«Álvaro Cunhal é uma personalidade marcante, em Portugal e no mundo

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domingo, 14 de abril de 2013

Carta de Álvaro Cunhal a Abel Salazar


(Fresco de Abel Salazar)

Caro Dr. Abel Salazar:

Venho de ver a sua exposição. De início, choca a distância entre dois temas: a mulher ociosa e a mulher que trabalha. Custa a compreender como uma mesma sensibilidade pôde sentir a beleza serena e cuidada da mulher que vive para si para os seus vestidos, o seu “ménage”, o seu aspecto e a beleza do vigor e do esforço da mulher que luta pela vida e pelo pão, e que, por tal, se verga sob insuportáveis fardos.
Esse contraste tenho-o como a maior lição talvez dada involuntariamente a tirar da exposição dos seus trabalhos.
Mas se da parte do artista não houvesse apenas vibração ante o "espectáculo" do trabalho; se houvesse também uma compreensão do que remediavelmente doloroso tem esse trabalho; então haveria que exigir mais.
Mais que os bustos ajoujados pelo esforço. Mais que as mãos crispadas pelo desespero. Mais que as feições sombrias e trágicas. Mais que os braços enrodilhados sobre o tronco, a exprimirem retraimento forçado de aspirações. Mais que os passos cansados. Haveria que exigir do artista uma compreensão paralela da beleza serena das elegantes burguesas, do que essa beleza deve a esses outros corpos deformados, do que essa serenidade deve a essas outras almas inquietas e angustiadas. Das “burguesinhas” haveria que traduzir o egoísmo, a vaidade, o vazio de sentimentos e -acima de tudo o seu desprendimento e desinteresse por aqueles a cujo esforço devem tudo com que se adornam e pintam, tudo o que comem e bebem. E haveria ainda que ridicularizar. Não quero dizer que se deformasse a realidade. O que é lamentável não é o facto de o artista não traduzir assim o mundo. Porque se assim o não , assim o não deve traduzir (exige-o a sinceridade, a base de toda arte séria). O que é lamentável é o facto de o artista assim o não ver, assim o não sentir. Porque, caro doutor, são dois mundos sim, mas que se interpenetram e explicam mutuamente.
Por isso, tenho como parte de mais interesse na exposição a série de quadros de mulheres no trabalho. Ao contrário do que sucede com muitos pintores "modernos" nãoum embelezamento artificial da mulher trabalhadora. Ela nas feições contraídas, e nas atitudes desalentadas ou desesperadas, e na tragédia dos olhos que procuram resistir à sombra e à sonolência da fadiga, se adivinha o descontentamento e a vontade de libertação - mal definidos ainda, talvez excessivamente instintivos, num passo para o levantamento e para revolta.
A mulher trabalhadora aparece mergulhada nas trevas poirentas das oficinas, onde raras manchas de luz lembram que no nosso país o sol brilha. Ou então, os seus pés descalços e inchados chapinham dolorosamente na lama. As roupas são ásperas, sujas, suadas e bafientas. As cabeças abaixam-se sob o peso do fardo. Porém não é o desalento que as atira irresistivelmente para baixo. As cabeças não pendem. Vergam sim mas retesadas e enérgicas; suportando, mas reagindo. Essa sua série de trabalhos marca uma posição nova na nossa pintura moderna. Constitui uma primeira interpretação vigorosa, realista e revolucionária do mundo do trabalho.
Sem dúvida, eu não tenho a pretensão de dizer-lhe coisas novas, nem de lhe dar conselhos. Mas, vendo a sua exposição, senti-me no dever de encorajar o artista, de o incitar a ir mais longe, mesmo que a coragem lhe não falte e seja seu propósito assente ir ainda mais longe. Mas ir mais longe com determinada direcção. E, na demarcação dessa direcção, vejo com desgosto muitos jovens progressistas deixarem agradar-se mais pelas "notas de Paris", que pelas múltiplas «mulheres no trabalho».

Álvaro Cunhal

Mais: Gostaria de ter um quadro seu, mas não posso comprar. Isto, de certa forma, é uma afirmação brusca e inesperada. Mas também é franca e sincera.

domingo, 24 de março de 2013

A diferença


 
«É uma visão idílica imaginar que o Mercado Comum é uma associação de países ricos e filantrópicos, prontos a ajudar os países mais atrasados. O PCP tem assumido a defesa das relações económicas e comerciais com a CEE. Mas tem considerado que uma integração provocaria ainda maiores dificuldades à economia portuguesa… Os países do Mercado Comum defendem os seus interesses próprios e por eles estão prontos a sacrificar os interesses dos outros. Mesmo quando admitem o alargamento da comunidade a Portugal, Espanha e Grécia, não é para ajudarem os países que estão de fora mas para que a entrada destes sirva os interesses dos nove que já estão lá dentro... Nós, comunistas, não aceitamos que as decisões acerca dos problemas nacionais caibam ao imperialismo, caibam ao estrangeiro!»

(Álvaro Cunhal, «Discursos», 1980)

sábado, 2 de março de 2013

Dois excertos...

Dois excertos de uma carta de Álvaro Cunhal, de 7 de Dezembro de 1938, que consultei por outras razões que não as deste blog... nem as deste dia:

  • «Diz o camarada que saíu da sua "tragédia íntima" - que, mais ou menos intensa, é a de todos os intelectuais sinceros que se esforçam por se fundirem com as massas anónimas - "sem pátria, sem classe e sem preconceitos... mesmo intelectuais"»

  • «Quem não tenha classe não pode compreender a luta de classes. Quem não tenha classe não pode com exatidão definir os símbolos das classes antagónicas.»

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

(re)Leituras urgentes…




Quanto mais não fosse para demonstrar que aquela coisa “maluca” do Facebook não serve apenas para as avozinhas e os avozinhos partilharem fotografias dos netinhos, ou para Cavaco Silva e Passos Coelho partilharem alarvidades… muito antes pelo contrário, pode ser mais um espaço para estarmos “de pé”… aqui fica, acabadinho de “surripiar” à página de Facebook do PCP-Carnaxide.


«No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.»

Álvaro Cunhal, «O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista», 1970.