«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

terça-feira, 28 de maio de 2013

Um belo testemunho... por tão vivo e vivido



Cose a camisola

António Borges Coelho*

Nos meados de Junho de 1957 entraram na Fortaleza de Peniche os dirigentes do MUD Juvenil condenados no dia 12 pelo Tribunal Plenário do Porto: Ângelo Veloso, Pedro Ramos de Almeida, Hernâni Silva, e eu próprio. A carrinha da Pide entrou na parada da Fortaleza. Quando abriram as portas, o Ângelo desatou a correr pela rampa acima:
- Ó Coelho, olha como é belo! - Apontaram-lhe as metralhadoras.
Subimos então a rampa para o pavilhão C, o da máxima segurança, que dominava o porto e o Largo onde as mulheres de sete saias cosiam as redes e jogavam a pela.
O Ângelo entrou na primeira cela para ver como era. O guarda fechou com violência as duas portas e correu a chave. O Ângelo tocou. O guarda abriu: - O que é que quer? - E atirou outra vez com brutalidade as portas. Verificamos a seguir que não tinham outra forma de fechar.
Pelas cinco horas, tocou o apito e abriram as celas. Olhamos para o corredor e vimos aproximar-se Álvaro Cunhal. Sorria e estendeu a mão a cada um de nós. – Boa tarde, camaradas! - Era uma aparição. Muito jovem nos seus quarenta e três anos. Os cabelos Brancos que despontavam acrescentavam-lhe a auréola. Seguia-o o Rogério de Carvalho, um companheiro humaníssimo, mas o Álvaro dominava inteiramente a cena.
A foto de Cunhal, a preto e branco, passava na imprensa clandestina. O rosto jovem, anguloso e austero, olhava para nós com uma impressionante força interior. Circulavam narrativas. Falava-se do espancamento brutal a que fora sujeito, do seu papel na organização do Partido. Líamos copiografadas as suas palavras no Tribunal Plenário. Os oito anos de isolamento na Penitenciária de Lisboa douravam-lhe a aura. Alguns de nós tinham lido o seu relatório ao III Congresso Ilegal do PCP e o opúsculo “Se fores Preso, camarada”. Havia ainda o poema “A Lâmpada Marinha” que Pablo Neruda lhe dedicara, a ele, e a Militão Bessa Ribeiro. Eu próprio, em liberdade, escrevi-lhe um poema. Mostrei-lho meses depois deste nosso encontro. - Não tens outro tema mais interessante? -
Depois do XX Congresso e do relatório de Krutchev, o culto da personalidade não era politicamente correto. A reação desfavorável de Cunhal foi genuína. Destruí o poema.
Este encontro ocorrera porque todos os dias às cinco horas, desde que não estivessem de castigo, os presos tinham uma hora de convívio no refeitório. Deixavam-nos ler, jogar xadrez, escrever à família, mas conversa só por intermédio do guarda: - Ó senhor guarda, posso perguntar…
“Pode”.
“Não pode falar em política!”
Álvaro Cunhal, como qualquer de nós, viveu aqueles dias sempre iguais. Às sete horas tocava o apito. Levantar, lavar, despejar o balde, regresso às celas. Os presos, a quem, por escala, cabiam as limpezas do dia, varriam o corredor, arranjavam o quarto de banho, lavavam a loiça e, acompanhados pelo guarda, com o mar a soprar pelas furnas, lançavam o lixo do alto das muralhas.
Ao meio-dia e ao fim da tarde, desciam a rampa em direção à cozinha onde presos comuns confecionavam o almoço e o jantar. Comíamos no refeitório em silêncio. Chicharro cosido ao almoço, chicharro frito ao jantar. Se atirássemos o arroz à parede, ficaria colado como argamassa.
Depois do almoço, quando não estávamos de castigo ou não chovia, era o recreio, uma hora ao ar livre no pequeno largo travado pela muralha. Para a frente, volta, para trás. A voz estava treinada para chegar ao ouvido do vizinho. Cunhal era o alvo principal dos presos e dos guardas. O guarda do turno andava no meio:
- Fale mais alto que eu também quero ouvir!
No recreio as conversas andavam à volta da situação política, mais animadas se chegavam mensagens clandestinas. E discutíamos literatura e pintura, os clássicos e os modernos, trocávamos ideias sobre economia política e filosofia.
Nas celas os nossos passos ficavam marcados na humidade do chão. Não havia cadeira nem mesa, só a cama onde não nos podíamos sentar e muito menos escrever. Escrevíamos, sentávamo-nos. Vivíamos em transgressão permanente.
Fechados quase todo o dia e a noite, sem mesa e sem cadeira, por vezes em condições psicológicas extremamente penosas, estudávamos. Mas faltavam os materiais de base. Para receber um livro, o preso tinha de devolver o que tinha entrado. “Não são permitidas bibliotecas”. E sempre o olho do guarda a controlar os nossos movimentos pelo ralo. Aproveitando a nossa ausência no refeitório ou no trabalho de limpeza, o Bolas passava revista aos papéis e ia mostrá-los ao chefe.
Nestas condições, o trabalho, realizado por Álvaro Cunhal na prisão, foi impressionante. Na Penitenciária traduziu o “Rei Lear” e trouxe de lá, já elaborado, o ensaio “As lutas de Classes em Portugal nos fins da Idade Média”. Na Fortaleza escreveu “A Arte, o Artista e a Sociedade”, possivelmente ainda com outro título, um outro ensaio sobre a literatura portuguesa dos anos quarenta-cinquenta, a novela “Cinco Dias e Cinco Noites” e “A Mulher do Lenço Preto” que receberia o título final de “Até amanhã, camaradas”. Todos estes manuscritos, menos “A Mulher do Lenço Preto”, viajaram para a minha cela debaixo das camisolas, uma delas, rota no cotovelo.
- Cose a camisola!
Eu fazia ouvidos de mercador. Insistiu que lha desse para a coser. E coseu.
Na Penitenciária e na Fortaleza, Álvaro Cunhal desenhou a carvão o povo operário e camponês, os pescadores e as mulheres de Peniche no jogo da pela, as assembleias do povo em luta. Tinha obtido uma autorização especial que lhe permitia receber livros de arte. Ao pavilhão C chegaram álbuns de Velasquez, El Grego, Bruegel o Velho, Goya, Delacroix, Van Gogh. “O Filho Pródigo”, “Las Meninas” ou “A Velha Fritando Ovos”, “Os Céus de Toledo”, “As Seara e os Corvos”, de Van Gogh, ou o “Saturno”,  de Goya, iluminaram clandestinamente o branco das nossas paredes.
As janelas gradeadas das celas eram altas e em guilhotina. A vista para o exterior ficava cortada. Pedi ao meu pai uns socos que me permitiram chegar com os olhos à frincha e ver as ondas do mar a bater no Baleal ao fundo. O Álvaro ficava na segunda cela virada para o porto, o Rogério de Carvalho na cela do lado, depois ocupada pelo Carlos Costa.
É quase impossível inserir acontecimentos nos quase dois anos e meio que vivemos na Fortaleza de Peniche. Os dias corriam iguais, alterados pela saída de camaradas ou a chegada de uma nova fornada. Perdemos a luta contra a construção do parlatório. Blindado por um vidro espesso, impedia qualquer contacto entre o preso e o familiar e obrigavam-nos a falar muito alto com guardas dum lado e do outro lado. Mas ganhamos outras pequenas batalhas.
O enfermeiro da prisão descobriu o que os médicos não tinham descoberto. Cunhal tinha de ser operado a uma fístula provocada, ainda em liberdade, pelas longas viagens de bicicleta. As greves de 1943, de 1944 e 1947 tinham alargado a influência do Partido clandestino no meio operário, em muitos sectores da população camponesa, na pequena burguesia e também entre os intelectuais. A bicicleta ficou como símbolo da entrega revolucionária. Ela ligava o Partido ao País dos humilhados e dos ofendidos.
Quando levaram o Álvaro para ser operado, a Fortaleza ficou mais vazia. Faltava a sua palavra, a alegria contagiante e diária, mesmo nos momentos mais difíceis, a sua fé. Peso da palavra.
Nada nem ninguém consegue travar um preso, mesmo mergulhado numa cela ou num buraco, aparentemente com o nada como destino. Há sempre qualquer falha que escapa ao carcereiro.
Álvaro Cunhal, Jaime Serra e mais oito companheiros fugiram da Fortaleza de Peniche no princípio da noite de 3 de Janeiro de 1960. Salazar tremeu.
Dessa noite ficou-me nos ouvidos o grito:
- Ó da guarda, fugiram os presos!
Ficou também o ruído das botas da ronda que vinha render a guarda e os disparos sem nexo e intermináveis das metralhadoras. O guarda prisional chorava. Toda a noite, o abrir e fechar das celas, o cheirar dos cães e na parada as portas dos carros a bater.
Uma tarde, durante a lavagem da louça, falei ao Álvaro na prática socrática e cartesiana da dúvida para atingir a verdade. Não a punha em causa, mas respondeu-me que as dúvidas não o atormentavam, querendo significar que não alteravam o caminho que traçara.
A queda do muro de Berlim e o colapso da União Soviética feriram-no profundamente, mas não destruíram a sua confiança nas promessas da história e da teoria.
Nos últimos anos, meio cego, compararam-no ao rei Lear, mas a mente continuava ágil. Não saía. Queria preservar a imagem e a dignidade. Ele sabia que era símbolo, quase mítico, de décadas de luta e de sacrifício.


*Historiador

(publicado na revista Seara Nova, nº1723,

Obrigado, Ana Goulart)

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