«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A carta apreendida

Carta de Álvaro Cunhal endereçada à irmã,
e apreendida pela PIDE,
quando da morte do pai e do cunhado.

Moscovo, 1 de Março de 1966
Minha muito querida irmã:
Terríveis notícias me chegaram nos últimos tempos: o suicídio do Fernando, a Morte do Pai. Que te posso dizer das lágrimas que chorei e choro, e de todas as razões delas, e das mil inquietações para que não tenho resposta? Por via indirecta, recebi as duas notícias. Secas, sem qualquer referência a mais. Nada mais sei, a não ser o que suponho.
A grande distância, o não ter visto mais o Pai, o não ter podido dizer-lhe um último adeus e uma última palavra, são dores irreparáveis. Sofreste mais de perto, querida irmã, mas não isto. E o que ele terá sofrido. Esforçado e paciente decerto, mas decerto também inconformado e profundamente triste. Perdemos a pessoa que mais nos amava, que melhor nos compreendia e a quem devemos elevadas lições de honestidade e isenção pessoal. Por isso não perdemos tudo. Apenas lamento, se ele o não sabia.
Chorando os mortos, penso nos vivos, querida, muito querida irmã. Penso em ti, na mãe cega, nos teus filhos, na vossa situação. Que posso eu fazer por vós? Eu sei (e é necessário que tu saibas também) que algo posso fazer. Continuo a ser o teu irmão infinitamente amigo, o teu irmão de sempre. Conta comigo, querida irmã.
À nossa pobre mãe, diz que vos escrevi algumas linhas, que sofro por não vos ter dado o muito que gostaria de dar-vos e que por isso me perdoem, se é coisa de perdoar. Diz-lhe mais, atribuindo-me a mim, todas aquelas palavras que entendas que a podem auxiliar. Do coração to agradeço, a ti a quem coube o leme de tão amargas situações.
Neste momento, quero dizer-te alguma coisa mais: olha para o futuro! Não descreias da vida e da alegria! Tem forças para recomeçar, se de recomeçar se trata!
Peço-te, querida irmã, que procures escrever-me algumas palavras, se não do que se passou (por te ser demasiado penoso) ao menos do que se passa. Eu não sei se esta carta te chegará às mãos, dada a pessoa que a escreve, dado o país de onde vai e dado que nem certo estou dos endereços para onde a envio (que em tempos me disseram ser o teu e o do Pai). Tenho porém uma certa esperança em que a venhas a receber. E, se a receberes, tenta escrever-me. A direcção é simples:
URSS – Moscovo 132
Hotel
Álvaro Cunhal

É o bastante e, tratando-se como se trata, de questões familiares e questões desta natureza, pode ser que a tua carta me chegue.
Querida, muito querida irmã: um grande, grande abraço, aquele que gostaria de poder dar-te neste momento de profunda tristeza.
Repito ainda: não desanimes, olha em frente, olha para a vida e confia.
Com a imensa ternura do teu irmão
Álvaro

O PC e os católicos - em 1947... e hoje

«(…)
O nosso profundo desejo é que, no Portugal Democrático de amanhã, exista, como hoje não existe, uma completa liberdade para cada qual professar a religião e o ideal que entender. O nosso desejo é que a Igreja e o Clero, por se dedicarem apenas aos assuntos religiosos, não vejam limitada a sua acção. O nosso desejo, é que, na obra de reconstrução democrática de Portugal, não haja convicções religiosas nem ideais filosóficos que afastem os homens e prejudiquem o seu esforço conjugado para assegurar ao nosso Povo e à nossa Pátria dias melhores e mais livres.
Na luta imediata pelo melhoramento das condições de vida dos trabalhadores e classes médias, contra os crimes e o terror, pelas liberdades, pela libertação de Portugal  dos monopólios corporativos e da infiltração imperialista; na luta por um Governo de Concentração Nacional que ouça e respeite a voz da Nação; na luta pela Liberdade, o Bem-Estar, o Progresso e a Independência de Portugal
Católicos, UNAMO-NOS!»

(Álvaro Cunhal, O Partido Comunista, os católicos e a Igreja,
texto publicado em 1947 pela Editorial «avante!»)



Bella Ciao é uma das "históricas" canções de resistência,
agora -, hoje - (re)cantada em Itália no final de uma missa

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O sonho e a acção


Há 25 anos


(Entrevista de Álvaro Cunhal à revista Polítika - 10/03/88)
(...)

P - E quanto à CEE?
...
R - No
que respeita à CEE aquilo que dizes é justo. Há camadas sociais que beneficiam e há uns bons milhões distribuídos e que tocam milhares de pessoas. Mas de uma forma geral, cremos que a parte que beneficia é incomparavelmente inferior à parte que paga caro a nossa entrada na CEE. O pacote laboral, por exemplo, é um preço da integração na CEE. É a tentativa de impor aos nossos trabalhadores condições de trabalho, de exploração desenfreada ao abrigo e com o pretexto da integração na CEE.

P -
Isso é mais o levar à CEE a divisão social do trabalho. Nós somos a Taiwan e a Coreia do Sul a CEE...

R - Estou de
acordo com a observação que acabas de fazer. está o preço. A integração na CEE reduz os trabalhadores portugueses à condição de contratados a prazo. Amanhã instalam umas fábricas de componentes, na primeira altura vêem que os salários são mais baixos em qualquer país distante, encerram a fábrica aqui, inauguram uma fábrica e os trabalhadores portugueses ficam desempregados. Aqui está um aspecto da divisão internacional do trabalho. Masmais naturalmente. Nas pescas destroem as nossas pescas; na agricultura sectores com importância são sacrificados; projectos nacionais como a Siderurgia, a metalurgia do cobre e outros são abandonados. É uma divisão internacional do trabalho em que Portugal é o «sobrinho pobre, em casa da tia rica...»

Quanto aos fundos, há muitos alçapões em que desaparecem

terça-feira, 9 de abril de 2013

Aveiro evocou Álvaro Cunhal


No passado sábado, 6 de Abril, a sala da Assembleia Municipal de Aveiro encheu por completo para assistir à sessão pública intitulada "Álvaro Cunhal e a construção da unidade antifascista, nos 40 anos do 3º Congresso da Oposição Democrática.

A iniciativa contou com as intervenções de António Regala, Manuel Rodrigues, Jorge Sarabando, Vítor Dias e Manuela Bernardino, onde, entre numerosos aspectos, foi salientada a contribuição do pensamento e acção de Álvaro Cunhal e do PCP para o desenvolvimento de uma ampla movimentação antifascista, envolvendo largas camadas da população, na criação de condições para o derrubamento do fascismo em Portugal.

O dia terminou de melhor forma com o notável concerto "Música com paredes de vidro" dos músicos Carlos Canhoto, Fausto Neves, Joana
Resende e Manuel Pires da Rocha, que encheu o Conservatório de Música de Aveiro.


domingo, 7 de abril de 2013

quando éramos meninos...



Álvaro Cunhal - quando éramos meninos - Reportagem de Célia de Sousa

Em 1981 Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP, foi entrevistado na Antena 1 por cinco crianças de onze anos. 30 anos depois, adultos, regressaram à rádio e recordaram a entrevista e o líder histórico do PCP.


http://www.rtp.pt/blogs/programas/estesabado/?Alvaro-Cunhal-quando-eramos-meninos---reportagem-de-Celia-de-Sousa.rtp&post=25738

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Agenda


05Abr.

Vendas Novas
Promotor Câmara Municipal de Vendas Novas
Sessão «A vertente ficção, ensaio, política de Álvaro Cunhal», na Biblioteca Municipal de Vendas Novas.
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Braga
Conferência «A Arte, o Artista e a Sociedade», pelas 14h00, na Casa dos Crivos.
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06Abr.

Moura
Promotor Teatro Fórum de Moura e Teatro Extremo
Integrado nas comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, a peça para a infância "Os Barrigas e os Magriços” a partir do conto homónimo de Álvaro Cunhal estreia a 6 de Abril em Moura.
--o--
Aveiro
Abertura da Exposição Impressa - 15 Painéis «Vida, pensamento e luta: exemplo que se projecta na actualidade e no futuro» e da Exposição «40º aniversário do 3º Congresso da Oposição Democrática», pelas 12h00, na ex-Capitania em Aveiro. As exposições estarão presentes até 26 de Abril.
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Grândola
Sessão pública/debate «Vida, pensamento e obra: exemplo que se projecta na actualidade e no futuro», pelas 16h00, no Centro de Trabalho de Grândola.
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Aveiro
Sessão Pública «Álvaro Cunhal e a construção da unidade antifascista», nos 40 anos do 3º Congresso da Oposição Democrática, pelas 17h00, na Sala de Sessões da Assembleia Municipal de Aveiro.
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Beja
Inauguração da Exposição Impressa - 15 Painéis «Vida, pensamento e luta: exemplo que se projecta na actualidade e no futuro» e Sessão sobre o livro "A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril", pelas 17h30 na Junta de Freguesia de Cabeça Gorda, em Cabeça Gorda.
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Aveiro
Música com Paredes de Vidro, Concerto para o centenário de Álvaro Cunhal, pelas 21h30, no Conservatório de Aveiro.
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07Abr.

Almada
Promotor Teatro Fórum de Moura e Teatro Extremo
Integrado nas comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, a peça para a infância "Os Barrigas e os Magriços” a partir do conto homónimo de Álvaro Cunhal estreia a 7 de Abril em Almada.




A propósito de uma iniciativa da CGTP




José    Casanova



A segunda carta

Em «carta à direcção da CGTP» (Público, 2/4), meia dúzia de «investigadores ligados às questões do trabalho» criticam severamente a central sindical por «promover uma iniciativa no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal».

Ancorados num luzido mostruário de siglas – ISCTE-IUL; CES-FEUC; UTAD; UMinho; SOCIUS-ISEG-UTL – os investigadores começam por dizer que «não está em causa a figura de Álvaro Cunhal», mas… logo adiante constata-se que é isso mesmo que está em causa: a figura de Álvaro Cunhal e a sua acção enquanto dirigente do PCP.

É claro que os investigadores, generosos, magnânimos, possuídos por elevado espírito democrático, autorizam, vá lá, que dirigentes do CGTP «possam juntar-se às comemorações» promovidas pelo PCP – o que não toleram, isso nunca, é uma comemoração promovida pela central sindical.

E explicam porquê. Fazem-no com argumentos velhos, conhecidos, sabidos, consabidos e, obviamente, fruto de laboriosa investigação. Em boa verdade, repetem, enfeitado com bambinelas de modernidade, todo o velho receituário dos ataques ao movimento sindical unitário nas últimas décadas: o blá-blá-blá das correias de transmissão, ão, ão, ão…

Corrijo-me: avançam com um argumento novo! Este: «Álvaro Cunhal foi dirigente de um partido político e não da central sindical». Brilhante!

Se os investigadores deitassem uma olhadela à obra desse «dirigente de um partido político», designadamente aos textos que, desde pelo menos o longínquo ano de 1943, produziu sobre trabalho e movimento sindical, encontrariam matéria de sobra para concluir o contrário do que concluíram. Isto porque ficariam em condições de avaliar e valorizar o contributo singular dado por Álvaro Cunhal em todo o processo de construção, fortalecimento e defesa do projecto sindical que a CGTP-IN corporiza: unitário, de classe, independente, de massas, democrático. E, por isso tudo, revolucionário. E, por isso tudo, a provocar ódios e raivas ao grande capital e aos seus propagandistas.

E se tal fizessem acabariam por concluir da necessidade imperiosa de enviar uma segunda carta à CGTP-IN: desta vez a felicitá-la pela justa homenagem que prestou a Álvaro Cunhal.

Excelente resposta a uma carta algo insólita,
se não fosse bem compreensível....
E em comentário de nossa responsabilidade,
que nada acrescentará,
não resistimos a lembrar que
a central sindical unitária é de classe,
e que o partido de que Álvaro Cunhal 
foi destacado dirigente
também é um partido de (da.mesma) classe.
não havendo, nem devendo haver, 
qualquer confusão entre as duas organizações.
S.R. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

TESTEMUNHO


ENTRE AS FLORES DE JUNHO

As tuas cinzas jazem num canteiro No último combate com a fatalIdade No derradeiro encontro das Quatro Estações Assim te semeaste nos Jardins da Terra Assim respondeste às bandeiras nos túmulos numa tarde de sol para todos nós Entre as flores de Junho

Álvaro

Saiu uma
nuvem de adeus No crematório Entre as jacarandás Vestidas de roxo

Álvaro
Tu sabias que eras criaDor Tu sabias que eras breve mas jamais ausEnte
Álvaro
Não vale a pena dizer que não morreste Vale a pena dizer o que deve ser dito Que nos ensinaste a viVer e a morrer

Álvaro
Não repetirei os passos da tua vida Não recontarei os passos da tua morte Somente lembrarei que a História da Humanidade e a História de Portugal estiveram no teu cortejo e bem se que continuarão a precisar do teu nome Para escreVer o nome do Homem

Álvaro

Lámpara
Marina em cada anoitecer Na melancolia recliNada nas janelas de Lisboa

Álvaro

Dir-te-ei Continuas
presEnte no mundo Embora te tenhas ausentado em Junho

Álvaro
Nunca será em vão chOrar por ti Mas cantaremos todos os dias Até que amanhã seja hoje
CÉSAR PRÍNCIPE 

Discurso de Álvaro Cunhal no dia da promulgação da Constituição


Comício do PCP em Odivelas


No dia que se comemora os 37 anos da Constituição da República, a Comissão das Comemorações do Centenário disponibiliza o discurso realizado por Álvaro Cunhal no comício do PCP realizado nas horas seguintes à promulgação da nova Constituição.
Álvaro Cunhal começou assim a sua intervenção:

"Camaradas, eu peço desculpa de ter chegado tão tarde a este magnífico comício. Mas a razão é simples. Tive ocasião de, como representante do nosso Partido, assistir à sessão da Assembleia Constituinte onde foi promulgada a nova Constituição. Trata-se de um acontecimento verdadeiramente importante na Revolução portuguesa, de um acontecimento importante para a consolidação da nossa democracia. As forças reaccionárias fizeram tudo, sobretudo nos últimos tempos, para impedir a aprovação e a promulgação da Constituição actual. Porque viram que a Constituição, no fim de contas, não correspondia àquilo que elas queriam que fosse, mas, pelo contrário, consagrou as liberdades e as conquistas fundamentais da Revolução. Consideramos por isso que é legítimo considerar a Constituição agora aprovada e promulgada como uma conquista das forças revolucionárias portuguesas, do nosso povo, dos militares do 25 de Abril. Há uma Constituição que está feita, que está promulgada, que é actualmente a lei fundamental do nosso país, e não só há que cumpri-la, como há que exigir a todos os reaccionários, a todos aqueles que querem liquidar as liberdades, que cumpram também esta Constituição, que é obrigatória para todos os portugueses
(...)"
Ler na íntegra aqui 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

De vez em quando, um desenho - desenhos originais -12-

Esta série de desenhos têm uma "história".
Com alguma emoção, comecei a contá-la no "blog" de 24 de Janeiro, dos primeiros deste "blog".
Melhor a procurarei contar noutras oportunidades e por outras vias.
Para este "post", deixo a chamada de atenção para a data no canto inferior direito!


de cadernosemcapa.blogspot


com saudações de amizade e camaradagem:

28/03/13

O Partido com paredes de vidro - Matosinhos

 
No próximo dia 6 de abril, a partir das 16 horas, realiza-se na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos, um debate com o tema «O Partido com paredes de vidro».
Esta iniciativa constitui a sessão inaugural da exposição sobre Álvaro Cunhal, «Vida, pensamento e obra: o exemplo que se projeta na atualidade e no futuro».

sábado, 30 de março de 2013

Sessão Cultural Evocativa - Carta aberta



Um dos maiores restos de salazarismo que perdura na nossa comunicação social, diria mesmo, um dos maiores tiques fascistas que regressam ostensivamente, é canalhice de, sempre com a desculpa dos “critérios jornalísticos” censurar e boicotar da pior forma as actividades políticas e culturais que desagradam ao poder e aos donos dos meios de comunicação.
Digo “da pior forma”, porque bastante mais ofensivo do que uma crítica má, é o fazer-se de conta que um acontecimento... não aconteceu. Ofensivo pela censura descarada e pelo facto de se ver um exército de gente que se diz jornalista, pactuando com este estado (novo) de coisas.
Assim aconteceu, mais uma vez, com o fantástico momento político/artístico que um elenco “tremendo” de artistas de várias áreas protagonizou em amizade, camaradagem e espírito de unidade, na sessão que há dias teve lugar na Aula Magna, em homenagem à figura de Álvaro Cunhal.
O silêncio que se seguiu na comunicação social foi, como “ouvimos”, verdadeiramente ensurdecedor!
Assim sendo, o nosso companheiro e autor João Monge, que escreveu boa parte do guião que acompanhou todo o espectáculo, decidiu não se ficar... e escreveu um texto para fazer correr pelas redes sociais e pela própria comunicação social que nos ignorou. Fê-lo na forma de uma carta aberta que muitos de nós, participantes ou não, já assinámos por baixo.
Para não ser injusto para com aqueles que, entretanto, já juntaram os seus nomes à carta aberta, desde que o texto me chegou às mãos, direi apenas não há participante que não se reveja neste texto do João Monge. Aqui fica:

A propósito da Sessão Cultural Evocativa do Centenário de Álvaro Cunhal

CARTA ABERTA A UM AMIGO QUE NÃO SOUBE

Fizeste-me falta, pá! Não por mim, que lá estive, mas por ti que não soubeste… Eu sei da felicidade que retiras destas coisas e da partilha que dela fazes. Foi isso que me fez falta: a tua felicidade.
Sabes como a malta é, pusemos a mesa com microfones e tudo, chamámos os jornais, chamámos as rádios, chamámos as televisões… Só para te avisar, pá. Era a forma mais expedita que tínhamos à mão, e gostávamos tanto de te ter por perto. Mas não, a coisa não saiu, ou saiu envergonhadamente. Sinais destes tempos sem vergonha.
Depois o Álvaro não é tipo que se ignore e o número era redondo – o centenário – mas mesmo assim tu ficaste sem saber. Tiraram-te esse direito.
Foi tão bonita a festa, pá.
Lembras-te daquela tirada do Álvaro que começa assim: «Arte é liberdade. É imaginação, é fantasia, é descoberta e é sonho. É criação e recriação da beleza pelo ser humano e não apenas imitação da beleza que o ser humano considera descobrir na realidade que o cerca»? Lembras-te? Foi o nosso guião. Foi o guião dos músicos, dos cantores e dos actores que passaram pelo palco. A melhor maneira de comemorar a liberdade é exercê-la e, como tu sabes, pá, evocar o Álvaro é projectá-la para os dias que hão-de vir, para as liberdades que hão-de vir. E são tantas, amigo, e são tantas as liberdades que nos faltam…
O Álvaro teve a casa cheia, pelas costuras. Tu sabes como a malta é, abrimos as portas de casa para que alguém te fizesse chegar uma pequena luz do que lá se passou. Mas, enfim, foi o costume: tiraram-te esse direito.
Fizeste-me falta, pá. Mas ainda te vou ver a sorrir. Temos uma prenda para ti: filmámos tudo. E assim damos um outro sentido à falta que me fizeste.
É que, como diz o Palma, “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar, a gente vai continuar”. 

Um abraço, pá
E até já!

João Monge