«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

La Lâmpara Marina - Pablo Neruda

Lâmpada Marinha 









de Pablo Neruda 


Porto cor de céu
I
Porto cor do céu
I
Quando desembarcas em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os tectos,
as janelas salpicadas do ouro verde dos limões,
do azul ultramarino dos navios,
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quando desembarcas,
não conheces,
não sabes que por detrás das janelas,
ronda, escura, a polícia negra,
os carcereiros de luto,
de Salazar,
perfeitos filhos de sacristia e calabouço,
despachando presos para as ilhas,
condenando ao silêncio,
pululando como esquadrões de sombra,
sobre janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia,
sob outonais cornucópias,
a polícia,
procurando portugueses,
escarvando o solo,
destinando os homens à sombra.

A cítara esquecida
II

Ó Portugal formoso,
cesta de frutas e flores ?
emerges na prateada margem do oceano,
na espuma da Europa,
com a cítara de ouro que te deixou Camões,
cantando com doçura,
esparzindo nas bocas do Atlântico
teu tempestuoso odor de vinhedos,
de flores cidreiras e marinhas,
tua luminosa lua entrecortada
de nuvens e tormentas.

Os presídios
III

Mas,
português da rua,
entre nós que ninguém nos escuta,
sabes onde está Álvaro Cunhal?
Sabes, ou alguém o sabe,
como morreu o valente Militão?
E sua mulher,
sabes tu que enlouqueceu sob torturas?
Moça portuguesa,
passas como que bailando
pelas ruas rosadas de Lisboa,
mas…
sabes?,
sabes onde morreu Bento Gonçalves,
o português mais puro,
honra de teu mar, de tua areia,
sabes?
que ninguém volta jamais da Ilha,
das ilhas de Sal,
que Tarrafal se chama o campo da morte?

Sim, tu sabes, moça,
rapaz, sim, tu sabes,
em silêncio a palavra anda com lentidão,
e percorre não só Portugal
mas toda a Terra.

Sim, sabemos,
em remotos países,
que há trinta anos uma lápide,
espessa como túmulo,
 ou como túnica de clerical morcego,
afoga Portugal, teu triste destino,
salpica tua doçura,
com gotas de martírio
e mantém suas cúpulas de sombra.

O mar e os jasmins
IV

Da tua pequena mão,
outrora saíram criaturas,
espantadas no assombro da geografia.
Depois, a ti volveu Camões,
para deixar-te o ramo de jasmins,
sempiterno a florescer.
A inteligência ardeu,
qual vinho de transparentes uvas,
em tua raça,
Guerra Junqueiro, entre as ondas 
deixou cair o trovão
da liberdade bravia,
transportando o Oceano a seu cantar,
e outros multiplicaram
teu esplendor de rosais e frutos,
como se de teu estreito território
saíssem grandes mãos
derramando sementes pela terra toda.

Não obstante,
o tempo te soterrou,
o pó clerical acumulado em Coimbra
caiu sobre teu rosto de laranja oceânica
e cobriu o esplendor de teu perfil.

A lâmpada marinha
V

Portugal,
volta ao mar, a teus navios.
Portugal volta ao homem, ao marinheiro,
volve à terra tua, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo à luz matutina do cravo e da espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres,
não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do Oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de Ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita Aparição do pão sobre a mesa,
a aurora,
tu, descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isso?
Como podes negar-te ao ciclo da luz,
 tu que mostraste caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e amplo Pai do horizonte,
como podes fechar a porta
aos novos frutos,
ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa,
procura na correnteza
as ondas ancestrais,
a marítima barba de Camões.
Rompe
as teias de aranha que cobrem
tua fragrante copa de verdura
e então
a nós outros, filhos dos teus filhos,
aqueles para quem descobriste a areia,
até então escura,
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que tu podes
atravessar de novo
o novo mar escuro,
e descobrir o homem que nasceu
nas maiores ilhas da terra.
Navega, Portugal,
 a hora chegou,
levanta tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volve a ser caminho.
A esta idade agrega tua luz,
volta a ser lâmpada,
aprenderás de novo a ser estrela.

Poema  inserido na campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal, 1954.

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