«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

quinta-feira, 14 de março de 2013

Reflexões lentas - a partir de leituras que são mais do que isso


Na leitura, mastigada, saboreada, de José Gomes Ferreira (Dias Comuns-VI-Memória Possível), anoto trechos que me levam a outras paragens.
A 29 de Novembro de 1968, José Gomes Ferreira comentava um artigo de José Régio em que este se vangloriava de nunca ter adulado os jovens e se ter posto ao serviço de partidos ou modas (vangloriava?, ou lamentava o isolamento que tal postura lhe provocara e justificaria o "auto-epitáfio"?).
Do comentário, retiro o trecho relativo aos partidos (e lembra-se que, então, apenas havia um partido em Portugal, resistente ao fascismo e clandestino):
«Os partidos devem pesar muito na liberdade, por certo... Mas não terão algumas vezes a vantagem de nos obrigar a vencer as mesmas dificuldades dos gigantes que dançam com cadeias nos tornozelos?»

Esta leitura lembrou outras, muito recentes, de artigos e textos (como cartas) de Álvaro Cunhal, sobre Cartas Intemporais do mesmo José Régio na Seara Nova em 1939 (quase trinta anos antes), em que Cunhal termina o primeiro artigo escrevendo:
«Não importa o homem isolado dos efeitos das suas acções. Para os homens que se digladiam na encruzilhada, um homem interessa ou vale na medida em que os acompanha na dor, na luta e na esperança.»
E, ainda a propósito de partidos - e de classe, e de tomar partido - em carta a Abel Salazar, de 1938:
«O camarada diz "não ter classe". Isso seria uma explicação. Porém, eu recuso-me a aceitá-la totalmente . O camarada ama uma classe. Compreende e sente as suas dores e as suas insatisfações. A sua atitude na vida é já uma posição tomada em relação aos combates que hoje - como sempre - se travam no mundo, combates de classes, afinal.
Apenas é necessário conhecer ainda de mais perto as grandes riquezas de sentimentos e a grande força criadora das camadas oprimidas, e ainda a beleza da energia e da luta. É necessária uma integração na classe a que se pertence, ou que se ama. (...)».

Além da convergência que leituras distantes (no tempo de escrita) suscita e se releva, há também que sublinhar que assinalar o centenário de Álvaro Cunhal é lê-lo, relê-lo, aprender com a sua vida, o seu pensamento, a sua luta. Que continua.

(também no blog
anónimo do século xxi)

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