço dedicado às crianças desde a primeira Festa do "Avante!" (Parque D?). De ter essa mesma atitude: ser um de nós no cumprimento das tarefas. De chegar junto de nós e de falar connosco: perguntava-nos o nome, o que gostávamos de fazer, o que gostávamos de estudar
Ana Alves Miguel

Um dia os réus serão vocês! - o julgamento de Álvaro Cunhal





A História nos julgará!
A defesa acusa!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"Ouvendo" o vídeo dedicado a Álvaro Cunhal - 4

O camarada Álvaro! Só...
Presente. Vivo no seu legado.




Obrigado, Pedro!

"Ouvendo" o vídeo dedicado a Álvaro Cunhal - 3

Respeito e saudade. Força!




"Ouvendo" o vídeo dedicado a Álvaro Cunhal - 2

Vivendo emoção, a acolher razão e força. Luta!




"Ouvendo " o vídeo dedicado a Álvaro Cunhal - 1

No XVIII Congresso do PCP, de 2008, convidei um amigo que é  fotógrafo a assistir, e tratei.que lhe fosse dado acesso como comunicação social, a que aliás tinha direito. Fez uma extensa e excelente reportagem fotográfica, que por vezes revejo, e dela retiro 16 fotos de delegados ao congresso enquanto passava o vídeo sobre Álvaro Cunhal.
Com autorização (e todo o apoio) do Pedro Gonçalves, como tributo a Álvaro Cunhal, publicam-se essas fotos neste blog. Estas são as primeiras 4: 





sábado, 9 de fevereiro de 2013

Fevereiro - Iniciativas

(ou vice-versa!)

algumas...

DIZEM ALGUNS...

Álvaro Cunhal
[Desenho de Álvaro Siza Vieira]

*
DIZEM ALGUNS

Dizem
alguns que tu
foste uma lenda arrancada
das páginas da história. Que a tua
palavra ardia
como uma tocha, às vezes
como uma lança cravada
na carne da ignomínia.
Eu diria
apenas que foste
a encarnação dum sonho, o rosto
humano da utopia.

Albano Martins

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Por causa de algumas dúvidas...

... o melhor é ir às fontes, aos Mestres!

















Aliás,,, esta transcrição de
O Partido com paredes de vidro,
podia ser ojecto de edição revista
(e de autor coletivo...)
e onde está Lenine
pôr-se Marx ou Cunhal!
(e por aqui nos ficaríamos)