“Conheci pessoalmente o dr. Álvaro
Cunhal no Conselho de Estado criado pela revisão constitucional de 1982.
Vestido sempre impecavelmente com fato escuro protocolar, Mota Amaral e eu gostávamos
de falar com ele quando do coffee-break das reuniões, pois era uma pessoa
interessantíssima, culta, muito bem-educada, a revelar a sua ‘origem de classe’
na alta burguesia. Curiosamente, nesses intervalos, isolava-se num canto da
sala, observando. Os membros do Conselho mais à ‘esquerda’ não se lhe
aproximavam muito, mas recebia-nos muito bem, ao João Bosco e a mim. Tinha um
certo espírito de humor, mas era sempre formal na conversa (embora eu me
metesse com ele, por num seu livro me tratar por ‘líder reacionário’).”
Do livro, “Alberto João
Jardim na Primeira Pessoa”
Odiario.info publica hoje dois
textos sobre dois dos mais notáveis intelectuais e revolucionários comunistas
portugueses: Álvaro Cunhal e Bento de Jesus Caraça.
Ambos provaram saber que a sua integração na luta do povo e da classe operária
portugueses era um processo de transformação: deles, intelectuais, e dos que
com eles lutavam e integravam o Partido Comunista Português.
Álvaro Cunhal distinguiu-se como político, organizador, artista e escritor que
soube colocar o seu talento, intelecto e determinação ao serviço do povo, Bento
Caraça, apesar de ter morrido prematuramente aos 47 anos de idade, tinha « uma
conceção de cultura [é] alheia a todo o elitismo e [é] radicalmente
democrática», tendo tido um papel determinante na criação e organização da
Biblioteca Cosmos e da Universidade Popular, de que hoje, mais de 70 anos
volvidos após a sua criação, ainda se sentem os efeitos.
Este texto é sobre o encontro dedicado a Álvaro Cunhal no Museu do Aljube, sob
o tema Intelectuais e Artistas da Resistência.
O Museu do Aljube continuou um ciclo
de encontros sob o tema Intelectuais e Artistas da Resistência, cujo objectivo
é a «evocação da vida e obra de artistas, de homens de letras e de cientistas
que se opuseram pela vida e a obra, à ditadura fascista».
O primeiro, a 29 de Abril, foi
Manuel Tiago/ Álvaro Cunhal. Seguir-se-ão José Afonso, 27 de Maio, Bento Jesus
Caraça, 17 de Junho e Maria Lamas, 1 de Julho.
A referência a Manuel Tiago/Álvaro
Cunhal percebe-se pela maior notoriedade e divulgação da obra literária de
Álvaro Cunhal, ainda que seja algo redutora no contexto do seu trabalho
intelectual que decorreu em paralelo com a sua intensa actividade política,
prática e teórica, onde se afirma como um dos maiores e mais influentes
pensadores do marxismo-leninismo. Uma constatação que é uma evidência ao ler as
suas Obras Escolhidas, onde se revelam textos cuja autoria a clandestinidade
obrigou ao anonimato ou ao recurso a pseudónimo e se sistematizam os produzidos
depois do 25 de Abril.
No encontro no Museu do Aljube, a
tónica incidiu no trabalho de Álvaro Cunhal na área das artes visuais e da
literatura que foi conhecido em circunstâncias especiais. O escritor Manuel
Tiago desoculta-se quando se sabe que um académico especulava sobre quem seria
a pessoa que usava esse criptónimo e o iria atribuir a outro que não Álvaro
Cunhal, o que o compeliu a reivindicar a autoria dos romances e novelas, só conhecido
por um grupo restritíssimo de camaradas. Os desenhos da prisão, organizados em
duas séries, foram editados com o objectivo declarado de angariar fundos para o
Partido. Nenhum estava assinado, nenhum foi assinado. Só mais tarde, no
contexto das celebrações do seu centenário, é que na XVIII Bienal das Artes
Plásticas da Festa do Avante! se conheceram pinturas e desenhos de alguém que,
confrontado com o seu talento, dizia que gostaria de ter tido tempo para
«aprender a pintar».
No debate, um dos intervenientes
levantou a questão de haver comunistas escritores, como Álvaro Cunhal ou Soeiro
Pereira Gomes e escritores comunistas como José Saramago ou Alves Redol. Um
ponto de vista interessante para a análise crítica de obras em que a actividade
política é central na actividade intelectual. De facto, tanto a obra literária
como a obra pictórica de Álvaro Cunhal têm sempre como referência realidades
bem conhecidas pelo autor no seu percurso político. Esse conhecimento é bem
presente mesmo na tradução do Rei Lear de Shakespeare, nas notas que explicam
opções linguísticas e enquadramentos históricos e sociais.
A diferença maior entre as duas
áreas criativas onde Álvaro Cunhal imprimiu as suas aptidões está nos ambientes
onde decorrem as acções. Nos desenhos, os lugares não são passíveis de
reconhecimento, são abstractos. São raros os elementos arquitectónicos, quando
existem não dão indicações sobre os lugares. O espaço tem a função de conferir
profundidade e liberdade ao movimento das figuras, às situações. Na literatura
os espaços são descritos nos elementos visíveis que até os tornam
identificáveis o que se contrapõe aos espaços abertos dos desenhos em oposição
ao espaço a que o autor estava confinado.
Nos romances é surpreendente, para
quem não conhecia Álvaro Cunhal, a multifacetada riqueza humana das
personagens. Nenhuma é linear nas suas grandezas e nas suas fraquezas. Mesmo os
politicamente mais indiferentes, de duvidosos princípios éticos, são capazes de
um súbito gesto de desprendimento como o passador de Cinco Dias, Cinco Noites.
Nas intervenções introdutórias e no
debate sublinhou-se o profundo humanismo e a enorme dimensão intelectual e
política de Álvaro Cunhal que o tornam uma das personalidades mais marcantes e
mais fascinantes da História de Portugal. O artista e escritor que Álvaro
Cunhal não foi o que poderia ter sido porque, como escreveu no prefácio de A
Arte, o Artista e a Sociedade, «o absorvente empenhamento noutra direcção de
actividade impediu a realização do projecto. Por razões óbvias, o que não foi
possível já não o será». O projecto era rever e actualizar esse ensaio.
Aplica-se a toda a obra artística que nos legou independentemente da qualidade
alcançada.
1. Álvaro Cunhal na sua intervenção na Conferência Nacional do PCP sobre “A
Emancipação da Mulher no Portugal de Abril” em 1986dirigiu um apelo às mulheres: “tomai o destino nas próprias
mãos”.
Ao longo de décadas as mulheres, em
especial as mulheres trabalhadoras foram protagonistas de duras lutas. No
fascismo a luta das mulheres integrou a luta contra a ditadura fascista, contra
a repressão e a opressão, pela liberdade, os direitos e a democracia. A luta
das mulheres foi determinante na Revolução de Abril e na consagração de
direitos fundamentais na Constituição da República Portuguesa. Hoje a luta das
mulheres continua a ser determinante na batalha pela efetiva igualdade na lei e
na vida.
No passado as mulheres nunca
deixaram em mãos alheias a defesa dos seus direitos. É essencial que hoje as
mulheres tomem nas suas mãos a construção do futuro.
2. Comemoramos hoje o Dia Internacional da Mulher, dia que decorre exatamente
da luta das mulheres trabalhadoras por melhores condições de vida, por melhores
salários e pela jornada de trabalho de oito horas.
O Dia Internacional da Mulher é um
dia de ação, intervenção e luta. É um dia para denunciar as violações dos
direitos das mulheres que ainda perduram e as desigualdades e descriminações a
que são sujeitas e lutar pela emancipação das mulheres e a concretização dos
seus direitos no plano político, económico, social e cultural.
A Voz das Mulheres pela Igualdade |
Direitos | Desenvolvimento | Paz é o mote para uma Manifestação Nacional de
Mulheres convocada pelo Movimento Democrático de Mulheres no próximo dia 11 de
março, em Lisboa. A participação das mulheres é determinante para a emancipação
das mulheres.
3. Apesar dos avanços no nosso país persistem desigualdades e discriminações.
No mundo do trabalho verificam-se
inúmeras discriminações salariais. A média dos salários auferidos pelas
mulheres é inferior à média dos salários auferidos pelos homens. São mais as
mulheres que auferem o salário mínimo nacional e são as mulheres as mais
afetadas pela precariedade e o desemprego.
Os direitos de maternidade e
paternidade continuam a ser constantemente violados pelas entidades patronais.
A pressão exercida pelas entidades patronais para que as mulheres abdiquem de
gozarem os direitos de maternidade e paternidade previsto no quadro legal, a
negação do exercício destes direitos e o despedimento ou não renovação de
contratos de trabalho com mulheres grávidas ou puérperas, são exemplos
concretos de desrespeito pelos direitos de maternidade e paternidade
A luta pela igualdade entre homens e
mulheres em toda a sua plenitude (nas dimensões política, económica, social e
cultural) é parte integrante da luta pela política patriótica e de esquerda,
pela produção nacional, pela criação de emprego com direitos, pela valorização
de salários e reformas, pela defesa do Serviço Nacional de Saúde, a Escola
Pública, a proteção social, o acesso à cultura e pela afirmação da soberania.
4. Hoje comemoramos os 10 anos da aprovação da despenalização da interrupção
voluntária da gravidez. 10 anos sem criminalizar as mulheres que se sujeitavam
às malhas do aborto clandestino, sem condições, sem dignidade, colocando
inclusivamente a sua vida em risco. 10 anos em que as mulheres puderam fazer a
sua livre opção sem condicionalismos.
A despenalização da interrupção
voluntária da gravidez constituiu um enorme avanço em matéria de direitos
sexuais e reprodutivos, apesar de ainda existirem forças conservadoras e
reacionárias que pretendem voltar atrás.
Há ainda um longo caminho a
percorrer para assegurar os direitos sexuais e reprodutivos a todas as
mulheres. É preciso reforçar o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública
para que o planeamento familiar, a saúde materna, os tratamentos de
infertilidade ou a educação sexual sejam uma realidade.
*
Neste dia, saúdo hoje todas as
mulheres, as mulheres trabalhadoras, as mulheres reformadas, as jovens mulheres
e apelo a que não se resignem, nem se conformem e com combatividade e
determinação lutem pela igualdade na lei e na vida.
"Beleza é um critério e um
juizo humano. Desaparecido o sujeito que tem tal critério ou formula tal juizo,
o mundo poderia ficar tal qual é, mas como afirmar que, sem o homem,
continuaria a ser belo? Belo para quem?"