domingo, 19 de janeiro de 2014
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
A Hora das Gaivotas - João Monge
Poema (magistralmente) lido pela actriz Maria João Luís na recriação da fuga de 3 de Janeiro de 1960, realizada junto ao Forte de Peniche precisamente 54 anos depois.
A Hora das Gaivotas
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
É noite
É a espada líquida da noite
– Chicharro com pão dormido, camarada…
pão dormido…
As gaivotas ensaiam o voo tresloucado
dos papagaios de papel
Parecem ter medo de poisar,
de dar descanso ao seu coração suspenso:
O medo de calar por dentro
– … e rabanadas com três dias
– Tudo nos serve para medir o tempo
Eles não sonham…
É a mais líquida de todas as noites
Nada se conforma no seu próprio destino:
As casas,
O mar,
As gaivotas,
Os homens…
Tudo parece convergir para o ninho inevitável
onde todas as coisas regressam à sua razão de ser:
A Liberdade
(A Patética de Tchaikovsky escorre de um velho gira-discos para as paredes do
refeitório)
– É tão louco este mundo, camarada
1893, 1893. O ano da Patética, o ano do Grito de Edvard Munch
O maior grito da humanidade
– O inexplicável grito de todos nós
Em todas as casas há um coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e, protegidas pelos pais,
adivinham por detrás das cortinas
um sinal que dê sentido a tudo
Ninguém sabe o que espera
mas toda a gente espera em silêncio
É como se a terra soubesse
que há dias em que o mundo tem de ser redondo
3 de Janeiro de 1960
Às sete em ponto da tarde
Adágio–Allegro non troppo
– Nada me passa na garganta, só um grito mudo…
– A estrada ainda está deserta, nem uma luz…
Mas ele há-de vir!
– Somos 10, estamos contados
– Contemo-nos de novo:
Álvaro,
Jaime,
Joaquim,
Carlos,
Francisco,
José,
Guilherme,
Pedro,
Rogério,
Francisco.
E eu, e tu, e quem atrás de nós vier
E todos os que hão-de nascer
Com uma côdea no céu-da-boca
É por isso que o mar espalha a sua toalha bordada
na praia, aos nossos pés
para, da sua eterna sabedoria, nos prendar com a nossa igualdade
Allegro com grazia
– Pai, olha aquele carro, olha aquele carro
– Apaga a luz, apaga a luz…
– Vem com a mala aberta, devagarinho, devagarinho…
– Vem do lado das docas…
– Pai, repara, as gaivotas pousaram todas…
– … e parou em frente ao forte
É a hora das gaivotas
É a hora das gaivotas
– O homem está a sair do carro, pai…
– Sim. Vai fechar a mala, certamente…
– Olha, as gaivotas, com o som da mala a fechar, levantaram voo novamente
– São misteriosas as campainhas do destino
Allegro molto vivace
Em todas as casas há um coração suspenso
pelo medo e pela saudade
e uma boca amarrada às paredes cegas
– Francisco, rasga esses lençóis
que nos fizeram para sudários.
Todas as palavras são medidas
como as sardinhas
e quase nunca é domingo
– Vá, tu sabes dar os nós de pescador
Une as tiras e dá-lhes um nó no meio
para que as mãos encontrem mais firmeza
A terrina ocupa o centro da mesa
as crianças são servidas primeiro
Apenas o tilintar das colheres
abre feridas no silêncio das casas
E as côdeas de pão dormido
quando estalam no céu-da-boca
– Somos 10, estamos contados
A corda tem de servir 10 vezes, camarada
O jantar é em silêncio
Mas quando o cavalo azul galopa pelas muralhas
ouve-se a sua pulsação
a estalar o coração das gentes
– Pai, posso ir à janela?
– O carro já se foi embora. Não há nada para ver. Acaba a sopa
– Há, pai! As gaivotas não se calam
E as ondas batem sem conta certa
– Deixa-me apagar a luz…
– Pai, passaram dois carros grandes mesmo agora. Um seguiu em frente e o
outro está parado à porta da vizinha com as luzes apagadas
– Esperam alguém. É gente de bem
Finale — Adagio lamentoso
– Não olhes para baixo, camarada
E o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
– Pai, há uma corda a baloiçar na parede do forte…
Em todas as casas há um coração suspenso
e um lugar vazio à mesa
– Isso, conta os nós… tu sabes a conta certa
Não olhes para baixo
– Pai, o homem pôs o carro a trabalhar…
Os gritos das gaivotas cobrem com um véu de tule
os ruídos dos ossos contra as pedras
É a natureza do lado certo
– Pai, outro homem… e outro… e outro…
É o medo contaminado pela esperança
e a espada líquida da noite virada de feição
– Pai, ajuda-me… não entendo, não entendo…
– É a hora das gaivotas, meu amor!
João Monge
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Mar de Peniche - Armando Silva Carvalho
Mar
de Peniche
1
Todos os dias
acordam
violadas
estas praias
que dizemos virgens.
2
A chuva
esse suor
do mar
já não desfaz
a solidão dos homens
ou o piar dos corvos.
3
Mar de Peniche
onde os peixes se atiram
contra os barcos
e as grutas dos rochedos
nada acoitam.
4
As traineiras
juntam-se a dormir.
Mas o mar não esquece
e grita
contra a fortaleza.
5
O mar
sorveu
todo este dia
exausto.
E o que fica
da praia
são estas pedras
lassas
transidas
pelo sono.
6
O que dica
das pedras
é este mar
de sono
que os homens
já submersos
sorvem
a curtos
haustos.
7
O que fica
da noite
são os presos
exaustos
que as pedras
dissimulam
e o mar
absorveu.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




