«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

terça-feira, 11 de abril de 2017

De um "líder reacionário"



ÁLVARO CUNHAL

“Conheci pessoalmente o dr. Álvaro Cunhal no Conselho de Estado criado pela revisão constitucional de 1982. Vestido sempre impecavelmente com fato escuro protocolar, Mota Amaral e eu gostávamos de falar com ele quando do coffee-break das reuniões, pois era uma pessoa interessantíssima, culta, muito bem-educada, a revelar a sua ‘origem de classe’ na alta burguesia. Curiosamente, nesses intervalos, isolava-se num canto da sala, observando. Os membros do Conselho mais à ‘esquerda’ não se lhe aproximavam muito, mas recebia-nos muito bem, ao João Bosco e a mim. Tinha um certo espírito de humor, mas era sempre formal na conversa (embora eu me metesse com ele, por num seu livro me tratar por ‘líder reacionário’).”

Do livro, “Alberto João Jardim na Primeira Pessoa”


quinta-feira, 30 de março de 2017

Álvaro Cunhal no Museu do Aljube

 

Odiario.info publica hoje dois textos sobre dois dos mais notáveis intelectuais e revolucionários comunistas portugueses: Álvaro Cunhal e Bento de Jesus Caraça.
Ambos provaram saber que a sua integração na luta do povo e da classe operária portugueses era um processo de transformação: deles, intelectuais, e dos que com eles lutavam e integravam o Partido Comunista Português.
Álvaro Cunhal distinguiu-se como político, organizador, artista e escritor que soube colocar o seu talento, intelecto e determinação ao serviço do povo, Bento Caraça, apesar de ter morrido prematuramente aos 47 anos de idade, tinha «… uma conceção de cultura [é] alheia a todo o elitismo e [é] radicalmente democrática», tendo tido um papel determinante na criação e organização da Biblioteca Cosmos e da Universidade Popular, de que hoje, mais de 70 anos volvidos após a sua criação, ainda se sentem os efeitos.
Este texto é sobre o encontro dedicado a Álvaro Cunhal no Museu do Aljube, sob o tema Intelectuais e Artistas da Resistência.
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O Museu do Aljube continuou um ciclo de encontros sob o tema Intelectuais e Artistas da Resistência, cujo objectivo é a «evocação da vida e obra de artistas, de homens de letras e de cientistas que se opuseram pela vida e a obra, à ditadura fascista».
O primeiro, a 29 de Abril, foi Manuel Tiago/ Álvaro Cunhal. Seguir-se-ão José Afonso, 27 de Maio, Bento Jesus Caraça, 17 de Junho e Maria Lamas, 1 de Julho.
A referência a Manuel Tiago/Álvaro Cunhal percebe-se pela maior notoriedade e divulgação da obra literária de Álvaro Cunhal, ainda que seja algo redutora no contexto do seu trabalho intelectual que decorreu em paralelo com a sua intensa actividade política, prática e teórica, onde se afirma como um dos maiores e mais influentes pensadores do marxismo-leninismo. Uma constatação que é uma evidência ao ler as suas Obras Escolhidas, onde se revelam textos cuja autoria a clandestinidade obrigou ao anonimato ou ao recurso a pseudónimo e se sistematizam os produzidos depois do 25 de Abril.
No encontro no Museu do Aljube, a tónica incidiu no trabalho de Álvaro Cunhal na área das artes visuais e da literatura que foi conhecido em circunstâncias especiais. O escritor Manuel Tiago desoculta-se quando se sabe que um académico especulava sobre quem seria a pessoa que usava esse criptónimo e o iria atribuir a outro que não Álvaro Cunhal, o que o compeliu a reivindicar a autoria dos romances e novelas, só conhecido por um grupo restritíssimo de camaradas. Os desenhos da prisão, organizados em duas séries, foram editados com o objectivo declarado de angariar fundos para o Partido. Nenhum estava assinado, nenhum foi assinado. Só mais tarde, no contexto das celebrações do seu centenário, é que na XVIII Bienal das Artes Plásticas da Festa do Avante! se conheceram pinturas e desenhos de alguém que, confrontado com o seu talento, dizia que gostaria de ter tido tempo para «aprender a pintar».
No debate, um dos intervenientes levantou a questão de haver comunistas escritores, como Álvaro Cunhal ou Soeiro Pereira Gomes e escritores comunistas como José Saramago ou Alves Redol. Um ponto de vista interessante para a análise crítica de obras em que a actividade política é central na actividade intelectual. De facto, tanto a obra literária como a obra pictórica de Álvaro Cunhal têm sempre como referência realidades bem conhecidas pelo autor no seu percurso político. Esse conhecimento é bem presente mesmo na tradução do Rei Lear de Shakespeare, nas notas que explicam opções linguísticas e enquadramentos históricos e sociais.
A diferença maior entre as duas áreas criativas onde Álvaro Cunhal imprimiu as suas aptidões está nos ambientes onde decorrem as acções. Nos desenhos, os lugares não são passíveis de reconhecimento, são abstractos. São raros os elementos arquitectónicos, quando existem não dão indicações sobre os lugares. O espaço tem a função de conferir profundidade e liberdade ao movimento das figuras, às situações. Na literatura os espaços são descritos nos elementos visíveis que até os tornam identificáveis o que se contrapõe aos espaços abertos dos desenhos em oposição ao espaço a que o autor estava confinado.
Nos romances é surpreendente, para quem não conhecia Álvaro Cunhal, a multifacetada riqueza humana das personagens. Nenhuma é linear nas suas grandezas e nas suas fraquezas. Mesmo os politicamente mais indiferentes, de duvidosos princípios éticos, são capazes de um súbito gesto de desprendimento como o passador de Cinco Dias, Cinco Noites.
Nas intervenções introdutórias e no debate sublinhou-se o profundo humanismo e a enorme dimensão intelectual e política de Álvaro Cunhal que o tornam uma das personalidades mais marcantes e mais fascinantes da História de Portugal. O artista e escritor que Álvaro Cunhal não foi o que poderia ter sido porque, como escreveu no prefácio de A Arte, o Artista e a Sociedade, «o absorvente empenhamento noutra direcção de actividade impediu a realização do projecto. Por razões óbvias, o que não foi possível já não o será». O projecto era rever e actualizar esse ensaio. Aplica-se a toda a obra artística que nos legou independentemente da qualidade alcançada.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Paula Santos no Dia Internacional da Mulher




Igualdade na lei e na vida
08.03.2017  Expresso
1. Álvaro Cunhal na sua intervenção na Conferência Nacional do PCP sobre “A Emancipação da Mulher no Portugal de Abril” em 1986 dirigiu um apelo às mulheres: “tomai o destino nas próprias mãos”.
Ao longo de décadas as mulheres, em especial as mulheres trabalhadoras foram protagonistas de duras lutas. No fascismo a luta das mulheres integrou a luta contra a ditadura fascista, contra a repressão e a opressão, pela liberdade, os direitos e a democracia. A luta das mulheres foi determinante na Revolução de Abril e na consagração de direitos fundamentais na Constituição da República Portuguesa. Hoje a luta das mulheres continua a ser determinante na batalha pela efetiva igualdade na lei e na vida.
No passado as mulheres nunca deixaram em mãos alheias a defesa dos seus direitos. É essencial que hoje as mulheres tomem nas suas mãos a construção do futuro.
2. Comemoramos hoje o Dia Internacional da Mulher, dia que decorre exatamente da luta das mulheres trabalhadoras por melhores condições de vida, por melhores salários e pela jornada de trabalho de oito horas.
O Dia Internacional da Mulher é um dia de ação, intervenção e luta. É um dia para denunciar as violações dos direitos das mulheres que ainda perduram e as desigualdades e descriminações a que são sujeitas e lutar pela emancipação das mulheres e a concretização dos seus direitos no plano político, económico, social e cultural.
A Voz das Mulheres pela Igualdade | Direitos | Desenvolvimento | Paz é o mote para uma Manifestação Nacional de Mulheres convocada pelo Movimento Democrático de Mulheres no próximo dia 11 de março, em Lisboa. A participação das mulheres é determinante para a emancipação das mulheres.
3. Apesar dos avanços no nosso país persistem desigualdades e discriminações.
No mundo do trabalho verificam-se inúmeras discriminações salariais. A média dos salários auferidos pelas mulheres é inferior à média dos salários auferidos pelos homens. São mais as mulheres que auferem o salário mínimo nacional e são as mulheres as mais afetadas pela precariedade e o desemprego.
Os direitos de maternidade e paternidade continuam a ser constantemente violados pelas entidades patronais. A pressão exercida pelas entidades patronais para que as mulheres abdiquem de gozarem os direitos de maternidade e paternidade previsto no quadro legal, a negação do exercício destes direitos e o despedimento ou não renovação de contratos de trabalho com mulheres grávidas ou puérperas, são exemplos concretos de desrespeito pelos direitos de maternidade e paternidade
A luta pela igualdade entre homens e mulheres em toda a sua plenitude (nas dimensões política, económica, social e cultural) é parte integrante da luta pela política patriótica e de esquerda, pela produção nacional, pela criação de emprego com direitos, pela valorização de salários e reformas, pela defesa do Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública, a proteção social, o acesso à cultura e pela afirmação da soberania.
4. Hoje comemoramos os 10 anos da aprovação da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. 10 anos sem criminalizar as mulheres que se sujeitavam às malhas do aborto clandestino, sem condições, sem dignidade, colocando inclusivamente a sua vida em risco. 10 anos em que as mulheres puderam fazer a sua livre opção sem condicionalismos.
A despenalização da interrupção voluntária da gravidez constituiu um enorme avanço em matéria de direitos sexuais e reprodutivos, apesar de ainda existirem forças conservadoras e reacionárias que pretendem voltar atrás.
Há ainda um longo caminho a percorrer para assegurar os direitos sexuais e reprodutivos a todas as mulheres. É preciso reforçar o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública para que o planeamento familiar, a saúde materna, os tratamentos de infertilidade ou a educação sexual sejam uma realidade.
*
Neste dia, saúdo hoje todas as mulheres, as mulheres trabalhadoras, as mulheres reformadas, as jovens mulheres e apelo a que não se resignem, nem se conformem e com combatividade e determinação lutem pela igualdade na lei e na vida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Álvaro Cunhal Obreiro e construtor da unidade


103.º  aniversário do nascimento

Mais de 200 pessoas participaram, no dia 10, na evocação de Álvaro Cunhal por ocasião do seu 103.º aniversário, realizada no Porto.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

10 DE NOVEMBRO, RECORDAR ÁLVARO CUNHAL




O QUE EM ALEGRIA APREGOASTE

É como morto que não procurarás novos lugares,
e, para onde olhares, não verás nem as altas montanhas
nem o fundo do mar, apenas o vento envelhecerá o pó
que agora te cobre e outros pisam – não há barco
para navegar, nem ofertas para arrecadar, outros
querem a tua alma, outros deuses conhecer
ou os fragores sábios do povo nomear,
seguir-te, ou de múltiplas e notáveis vénias
se equivocam, e cedem ao deleite e à glória
o que em alegria apregoaste, fazendo
amanhecer as manhãs e os caminhos
pela primeira vez para que fôssemos
compreender quanto poder existe
numa palavra ou no brilho
simples de um olhar.

Jorge Velhote

sexta-feira, 25 de março de 2016

Álvaro Cunhal e a Arte



Óleo sobre platex, 96X168cm

"Beleza é um critério e um juizo humano. Desaparecido o sujeito que tem tal critério ou formula tal juizo, o mundo poderia ficar tal qual é, mas como afirmar que, sem o homem, continuaria a ser belo? Belo para quem?"

A.C. em A arte, o artista e a sociedade.
“publicado por divagares”