«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Em Vila do Conde, na Biblioteca José Régio...

Por mail amigo foi recebida esta informação.de uma iniciativa na Biblioteca José Régio, em Vila do Conde:



Assinala-se,  este ano,  o 1º centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. Conhecido como um dos  mais importantes políticos do século XX português,  é também um dos atores mais ativos no processo de construção da vivência democrática nacional,   do pós 25 de Abril. Uma das suas facetas menos  conhecidas é o gosto pela arte, nomeadamente pela literatura e pelo desenho. Com o pseudónimo Manuel Tiago, assinou quase uma dezena de títulos de ficção, com traços autobiográficos, que se enquadram no movimento neo-realista. Cunhal foi um dos principais mentores desta corrente artística, sendo conhecida,  a este propósito, a polémica com José Régio.
A Biblioteca dedica-lhe o evento Na última sexta-feira marcamos encontro com..., de Abril, que terá lugar no dia 26, pelas 21,30h. A figura de  Cunhal, nomeadamente o a sua perspetiva estética e filosófica quanto ao papel político da arte,  será evocada pelo historiador Prof. Dr. Manuel Loff. O nosso convidado  é professor associado da Universidade do Porto, integrando o Departamento de História e Estudos Políticos e Internacionais. É   investigador no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. Dedica-se, há mais de 20 anos,  ao estudo do século XX, especialmente as ditaduras da Era do Fascismo e os processos de construção social da memória da opressão ou das experiências da sua superação. Doutorou-se  no Instituto Universitário Europeu (Florença). Colabora   com várias universidades e centros de investigação europeus e americanos. Assina, quinzenalmente, uma coluna de opinião no jornal Público. No Átrio Principal da Biblioteca, estará patente, a partir de 18 de Abril, uma  pequena exposição sobre Cunhal. 
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Sublinha-se a importância e o significado desta iniciativa.
Pela iniciativa em si mesma, e contexto em que se enquadra; pelo convidado, pela sua qualidade profissional e postura cidadã; por José Régio estar ligado a uma das mais acesas polémicas que Álvaro Cunhal teve, em 1939 (com 25/26 anos), precisamente sobre arte, literatura e posições perante a política e a vida (se é que não se confundem...).
Como gostaríamos de poder estar presentes!
S.R.


sábado, 20 de abril de 2013

De Samuel-cantigueiro:


Sábado, 20 de Abril de 2013

Hoje é no Crato!



A bela terra do Crato tem um programa bem recheado, por estes dias, à volta do tema do 25 de Abril. Um dos momentos será garantido por nós, a “troupe” que vai andar por aí lembrando a Reforma Agrária, num espectáculo integrado no Centenário do Nascimento de Álvaro Cunhal, espectáculo de que já antes aqui falei.
Portanto, já sabem! Quem nos quiser ver – e puder - é mais logo, hoje, sábado dia 20 de Abril, depois do jantar, na Praça do Município do Crato.
Quem até quereria ver – mas não pode – tem ainda muitas mais ocasiões em vários outros municípios a anunciar.
Quem puder... mas não nos quiser ver, também não tem nada que enganar: é ficar no sofá a disfrutar uma das cinquenta novelas disponíveis.

Um grande abraço, Samuel!
Bom trabalho

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Este camarada Álvaro Cunhal!

A propósito do "post" anterior...

De uma carta para a Direcção do Partido (de 1952, portanto da Penitenciária... em isolamento!), no capítulo 4. Imprensa do Partido, no vol. II das Obras Escolhidas das edições avante!:  

«(...) Apenas três objecções:
  1. - papel demasiado grosso o que, com as 6 páginas do Avante!, deve criar dificuldades conspirativas de transporte;
  2. - tipo demasiado pequeno e impressão pouco nítida;
  3. - frequentes e graves erros ortográficos.
Os camaradas  certamente notaram já e procuram eliminar na medida do possível estas deficiências. Em relação à última aqui se faz entretanto uma sugestão prática: que cada tipografia do Partido seja equipada com um Prontuário Ortográfico e que seja colocada a tarefa aos camaradas compositores de aprenderem a escrever correctamente o português.»

"Máquinas de controlo social" - César Príncipe


Máquinas de controlo social


por César Príncipe [*]


(Dedico naturalmente a minha intervenção, nesta Conferência, a Álvaro Cunhal, que foi redactor da Imprensa clandestina, a única que enfrentou o regime fascista e nunca deixou de exercer a liberdade de expressão, a denúncia dos crimes da ditadura, a defesa dos direitos políticos e populares. Nesta dedicatória, englobo todos os intelectuais, operários gráficos e distribuidores da Imprensa do PCP (1931-1974), que ainda hoje continua a marcar a diferença noticiosa e crítica).

Ler o resto em aqui-resistir.info.
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terça-feira, 16 de abril de 2013

De vez em quando um desenho - desenhos originais - 13

Esta série de desenhos têm uma "história".
Com alguma emoção, comecei a contá-la no "blog" de 24 de Janeiro, dos primeiros deste "blog".
Melhor a procurarei contar noutras oportunidades e por outras vias.

Do Gabinete de Imprensa do PCP

Aos órgãos de informação:

Exposição "Álvaro Cunhal - Vida, pensamento e luta:
exemplo que se projecta na actualidade e no futuro"

No próximo dia 27 de Abril, será inaugurada a exposição «Álvaro Cunhal - Vida, pensamento e luta: exemplo que se projecta na actualidade e no futuro», na Sala do Risco, do Pátio da Galé, em Lisboa, estando patente até 2 de Junho, no âmbito das Comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal.
Através de fotografia, audiovisuais, documentos, objectos, livros, desenhos, pinturas, reconstituições escultóricas, esta exposição, falará do seu percurso com uma vida inteiramente dedicada ao seu partido de sempre e à luta pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo.
Álvaro Cunhal é, no século XX e na passagem para o século XXI em Portugal, a personalidade que mais se destacou na luta pelos valores da emancipação social e humana, com forte projecção no plano mundial. O seu legado integra um acervo de análises e acção a que a vida deu e dá razão e que tem uma crescente projecção na actualidade e no futuro. Cedo fez uma opção de classe pelos direitos dos trabalhadores, foi militante e dirigente comunista, Secretário-geral do Partido Comunista Português, revelou uma tenacidade, abnegação e coragem raras, recusou privilégios pessoais. Interligou a sua intervenção política com um apaixonado interesse por todas as esferas da vida, nomeadamente pela criação artística.
Esta exposição procura dar expressão a momentos significativos da sua vida, pensamento e luta. Daremos relevo a uma reflexão teórica nos planos político, ideológico e estético, traduzida em inúmeras obras, estudos, artigos, entrevistas, conferências, discursos políticos e debates, e ainda abordar a produção plástica reflectida em desenhos, pinturas e ilustrações e a criativa produção literária expressa nos seus romances, contos, traduções e prefácios.
O espaço Auditório com uma programação diversificada, contará com debates, leituras alternadas de textos e obras, assim como a apresentação da peça de Teatro de Marionetas «Barrigas e Magriços», a partir do texto de Álvaro Cunhal.
Destaca-se um conjunto de reconstituições em forma de escultura onde são retratadas situações e momentos importantes da história do PCP e de Álvaro Cunhal: a tipografia clandestina; uma reunião do Partido durante o período da clandestinidade; a reconstituição, à escala real, da sua cela da Penitenciária de Lisboa, onde escreveu e desenhou uma parte da sua obra teórica e artística; a
bicicleta, meio de transporte e suporte importantíssimo para a difusão da imprensa e a actividade do Partido até aos anos 60 do século passado.
Destaca-se ainda a projecção de filmes sobre a acção do Movimento dos Capitães na madrugada de 25 de Abril de 1974 e do entusiástico levantamento popular que constituiu um factor decisivo para a consolidação da vitória; os dias da Revolução; a chegada de Álvaro Cunhal a Lisboa a 30 de Abril de 1974; o gigantesco 1º de Maio de 1974; a formação do movimento operário e popular como uma poderosa realidade da vida nacional e da Revolução.
Aberta de Terças a Quintas, das 10h00 às 20h00, Sextas e Sábados das 10h00 às 22h00 e Domingos das 10h00 às 20h00, e exposição tem entrada livre, e contará com visitas guiadas, através de inscrições no local, ou sujeitas a marcação prévia, no caso de grupos organizados, através do endereço:
16.04.2013
O Gabinete de Imprensa do PCP

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O espectáculo em Santarém

Depois da sessão cultural promovida na Aula Magna, na Reitoria da Universidade de Lisboa, tudo se tornou mais difícil. A bitola foi colocada muito alto.
Mas Santarém, a Organização Distrital do PCP, arriscou. No Teatro Sá da Bandeira realizou-se, ontem, um excelente espectáculo, perante uma casa cheia. Com "prata da casa" (melhor se diria "ouro" ou "platina") e dois "estrangeiros" - que também são "da casa" -: o Samuel, que escolheu duas suas canções "à medida", e o Fausto Neves, que introduziu a execução de uma peça de Fernando Lopes Graça dedicada a Álvaro Cunhal com uma "conversa" pedagógica muito interessante.
E foi cumprido um programa diversificado e exigente que não cabe comentar aqui, neste espaço, como mereceria.

  

O Rei Lear - do prefácio de Luís de Sousa Rebelo e outras coisas...


«A versão d' O Rei Lear, que agora se publica, apareceu inicialmente nas "Obras de Shakespeare", editadas em fascículos pela Tipografia Scarpa em Lisboa, que, para o efeito, se assumiu como editora do projecto. [...] 


O texto d' O Rei Lear, então publicado, não figura sob o nome do seu verdadeiro tradutor. Não é possível estabelecer se se trata de um pseudónimo ou de alguém que tivesse emprestado o nome para o efeito. Como director literário e organizador da edição, soube sempre quem era o tradutor e entrei no estratagema editorial com pleno conhecimento da situação. Ao leitor menos avisado poderá parecer estranho todo este esquema da dissimulação da autoria da versão portuguesa. A verdade é que o nome do tradutor não se podia revelar na altura. Tratava-se do Dr. Álvaro Cunhal. Sob as condições da ditadura salazarista, que suprimira todas as liberdades políticas e exercia a coerção policial sobre os cidadãos, o seu nome era anátema para o regime. Para mais, o Dr. Álvaro Cunhal encontrava-se na Penitenciária, e tudo quanto a ele se referisse era zelosamente controlado pelas autoridades no sentido de apagar a sua presença. Fica assim esclarecida a questão da autoria da tradução e do 'mistério' que a rodeou. 


O texto entregue impunha-se pela sua qualidade literária e conformava-se plenamente com o critério que havíamos adoptado para a publicação das "Obras de Shakespeare". Nele se nota o rigor da expressão e a fidelidade ao original. As subtilezas e complexidades, que se nos deparam no texto inglês, são examinadas nas notas onde se explica e fundamenta a versão adoptada. Por mais de uma vez se pressente nos comentários do tradutor a inclinação para o desenvolvimento dos temas tratados, mas que a natureza do trabalho empreendido exclui à partida. A seriedade, que preside à elaboração do texto, revela uma preparação cuidada para a tarefa da tradução. O tradutor documentou-se convenientemente e reflectiu demoradamente sobre a obra

A questão do poder e a sua representação nas tábuas de um palco continuam a ter uma importância excepcional no que toca ao seu aspecto dramático. O teatro de Shakespeare, mais do que para ser lido, é para ser visto e ouvido, e o texto tem, por isso, de sugerir uma dimensão visual na alusão semântica que transmite ao leitor/espectador. Esta parábola da arte de reinar e dos afectos, que condicionam ou perturbam a escolha do governante, tem raízes profundas na cultura e no imaginário popular. Frisa o tradutor que este drama admirável exemplo da obra dum grande artista assente no espírito criador do seu povo, da fusão do génio popular.' História bem conhecida e repetidas vezes sem conta, ela faz parte do repertório intelectual do espectador comum, sendo a sua encenação acessível a um largo público. O perfil psicológico do rei Lear, a sua aposta na sucessão, ao querer dar o reino à filha que mais o amasse, dão sinal de megalomania, que é má conselheira em matéria política. Mas a junção do drama familiar com o problema da governação oferecia ao público uma intimidade que permitia ver de dentro, os chamados bastidores da História, o que este capta nos seus efeitos exteriores, julgados como consequência política. A sageza na vida e na arte de governar, que se ganha com a experiência, abandona o rei Lear, deixa-o à mercê das paixões, da vaidade pessoal e da egomania, levando à tragédia, cuja magnitude se impõe em toda a sua complexidade na sucessão das cenas que constituem a narrativa do drama. A sintonia entre o tema e as vivências do tradutor é perfeita e revela-se nas páginas da versão portuguesa. [...]» 
Luís de Sousa Rebelo


domingo, 14 de abril de 2013

Conferência Soberania e Independência Nacional - Porto, 13 deAbril


Obrigado, Jorge!

Carta de Álvaro Cunhal a Abel Salazar


(Fresco de Abel Salazar)

Caro Dr. Abel Salazar:

Venho de ver a sua exposição. De início, choca a distância entre dois temas: a mulher ociosa e a mulher que trabalha. Custa a compreender como uma mesma sensibilidade pôde sentir a beleza serena e cuidada da mulher que vive para si para os seus vestidos, o seu “ménage”, o seu aspecto e a beleza do vigor e do esforço da mulher que luta pela vida e pelo pão, e que, por tal, se verga sob insuportáveis fardos.
Esse contraste tenho-o como a maior lição talvez dada involuntariamente a tirar da exposição dos seus trabalhos.
Mas se da parte do artista não houvesse apenas vibração ante o "espectáculo" do trabalho; se houvesse também uma compreensão do que remediavelmente doloroso tem esse trabalho; então haveria que exigir mais.
Mais que os bustos ajoujados pelo esforço. Mais que as mãos crispadas pelo desespero. Mais que as feições sombrias e trágicas. Mais que os braços enrodilhados sobre o tronco, a exprimirem retraimento forçado de aspirações. Mais que os passos cansados. Haveria que exigir do artista uma compreensão paralela da beleza serena das elegantes burguesas, do que essa beleza deve a esses outros corpos deformados, do que essa serenidade deve a essas outras almas inquietas e angustiadas. Das “burguesinhas” haveria que traduzir o egoísmo, a vaidade, o vazio de sentimentos e -acima de tudo o seu desprendimento e desinteresse por aqueles a cujo esforço devem tudo com que se adornam e pintam, tudo o que comem e bebem. E haveria ainda que ridicularizar. Não quero dizer que se deformasse a realidade. O que é lamentável não é o facto de o artista não traduzir assim o mundo. Porque se assim o não , assim o não deve traduzir (exige-o a sinceridade, a base de toda arte séria). O que é lamentável é o facto de o artista assim o não ver, assim o não sentir. Porque, caro doutor, são dois mundos sim, mas que se interpenetram e explicam mutuamente.
Por isso, tenho como parte de mais interesse na exposição a série de quadros de mulheres no trabalho. Ao contrário do que sucede com muitos pintores "modernos" nãoum embelezamento artificial da mulher trabalhadora. Ela nas feições contraídas, e nas atitudes desalentadas ou desesperadas, e na tragédia dos olhos que procuram resistir à sombra e à sonolência da fadiga, se adivinha o descontentamento e a vontade de libertação - mal definidos ainda, talvez excessivamente instintivos, num passo para o levantamento e para revolta.
A mulher trabalhadora aparece mergulhada nas trevas poirentas das oficinas, onde raras manchas de luz lembram que no nosso país o sol brilha. Ou então, os seus pés descalços e inchados chapinham dolorosamente na lama. As roupas são ásperas, sujas, suadas e bafientas. As cabeças abaixam-se sob o peso do fardo. Porém não é o desalento que as atira irresistivelmente para baixo. As cabeças não pendem. Vergam sim mas retesadas e enérgicas; suportando, mas reagindo. Essa sua série de trabalhos marca uma posição nova na nossa pintura moderna. Constitui uma primeira interpretação vigorosa, realista e revolucionária do mundo do trabalho.
Sem dúvida, eu não tenho a pretensão de dizer-lhe coisas novas, nem de lhe dar conselhos. Mas, vendo a sua exposição, senti-me no dever de encorajar o artista, de o incitar a ir mais longe, mesmo que a coragem lhe não falte e seja seu propósito assente ir ainda mais longe. Mas ir mais longe com determinada direcção. E, na demarcação dessa direcção, vejo com desgosto muitos jovens progressistas deixarem agradar-se mais pelas "notas de Paris", que pelas múltiplas «mulheres no trabalho».

Álvaro Cunhal

Mais: Gostaria de ter um quadro seu, mas não posso comprar. Isto, de certa forma, é uma afirmação brusca e inesperada. Mas também é franca e sincera.