«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Álvaro Cunhal faria 102 anos no dia em que o PCP faz cair o Governo



Álvaro Cunhal faria 102 anos no dia em que o PCP faz cair o Governo
Álvaro Cunhal, o líder histórico do Partido Comunista Português completaria, esta terça-feira, dia 10, 102 anos de vida. Referência maior do PCP, ainda que tenham passado dez anos sobre a sua morte e 23 desde que cedeu o lugar de secretário-geral a Carlos Carvalhas, o aniversário do homem que viveu quase 91 anos de vida de punho erguido passou despercebido num dia também ele histórico para o PCP.

domingo, 13 de setembro de 2015

texto e ilustração de excelência

Aljube, Lisboa: Homens fechados em gavetas

Alexandra Prado Coelho (Texto) e Mónica Cid (Ilustração)  Público 13/9/2015

O telefone ainda toca no corredor das celas de isolamento da prisão do Aljube, pela qual passaram milhares de presos políticos durante o Estado Novo.
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Avanço sozinha pelo corredor silencioso e, de repente, o coração salta-me no peito. Um telefone pendurado na parede começou a tocar. Olho em redor. Não há ninguém. É um toque roufenho, meio abafado, um som vindo de outros tempos, quando os telefones tocavam assim. Vejo uma pequena mesa de madeira com um tampo de vidro debaixo do qual está uma página de um velho jornal desportivo, boletins antigos do totobola e fichas de registos. Encostada à mesa, uma cadeira.
Dou mais um passo. Estou em frente a um corredor. À direita, as janelas dão para o edifício da Sé de Lisboa, do outro lado da rua. À esquerda, uma sucessão de portas cinzentas. Esta é a réplica do corredor dos curros — as celas de isolamento — da antiga prisão do Aljube, pela qual passaram milhares de presos políticos no período do Estado Novo. A mesa de madeira é a do guarda e o telefone é igual ao que tocava para avisar que um prisioneiro ia ser levado para as sessões de interrogatório e tortura, que aconteciam normalmente na sede da PIDE, a polícia política do Estado Novo, na Rua António Maria Cardoso.
Aproximo-me da primeira porta, que está entreaberta. Tenho novo sobressalto. Depois de um espaço pequeno, uma espécie de hall estreito, há uma segunda porta, e atrás dessa, de cabeça encostada às grades, está a figura de um homem. No segundo curro, um ecrã transmite um excerto de uma entrevista a Álvaro Cunhal na qual o dirigente comunista recorda o que eram as condições de detenção no Aljube e como se resistia, ou não, a estas células de isolamento e à tortura.

Terceira porta, uma cela vazia. Paredes nuas, tecto alto e mais nada. Na quarta cela há um catre, onde o preso se deitava ou sentava — eram catres basculantes, seguros à parede por dobradiças e que quando estavam para baixo não deixavam mais do que 15 centímetros até à parede oposta. Nestes espaços, também conhecidos como “gavetas”, cabe apenas um homem deitado. Aí passavam os dias, numa semi-obscuridade ou numa total escuridão se os guardas decidiam fechar o postigo de 15 por 20 centímetros através do qual entrava algum ar e (pouca) luz. Para ir à casa-de-banho era preciso chamar o guarda e esperar que este se dispusesse a acompanhar o preso — ficando sempre a porta aberta.
“Uma angustiosa sensação de asfixia e desespero” — foi assim que Arlindo Vicente, antigo candidato à Presidência pela Oposição Democrática, descreveu o que se sentia sentado na escuridão de uma destas “gavetas”, onde o preso não podia ter nada. As horas passavam desesperantemente iguais e escuras, sem um papel e um lápis ou um livro. Silêncio, escuridão, isolamento, quatro paredes, um metro por dois de espaço vital, com sorte dois passos para cada lado se o catre estivesse levantado — restavam apenas as estratégias que cada um inventava para ir aguentando, um dia de cada vez.
E, no meio disto, de vez em quando, a campainha rouca do telefone na parede a chamar o próximo. Podemos tentar imaginar. O toque a ecoar em cada cela, o baque e o frio na barriga, o som da cadeira de madeira do guarda a arrastar no chão de pedra enquanto ele se levantava para atender.
Num cartaz ao lado do telefone, há uma descrição desse momento: “O carcereiro levantava-se e, ao percorrer o corredor, fazia tilintar o enorme molho de chaves que trazia à cintura ou na mão, abria e fechava postigos, muitas vezes repetindo esse percurso até se deter numa cela e anunciar, depois de escancarar a porta de madeira, ‘prepare-se para ir à polícia!’”.
O Aljube, nome que vem do tempo dos muçulmanos, tem uma história antiga, muito anterior ao Estado Novo, mas funcionou sempre como prisão, primeiro para presos do foro eclesiástico (até 1820), depois para mulheres acusadas de delitos comuns (até 1920) e finalmente para presos políticos do Estado Novo (de 1928 até 1965). Quando, no Verão de 1965, o Aljube encerrou — na sequência de muitos protestos e da constatação da própria PIDE de que a prisão não tinha condições de segurança e higiene — o andar dos curros foi totalmente destruído.
Hoje está instalado no Aljube o Museu da Resistência e Liberdade, que inaugurou a 25 de Abril deste ano.

E, para que nunca mais ninguém esqueça ou possa dizer que não sabia, o velho telefone rouco pendurado na parede continua a tocar.

http://s.publico.pt/NOTICIA/1707385http://s.publico.pt/25-de-abril/1707385http://s.publico.pt/lisboa/1707385http://s.publico.pt/portugal/1707385http://s.publico.pt/historia/1707385http://s.publico.pt/pide/1707385http://s.publico.pt/prisoes/1707385http://s.publico.pt/estado-novo/1707385

domingo, 14 de junho de 2015

Um trabalho sério



O que lhes vem à cabeça quando pensam em Cunhal?
Jornal i
No dia em que se assinalam dez anos da morte de Álvaro Cunhal, fomos para a rua perceber que imagens guardam os portugueses do líder comunista.

Lançámos um primeiro desafio, reconhecer Cunhal em duas fotografias: uma da sua juventude, outra mais recente. Tido por muitos como o melhor político de sempre, Álvaro Cunhal é reconhecido pela fisionomia do seu rosto e pela coerência política que manteve ao longo da vida. Qualquer semelhança física com Salazar será pura coincidência de um estilo muito próprio daquele tempo.

Lúcia Ferraz, 68 anos

Não foi preciso mostrar a fotografia mais recente. “Será Salazar? Não, não.  É Álvaro Cunhal, não é?”. Pensava alto. Quando lhe mostrámos o segundo retrato, Lúcia, que tinha algumas reticências iniciais, ficou cheia de certezas. “Ah, sim. Vendo bem, Salazar não podia ser por causa do nariz e das sobrancelhas”, diz, apontando detalhadamente para os traços característicos. “Era um homem muito bonito. Sempre fui fã da obra dele.”

Joaquim Arsénio, 60 anos

“É uma pena ter morrido, revejo-me totalmente na política dele”. Joaquim fala com uma certa nostalgia do tempo do comunismo de Cunhal: “As coisas mudaram e o partido já não é o que era. As pessoas foram morrendo, a União Soviética desapareceu”. E um desencantamento face à política de hoje: “Mas digo-lhe uma coisa, se as pessoas parassem para pensar, votariam no PCP. Mas têm memória curta”, lamenta.


Rui Ramos, 55 anos

“Era um homem forte e lutador, tinha persistência no seu pensamento. Associo-o à liberdade que temos hoje. Tinha uma maneira de ser levado a sério que hoje os políticos não têm”, opina. Mas acima de tudo, aquilo que Rui sente é respeito pela figura que Cunhal foi, pela maneira como fez política de forma sempre coerente com ele próprio e com os ideais que defendeu ao longo da sua vida, apesar das adversidades.


Carolina Ribeiro, 19 anos

“Foi um preso político do antigo regime e por isso associo-o ao 25 de Abril. Esteve preso em Peniche. Sei disso porque até fui visitar a prisão”, diz Carolina. Essa é a primeira coisa que lhe vem à cabeça. “Sei também que desenhava bem e que pintava quadros. Mas não sei muito mais. Nas aulas de História não demos muito sobre Cunhal. Na nossa geração, só quem é autodidata é que poderá saber mais sobre o que fez e quem foi Cunhal”.


José Saraiva, 70 anos

“Era um homem lutador, um ‘pugilista’ apesar de ser magro. Foi um dos melhores ativistas portugueses. Deu a cara pela liberdade sem medo de morrer”, recorda. José, que está desencantado com a política, considera Cunhal “um dos maiores políticos que Portugal já teve”.  Recorda o tempo dos comícios na sua empresa, em 1975-1976, onde Cunhal discursava. “Agora a melhor profissão para se ter é a de corrupto”, ironiza.


Sara Boto, 16 anos

Sara não reconheceu nenhuma das fotografias, nem sabe dizer quem foi Cunhal. Tem uma boa justificação: quando o antigo dirigente do PCP morreu, Sara tinha só seis anos. Mas a mãe, Ana Margarida, de 53 anos, elucida-a: “Foi um dos políticos mais importantes antes do 25 de Abril. Lembro-me dos debates acesos que fazia. Antes os políticos agiam pela necessidade de intervir, agora é para se servirem a si próprios”


Isa Santos, 39 anos

Poderíamos interferir no primeiro pensamento que Isa teve sobre Cunhal para não ter palavras repetidas? Podíamos, mas não era a mesma coisa. Isa pensou duas e três vezes, a única que servia era mesmo “Liberdade”. Para a contabilista, Álvaro Cunhal foi um político que passou uma vida inteira a lutar pelos direitos do povo e dos trabalhadores. Mas não só: “escreveu vários livros e recentemente até saíram uns cartoons dele”, lembra.

Miguel dos Anjos, 56 anos
Para Miguel, Cunhal era austero, mas no sentido virtuoso. “Ser austero na vida, na relação com os outros, não significa privar os outros de nada”, esclarece. “Cunhal era austero porque impunha limites naquilo que é o poder, e noutras dimensões da vida. Era um homem sério, sensato, culto, não foi um oportunista. Não sei se foi o maior político de Portugal, mas duvido que o próprio PCPconsiga atingir níveis de coerência que Cunhal exemplificou.”