«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

SETUBAL - Teatro recria a vida de Álvaro Cunhal na prisão



Uma peça de teatro recria a vida de Álvaro Cunhal na prisão. "A Estrela de Seis Pontas" está em cena no Teatro Animação de Setúbal até este fim de semana.


31 Jan, 2014, 10:52

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

ALBUFEIRA



Câmara de Albufeira abre nova sala de leitura para o arquivo histórico



O Arquivo Histórico Municipal de Albufeira abriu uma nova sala de leitura, onde funcionavam as antigas instalações da ludoteca, espaço agora reafetado exclusivamente para consulta da documentação mais antiga do concelho.

No novo espaço, que funcionará de segunda a sexta-feira, das 9:00 horas às 12:30 e das 13:30 às 17:00, poderão ser observadas e lidas as atas de reuniões de câmara e de vereação e coleções de fotografias.

“A salvaguarda da documentação produzida pela câmara no decurso da sua atividade, bem como a valorização e divulgação de um património arquivístico fundamental para a construção e preservação da memória coletiva do concelho fazem parte dos objetivos daquele equipamento”, explica a autarquia de Albufeira, em comunicado.

Paralelamente à consulta de documentos, quem se deslocar às novas instalações do arquivo histórico pode aproveitar para ver a exposição «Desenhos da Prisão».

A
mostra, que vai estar patente ao público até ao próximo dia 9 de junho, insere-se no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal e exibe a faceta de artista plástico do grande líder político e pensador português.


A partir de agora, o arquivo fica a funcionar com dois polos: o edifício principal no beco José Bernardino de Sousa, perto do museu municipal, onde é possível encontrar toda a documentação respeitante ao período que vai de 1504 a 2001 (a informação referente à Câmara Municipal de Albufeira, Administrador do Concelho de Albufeira e Cine-Pax) e a nova sala de leitura, na Rua João Bailote.

“Esta nova realidade traduz o esforço contínuo da autarquia para melhorar o funcionamento e a qualidade dos serviços prestados à população”, refere a câmara de Albufeira.

O arquivo histórico de Albufeira encontra-se instalado num edifício de construção muito antiga que terá sido, em séculos passados, dependência da casa dos Alcaides e casa de repeso de carvão.

Em 1992, graças à sua localização, bem no centro do Cerro da Vila, zona primitiva da urbe, dentro do perímetro da muralha e na proximidade da rampa que dava acesso à porta do Castelo, o edifício sofreu obras de adaptação para funcionar como arquivo histórico.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A Hora das Gaivotas - João Monge

Poema (magistralmente) lido pela actriz Maria João Luís na recriação da fuga de 3 de Janeiro de 1960, realizada junto ao Forte de Peniche precisamente 54 anos depois.

A Hora das Gaivotas

Em todas as casasum coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
É noite
É a espada líquida da noite
Chicharro com pão dormido, camarada
pão dormido
As gaivotas ensaiam o voo tresloucado
dos papagaios de papel
Parecem ter medo de poisar,
de dar descanso ao seu coração suspenso:
O medo de calar por dentro
– … e rabanadas com três dias
Tudo nos serve para medir o tempo
Eles não sonham
É a mais líquida de todas as noites
Nada se conforma no seu próprio destino:
As casas,
O mar,
As gaivotas,
Os homens
Tudo parece convergir para o ninho inevitável
onde todas as coisas regressam à sua razão de ser:
A Liberdade
(A Patética de Tchaikovsky escorre de um velho gira-discos para as paredes do
refeitório)
É tão louco este mundo, camarada
1893, 1893. O ano da Patética, o ano do Grito de Edvard Munch
O maior grito da humanidade
O inexplicável grito de todos nós
Em todas as casasum coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e, protegidas pelos pais,
adivinham por detrás das cortinas
um sinal que sentido a tudo
Ninguém sabe o que espera
mas toda a gente espera em silêncio
É como se a terra soubesse
quedias em que o mundo tem de ser redondo
3 de Janeiro de 1960
Às sete em ponto da tarde
Adágio–Allegro non troppo
Nada me passa na garganta, um grito mudo
A estrada ainda está deserta, nem uma luz
Mas ele há-de vir!
Somos 10, estamos contados
Contemo-nos de novo:
Álvaro,
Jaime,
Joaquim,
Carlos,
Francisco,
José,
Guilherme,
Pedro,
Rogério,
Francisco.
E eu, e tu, e quem atrás de nós vier
E todos os que hão-de nascer
Com uma côdea no céu-da-boca
É por isso que o mar espalha a sua toalha bordada
na praia, aos nossos pés
para, da sua eterna sabedoria, nos prendar com a nossa igualdade
Allegro com grazia
Pai, olha aquele carro, olha aquele carro
Apaga a luz, apaga a luz
Vem com a mala aberta, devagarinho, devagarinho…
Vem do lado das docas
Pai, repara, as gaivotas pousaram todas…
– … e parou em frente ao forte
É a hora das gaivotas
É a hora das gaivotas
O homem está a sair do carro, pai
Sim. Vai fechar a mala, certamente
Olha, as gaivotas, com o som da mala a fechar, levantaram voo novamente
São misteriosas as campainhas do destino
Allegro molto vivace
Em todas as casasum coração suspenso
pelo medo e pela saudade
e uma boca amarrada às paredes cegas
Francisco, rasga esses lençóis
que nos fizeram para sudários.
Todas as palavras são medidas
como as sardinhas
e quase nunca é domingo
Vá, tu sabes dar os nós de pescador
Une as tiras e dá-lhes um no meio
para que as mãos encontrem mais firmeza
A terrina ocupa o centro da mesa
as crianças são servidas primeiro
Apenas o tilintar das colheres
abre feridas no silêncio das casas
E as côdeas de pão dormido
quando estalam no céu-da-boca
Somos 10, estamos contados
A corda tem de servir 10 vezes, camarada
O jantar é em silêncio
Mas quando o cavalo azul galopa pelas muralhas
ouve-se a sua pulsação
a estalar o coração das gentes
Pai, posso ir à janela?
O carro se foi embora. Nãonada para ver. Acaba a sopa
Há, pai! As gaivotas não se calam
E as ondas batem sem conta certa
Deixa-me apagar a luz
Pai, passaram dois carros grandes mesmo agora. Um seguiu em frente e o
outro está parado à porta da vizinha com as luzes apagadas
Esperam alguém. É gente de bem
Finale — Adagio lamentoso
Não olhes para baixo, camarada
E o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
Pai, há uma corda a baloiçar na parede do forte
Em todas as casasum coração suspenso
e um lugar vazio à mesa
Isso, conta os nóstu sabes a conta certa
Não olhes para baixo
Pai, o homem pôs o carro a trabalhar
Os gritos das gaivotas cobrem com um véu de tule
os ruídos dos ossos contra as pedras
É a natureza do lado certo
Pai, outro homem… e outro… e outro
É o medo contaminado pela esperança
e a espada líquida da noite virada de feição
Pai, ajuda-me… não entendo, não entendo…
É a hora das gaivotas, meu amor!
João Monge