Jerónimo de Sousa deu início em Lisboa às comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. O fotógrafo da Lusa, António Cotrim ilustra a reportagem no Expresso. Pode visitar o blog “2013 – Centenário de Álvaro Cunhal “ para se manter ao corrente dos acontecimentos relacionados com esta efeméride.
http://acunhal.blogspot.pt/
Hoje numa das faculdades da cidade universitária de Lisboa, participei na sessão de abertura das comemorações do centenário de nascimento de Álvaro Cunhal.
Uma magnifica sessão, mas houve uma passagem (a comparação do FMI com o cão buldogue) da intervenção de Jerónimo de Sousa, que me impressionou muito, permitam-me, pois, que a partilhe convosco:
"Numa lógica que nos traz à memória aquela metáfora que Álvaro Cunhal utilizou, a partir do romance de Jack London que descrevia uma luta entre cães – entre um buldogue e um cão-lobo – para caracterizar o papel do FMI face aos países que lhes caem nas mãos. Ao princípio, o lobo, ágil e agressivo, esquiva-se e assesta várias vezes os dentes no buldogue. Entretanto o buldogue, rápido consegue apanhar com os dentes o pescoço do lobo. Apanha apenas um pouco de pele, mas não o larga mais. O lobo salta, tenta libertar-se, mas o buldogue não o larga e a pouco e pouco avança, apanha mais e mais pêlo do pescoço do lobo, até o estrangular. É assim o FMI, dizia Álvaro Cunhal, hoje dizemos, é assim que age a Troika do FMI e da União Europeia e que tem como ajudante de campo um governo submisso a quem falta a dignidade do cão-lobo e que tudo faz para apressar tal desfecho".
http://expresso.sapo.pt/da-teoria-da-luta-de-classes-a-metafora-da-luta-de-caes=f780729
Da teoria da luta de classes à metáfora da luta de cães
Jerónimo de Sousa abriu em Lisboa as comemorações dos 100 anos do nascimento de Álvaro Cunhal, líder histórico do PCP, embalado por melodias de Lopes Graça e despertado por poemas de Ary ou de Gomes Ferreira, entre outros.
Paulo Paixão
22:04 Sábado, 19 de janeiro de 2013
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Jerónimo de Sousa durante a sessão solene António Cotrim/Lusa |
Não foi com a luta de classes que o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, explicou a atual situação portuguesa, na sessão de abertura das celebrações do centenário de Álvaro Cunhal.
Num auditório da Faculdade de Medicina Dentária, em Lisboa, a rebentar pelas costuras, Jerónimo lembrou hoje à tarde uma metáfora usada em tempos por Cunhal (baseada num romance do escritor norte-americano Jack London que descrevia uma "luta entre cães").
De um lado, um cão-lobo, que é Portugal. Do outro, um buldogue, que veste a pele do FMI. "Ao princípio, o lobo, ágil e agressivo, esquiva-se e assesta várias vezes os dentes no buldogue", disse Jerónimo.
Mas as coisas mudam rapidamente de feição. "O buldogue, rápido, consegue apanhar com os dentes o pescoço do lobo. Apanha apenas um pouco de pele, mas não o larga mais. O lobo salta, tenta libertar-se, mas o buldogue não o larga e pouco a pouco avança, apanha mais pêlo do pescoço do lobo, até o estrangular", relatou o secretário-geral do PCP.
"É assim o FMI, dizia Álvaro Cunhal", afirmou Jerónimo. "Hoje dizemos: é assim que age a troika do FMI e da União Europeia, e que tem como ajudante de campo um governo submisso a quem falta a dignidade do cão-lobo e que tudo faz para apressar tal desfecho".
O obreiro-mor do PCP
O exemplo teve recorte literário, mas muitos outros (recordando diagnósticos, afirmações, propostas ou previsões feitas por Cunhal ao longo da vida) foram dados por Jerónimo de Sousa num discurso que durou cerca de 25 minutos. Em todos os casos referidos, o líder comunista pretendeu demonstrar a "atualidade" do pensamento de Cunhal, "o mais notável obreiro da construção colectiva que é o PCP", como foi definido por outro orador da sessão (José Capucho, membro do comité central).
Ao longo de um discurso que durou cerca de 25 minutos, Jerónimo apresentou Cunhal como uma espécie de oráculo, alguém que com "premonitória visão" antecipou a crise atual. Mas o PCP, salientou o seu secretário-geral, afasta das comemorações "qualquer culto da personalidade" do seu líder histórico.
As celebrações do centenário de Cunhal (nascido a 10 de novembro de 1913, em Coimbra) desdobram-se, no mínimo, por dúzia e meia de sessões, de carácter muito diverso, de âmbito nacional, tendo como palcos capitais de distrito e outras localidades. Haverá ainda, até aos primeiros dias de 2014, um sem-número de iniciativas promovidas local e regionalmente, tanto por estruturas do PCP como por outras entidades.
"Dar corpo ao sonho"
Num ciclo de comemorações em que o PCP pretende chegar muito além das paredes do partido - e para isso destaca, entre outras, a faceta de Cunhal como intelectual -, a sessão de abertura não se resumiu aos discursos políticos, entrecortados pela música e pela poesia. Hoje atuaram o pianista Fausto Neves, a banda filarmónica da Academia Almadense, o coro do sindicato dos mineiros de Aljustrel, Vanessa Borges e Sofia Lisboa (militantes da JCP, que cantaram "Que parva que eu sou", dos Deolinda), o Coro Lopes Graça (entoou "A jornada" e "Acordai!", ambas da dupla Fernando Lopes Graça/José Gomes Ferreira) e Luísa Basto. André Levy recitou poemas de José Carlos Ary dos Santos e de Papiniano Carlos (um dos últimos representantes do neo-realismo, recentemente falecido).
O discurso de Jerónimo centrou-se muito no passado/presente/futuro do país numa visita guiada pelo olhar e pelo percurso de Cunhal. Só no remate da intervenção fez alusão a um desejo: "Dar corpo ao sonho que continua a alimentar e dar sentido às nossas vidas!". Já as palavras dos artistas foram ricas nas referências, por vezes de forma subliminar, ao horizonte que continua a animar os comunistas portugueses.
Fausto Neves explicou à assistência a sua primeira interpretação (Prelúdio, de Prokofief), contando como o compositor saíra da Rússia na "confusão" da Revolução de Outubro e emigrou para os EUA. Mais tarde, ao voltar à União Soviética, justificou a decisão por "ser o melhor sítio do mundo para um músico, compositor e artista".
Já André Levy, após ter declamado as estrofes finais das "Portas que Abril abriu", de Ary, recitou o "Itinerário", de Papiniano Carlos: "Os milhares de anos que passaram viram a nossa escravidão (...)/ Spartacus voltará: milhões de Spartacus!/?Os anos que aí vêm hão-de ver/a nossa libertação".
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